segunda-feira, 4 de maio de 2026

TERMINO

 


Termina o dia,

termino com o dia...

Não sei como percorri, 

quanto percorri, 

se percorri

se deixo o coração

inteiro e em paz.


Uma sensação de derrota 

consome a noite.


Os cães latem lá fora 

para o quê? 

Para quem?


Não me adapto 

ao que acontece...


Sim, alegro-me 

quando amanhece, 

canto, respiro

mas segue o dia, 

esta força amainece, 

desfia.


Então busco estar só, 

resisto:

É so um dia!

Amanhã será melhor.


Assim, 

vou seguindo o tempo,  

cultivando 

uma esperança atroz 

em meio a destroços.


Quando chega a noite

Deixo os olhos 

olharem-me

nesta solidão.


Perceberão uma tristeza 

que escondo 

para que ninguém saiba: 

de não ter 

a quem recorrer 

este indagar da vida

de tanta gente perdida 

em falsas urgências, 

indiferentes.


Longa noite, 

esta minha, 

sem ninguém...

só... 

irremediavelmente só

MEA CULPA

 


Que culpa tem o Sol, de mim?

Deixe-o brilhar...

Que culpa tem  a Lua de seus amantes, 

deixe-os apreciar.

Que culpa tem o coração de seus muitos batimentos ? 

Deixe-o pulsar

Que culpa tem os olhos de tudo observar? 

Deixe-o discernir

Que culpa tem as diferenças em seu divergir.  

Deixe-as ensinar.

E as montanhas, que culpa tem em elevar-se? 

Deixe-as desafiar.

 Nada tem em si alguma culpa, 

deixe ser...a vida sempre continua...

domingo, 3 de maio de 2026

SOBRA...

 


Sou a sobra 

de tuas alternativas, 

aquele que te acolhe 

quando tudo desmorona, 

apelo derradeiro.


Estou presente na esperança, 

doença desconhecida, 

falência irreversível, 

na solidão do perseguido, 

alimento do esfomeado. 


Tenho as simples solucões 

na simplicidade da vida


Sou o sempre esquecido, 

raramente lembrado, 

presente na dor, 

último apelo.


Ensinaram-me assim...

a servir,

servir, 

servir


Sou o nada, 

o vazio, 

o abandonado, 

muitas vezes impróprio, 

digo o que não gostam de ouvir


Venha sempre,

quando quiser...

sou todo ouvidos,

estou na escuta, 

à sua disposição, 

mas se demorar. 

já sabes...

continuo por aqui...

sábado, 2 de maio de 2026

DISTANTE

 


As estrelas escondem 

segredos distantes, 

longe da imaginação.


Sequer geram esperanças, 

pulsam soltas, 

coladas a um céu inatingivel


Perdi-me neste olhar sem sentido.


Buscava explicar a rua, as pessoas,  o poder...


Impossível. 


Por isso, 

descia à pé 

o trajeto 

todos os dias...


Explicavam os peixinhos amarelos 

presos aos aquários, 

as mudancas inesperadas 

da velha ordem...


Olhar incansável 

de perguntas e buscas, 

nunca cessam


Por isso continuo olhando as estrelas 

em seus segredos distantes

sexta-feira, 1 de maio de 2026

AQUELA VOZ...

 


Aquela voz continua em minha mente...


Formou um ninho na língua, 

gravetos de letras...

descansam em barcos 

escondidos em portos 

antes das tempestades.


O choro das velhas raposas 

revela histórias retidas...

imaginam o perigo 

caso venham a público.


Continua em minha mente aquela voz, 


Pede a libertação do sonho, 

o escalar das altas montanhas, 

não pode mais represar 

o fulgor das estrelas 

no universo profundo


Por isso chora 

como as raposas, 

retidas pelas velhas histórias 


Em minha mente aquela voz continua.


Não sabe onde 

as criancas se escondem

se atrás das palavras 

ou das poltronas

ou dos vasos de letras


Sei que ainda continua, 

não sei como 

aquela indecifrável voz 

em minha mente, 

grudada entre os dentes, 

pedindo para sair, 

ser entendida...

terça-feira, 28 de abril de 2026

CORPO



Vou morder tua boca 

a qualquer hora, 

segurar as palavras 

nas línguas mortas.


Abracar 

tuas costas 

nuas, 

órfãs, 

pagãs.


Afagar suas coxas  

onde sou parido 

sem razão 

sem sentido.


Vou deitar-me  

em  afã de silêncio 

o desencontro 

dos horários.


Vou confessar-me 

viciado  psicótico 

naturalizado, 

nem aqui 

nem lá

NINGUÉM ME RETIRA

 

Ninguém me retira 

o barro das ruas, 

as lajes descobertas  

o amontoado incômodo, 

nos poucos cômodos.


Ninguém me retira 

a espera do bico , 

a vigilia das lágrimas, 

escorridas orações...

sofridas.


Ninguém me retira 

o querer ser normal, 

no sufoco do ônibus 

intermunicipal.


Ninguém me retira  

o vai e vem

das noites, 

as unhas sujas, 

o pó deixado na roupa


Ninguém retira  de mim

o retirante

a terra natal, 

onde deixei fincado 

um coração armado 

num mastro de São João .


Ninguém me retira 

os domingos 

do lado de fora

nas ruas cruas, 

espaço vital

TERMINO

  Termina o dia, termino com o dia... Não sei como percorri,  quanto percorri,  se percorri se deixo o coração inteiro e em paz. Uma sensaçã...