terça-feira, 26 de maio de 2026

INÉRCIA

  


Não sei terminar, 

sou dos que arrastam 

convicções inertes

ondas revoltas em rochas.


Não tenho fim, 

reconheço 

uma atemporal 

permanência, 

falsa consciência, 

crendo em mudancas 

imprevistas. 


Nada acontece, 

passam--se os dias, 

os meses, 

anos, 

a vida! 


Tenho a sensação 

de tudo paralisado, 

novidades 

envelhecidas, 

repetição morna, 

cozimento lento.


Tão revoltado com tudo, 

sinto este estado de morte 

que me recobre.

silhueta que padece, 

palidece, 

falece. 


Nada acontece...


Se vejo, 

é um rosto 

repousando numa tumba, 

e a multidão admirando 

entre conversas memoriais...


Fétido poder 

de conservação, 

paralítico  milenar 

retendo vidas...

VERDADE RELACIONAL

 


Meus limites 

excedem paciências, 

por isso me calo.


Estabeleço limites aos limites, 

desconhecimento de fronteiras 

aceitas como tais.


Não há como 

não me testar 

no outro, 

em suas diferenças, 

seja aprendendo, 

seja ensinando.


Busco no outro 

uma verdade 

que me invada... 

comparo-a 

ao repertório 

incompleto 

de senões 

que proclamo 

com clamores 

ansiosos 


Não encontro 

um fim, 

ainda que o persiga.


Sou social, 

relacional, 

nada se completa 

em mim, 

a não ser 

em você.


Concluo-me 

um carente 

de gente, 

indigente,

e me ponho por aí,  

na estrada da vida

sábado, 23 de maio de 2026

NEM POR ISSO DEIXEI DE SER...

 

Estar acostumado com o aperto,
sinal vermelho dos bolsos,
esperas colossais.
Cigarras entre chuvas e Sol,
algazarras de crianças,
nós em gravatas.
Canta e reza,
preza o coração,
antes da razão,
devastam...
A paisagem usurpada
confunde verde,
amarelo,
pátria,
traição,
humanidade,
exclusão.
Dedos rítmicos respondem
compassos novos,
entrelinhas de respostas.
Um horizonte multicor
aguarda maturidade,
Fome e vida permeiam idéias,
sede de espaços proibidos.
O presente requer olhares abrangentes,
(menos seletivos),
bocas roucas,
ouvidos amplos e compreensíveis.
E caminhar, caminhar...

SENSAÇÃO ESTRANHA

 


Ando com a sensação 

de estar perdendo o jogo.


Diariamente vejo o noticiário 

com a esperança 

de que as guerras 

já estão no fim, 

que os adversários 

estão conversando, 

tratando suas diferenças 

com respeito mútuo, 

que a fome 

está sendo erradicada, 

os que tem, 

partilhando 

com os que não tem, 

e um ambiente de paz 

tomando conta do ambiente.


Sensação de ausência, 

de estar faltando algo, 

um vazio crescente...


Passam os dias...

xingam, 

matam...

a ferocidade não tem limites.


Perderam 

conscientemente 

a razão, 

por interesses  

econômicos, 

materiais,

desumanidade, 

sei lá...


Nas ruas vejo jovens 

sem perspectivas, 

desperdiçando o tempo 

em coisas fúteis, 

que nada acrescentam.


As pessoas seguem 

seus mesmos trajetos de sempre, 

vão e voltam. 


Acostumaram-se 

com o mesmo de sempre, 

seus proprios destinos 

sem desafios.


Tempo de resignação,  

e essa sensação 

que incomoda tanto, 

de estar perdendo o jogo...

quinta-feira, 21 de maio de 2026

CHEIO DE MIM VAZIO DE MIM

 


Enchi um pote 

com poemas 

fermentados 

nas dores.


Quem bebe 

sofre de amores 

paridos nas esquinas 

onde as dúvidas 

penduram saias 

manchadas de sangue...


Gritei 

o coito 

atrasado, 

balbuciando 

palavras 

proibidas, 

inibidas 

nos versos, 

depois, 

dormi 

satisfeito

quarta-feira, 20 de maio de 2026

FORTUITOS


Os tempos visitam,
uns aos outros
em desacordo entre si.
Não se entendem
em suas badaladas,
horas que se confundem.
Tornam a lembrança
presença morta,
mirra de desventuras,
transcendem
a realidade
estática.
Guardam histórias
incontáveis,
submetem sonhos,
embranquecem cabelos,
confrontam cenários.
Despertam
alta noite,
detêm-se,
por instantes,
no presente,
como um ausente...
estão, não estão,
depois vão,
como se não
tivessem vindo.
Perseguem
um rearranjo
que delimite
fronteiras distantes
do ser,
mantendo o percurso,
nada descartando.
Buscam razões
de estarem aí,
ao lado,
interpelando
caminhos,
corrigindo.
Por fim,
dissolvem-se,
fortuitos...

segunda-feira, 11 de maio de 2026

LOGO APAGA...

 


Se negam tudo tanto, 

deixem-me ser, 

ao menos, poeta, 

e já basta.


Fiquem com o mundo!


Explorem o povo 

até a exaustão!

guerrreiem!

matem!


Que sobre 

apenas a poesia 

para mim, 

este é o meu pão.


Meu coração 

é manso, 

busca um pasto 

em algum campo 

esquecido por aí, 

para passar o seu dia,

não comporta 

violência, 

ódio, 

morte.


Atenção!


Não digam a ninguém 

onde estou, 

finjam 

que não me conhecem.


Se quiserem encontrar-me, 

às altas horas da noite, 

ainda verão uma estrelinha, 

fraquinha..., 

na borda 

do monte dos desejos. 


Este sou eu...


Como vêem,  

não é preciso 

dar atenção, 

logo apaga...

INÉRCIA

   Não sei terminar,  sou dos que arrastam  convicções inertes ondas revoltas em rochas. Não tenho fim,  reconheço  uma atemporal  permanênc...