sábado, 11 de abril de 2026

BELA AKMADULINA, poetisa russa

 Hoje nos separamos para sempre

e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: "Vou embora, adeus!"

Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!

Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.

A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobe pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos

(escrito por Akhmadullina quando se separou de Yevtuchenko)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Palavra e o Ser

 

Vou deixar você a vontade, 

muitos desejam impor, 

outros manipulam...


Que as palavras 

sirvam de remédio letrado, 

e servem. 


Luto com as religiões 

para as palavras 

serem donas das letras, 

literatas


Nem sempre os versos rezam...


Deixar a compreensão 

chegar no seu tempo, 

sem  aflições, 

calmamente, 

como se estivesse só 

na alta noite, 

descobrisse a verdade 

sem esforço.


Assim, 

poderás abrir a vela da vida, 

e aproveitar as monções 

que surgem no caminho.


Deixar a indignação 

somar-se em seu dorso, 

poder explodir 

contra a injustiça, 

abraçar os menos letrados ...


Ando cabisbaixo com as palavras, 

tem ferido a muitos...

precisam ser recitadas

quinta-feira, 9 de abril de 2026

TEMPESTADES NO HORIZONTE

 


Estamos cada vez mais próximos dos campos de batalha.

Os girassois estão sendo arrancados, para construírem trincheiras.

Abriram mão das palavras, e seguem como se fossem zumbis.

Esqueceram o calor do afeto materno, do colo paterno, lá do início de suas vidas, de que foram criancas e brincaram, e que o mundo era o jogo de domingo.

Instigação a desconfiança e a mentira, a ponto de perder o equilíbrio nas análises e colocar o ódio em primeiro lugar.

Estamos perdendo esta batalha a qual querem nos jogar para morrer.

É preciso acender, novamente, a esperança num mundo melhor e para todos, acreditarmos nas utopias, e alegrar-nos desde já.

O amor fraterno é o antídoto para os que defenden  ordens unidas e flexões.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

ENFIM

 


Não sei o que é terminar...

Talvez nunca saiba, 

nunca termine...

percorrer constante,

plenitude inconstante.


Meio sorriso, 

meio choro, 

meias conquistas, 

meios fracassos,

objetivos sempre intermediários...

um horizonte à perder de vista.


Sou uma tênue linha 

que se basta em caminhar, 

com ansiedade 

permanentemente 

suspensa.


durmo desperto

acordo sonolento, 

assédios opostos, 

conflitos compostos...

mal faço o bem, 

bem faço o mal, 

nada completo, 

nada encerrado.


Quem sabe um beijo 

retido nos sonhos, 

quem sabe um abraço 

esquecido na frieza, 

tragam um fim imediato, 

e possa dizer enfim de algo:

Terminei !

Sinto-me realizado.


O hoje...sim o hoje

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O LADO OCULTO DA LUA


O lado escondido da Lua 

guarda nossos segredos 

mais íntimos, 

impublicáveis.


Vive em nossos olhos... 

vasculha 

além valores,

odores 

faros ancestrais 

scio da Humanidade,  

quando a natureza 

prevalece na vontade. 


Lado oculto 

das taras insepultas, 

guardadas a sete chaves, 

nunca deixa de ser reto, 

ser descoberto.


Lado amante, 

fluente, 

erótico, 

ternamente 

carente


Lado libido, 

inibido, 

mórbido, 

transgressor, 

possessivo...


Lado verdadeiro, 

inteiro, 

incontido, 

mudas declarações,

silencioso pecador noturno. 


Meu lado oculto da Lua 

sonha eclipses, 

transborda para fora


Ah...perigoso lado oculto, 

embriaga, 

perde-se e encontra-se 

entre meus passos, 

meus olhares

domingo, 5 de abril de 2026

QUANDO MORRE UMA POETA

 

(em memória de Thereza Rocque da Motta )


Quando um poeta morre, 

um encantamento 

nas palavras 

desaparece, 

e uma realidade dura 

vem à tona.


Quando morre uma poeta, 

morre também 

a esperança na paz, 

diante de todas as guerras, 

os corações sofrem desolados.


Ai, quando vem a notícia 

de que um poeta 

já não está mais conosco...

sem o sereno consolo 

dos versos.


Tão difícil viver 

sem sua mansidão 

diante das investidas 

do desamor, 

eterna dor.


Como viver 

sua ausência poética, 

ambientes de violência, 

tiranias, 

torturas, 

segura as agruras


Quando uma poeta 

se despede,  

é como Jesus  

entre morte 

e ressurreição, 

perde-se o norte, 

a canção,

não sabemos 

como se foi, 

não sabemos 

como ficamos.


Permanece 

a ausência 

a solidão, 

ecoam palavras 

esquecidas 

não ditas, 

angústia dos que ficam.


Quando se vai 

a paz de uma poetisa 

ficamos sempre órfãos...

sexta-feira, 3 de abril de 2026

IMPUBLICÁVEL

 


Não! Não me gabo do quarto...


Ele tem meus segredos 

mais infames, 

impublicáveis.


Nele torno-me 

o mais profano usurpador 

das minhas quimeras,

escavo meus limites 

compartilhados.


Nestes momentos despeço 

o anjo e o arcanjo, 

as ordens e as bandeiras, 

e sem eiras nem beiras, 

solto minhas enzinas 

mais primitivas.


Os limites desaparecem 

diante da liberdade do amor


Ah meu quarto impenetrável..

BELA AKMADULINA, poetisa russa

  Hoje nos separamos para sempre e isso faz o mundo transformar-se. Tudo nele anuncia a traição: os rios vão se afastando das margens, as nu...