terça-feira, 4 de agosto de 2026

INSENSATO

 


Ser pequeno, 

impulso sereno, 

após derramadas 

lágrimas orgulhosas.


Quantos voos vãos 

consciência 

de desilusão,

escapam 

entre as mãos...


Sigo 

um aprendiz, 

de derrota 

em derrota, 

do que fiz;  

e não fiz, 

em silêncio 

como abrigo

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

SEM EXPLICAÇÃO

  


O fim não conheço, 

o início não lembro, 

agora está passando...

não sei como vim, 

não estou certo 

de onde estarei...

como estou 

é consequência, 

um tudo 

sem começo 

nem fim.


Etéreo caminhante, 

letras                          soltas 

      em forma 

      de encontro.


                 Fluido tempo 


escasso 

espaço


O que faço 

aonde,

neste agora?

CALABAR de Betty Vidigal

 Em calabar teu nome tantas vezes, 

denunciei aos portos teu ofício. 

Que não permitam mais o contrabando 

da muamba invisível, 

o difícil

descaminho dos sons. 


Esse ritmo cravado na memória.


Da muamba invisível, esse ritmo 


cravado na memória

(dez sílabas, seis sílabas,

não sei 

quem plantou as provas na bagagem). 


Não compreendo que exponham nas vítrines

as sedas, porcelanas, os temperos, 

especiarias exóticas, as quebras

de ritmo e contratos

contrabandeados. 


Calabar

é verbo e metonímia.

Adelante!

Denuncio à autoridade aduaneira

os planos e as mudanças

de quem mudou de lado tantas vezes. 


No pasarán! 

No pasarán pelo fio da navalha

da alfândega. 


Fiscais aduaneiros, 

revistai também os bolsos de quem chega

carregando perfis e avatares. 


Carregando perfumes e lembranças.


Transportando perfumes e lembranças,

especiarias exóticas, essência


de sábados.

domingo, 2 de agosto de 2026

À RISCA...



A lágrima suspensa 

entre a saudade 

e a tristeza, 

impregnada ao rosto,

fugira do controle, 

das prisões...


A alegria ocultara-se 

definitivamente...

alojara-se na gratuidade 

desprovida de sentido 


De resto eram beijos 

fechando os espaços, 

abraços nos quartos, 

murmúrios soando

confissões...


Era tarde, 

estava envolto 

na trama algorítmica, 

gaiola do pensamento.


Hoje sigo à risca 

o estrito recitar, 

observando 

se captam 

o código 

da vida, 

escondido 

entre as palavras

AIS & RAIARES

 


Ai que eu pego meu caminho uma hora destas e deito a falar dos sonhos que estão aprisionados no Xeol, em ossos...

Ai que em algum momento há de se despertar diante desta imensa sonolência que se abateu sobre os quatro cantos do jardim da criação, não descansa de dormir...

Ai dos iletrados, que secam as vistas em sacrifício de suas farsas bem montadas, verdadeiros becos de cânticos impostados...

Ai do Sol e da Lua se não produzem mais o trabalho e o amor,  como ficam os órfãos das matriarcas ao redor destes mantras fabricados.

Ai de mim, de ti, de nós, correndo de um lado ao outro, neste vasto não, porque não, não pode...

Ai das flores sem aromas, dos manjares mitológicos, desnudados, perseguindo ninfas esquecidas?

Há de raiar uma hora este espaço de letras fundidas à vida, tão desejados anseios,  materializados...

Há de se conquistar as quentes veias que pulsam o ardor dos prazeres embebidos na verdade, ovelhas das montanhas íngremes...

Ponho tudo nas Palmas das mãos...está nítido...

sábado, 1 de agosto de 2026

DESCOBERTO

 


Era noite e um grande pátio cobria toda a realidade, ligava  cômodos de lares inexistentes e poderes ocultos, sem portas...quando via, já estava nos ambientes

Estava só, como um protetor incapaz, um libertador a ser tentado. 

Toda sorte de oportunidades me era apresentado. Olhava aquela vastidão, vazia de gente, e me dava conta da solidão que me encontrava, junto a imensa responsabilidade coiocada. 

Não haviam poderes presentes que pudessem  determinar o que se podia ou não fazer...

Várias camas,  encostadas lado a lado, davam a dimensão de um convite promiscuo que não acontecia... vulneráveis inconsistências. 

A igreja fazia parte das sombras, não era vista, implícita...

Não amanhecia...

Tinha a responsabilidade de proteger ninfas virgens,  e sofria, fraco, por responsabilidade tão elevada, hercúlea, vulnerável fauno, travestido de eunuco.

Tinha nas mãos a flauta dos convites perdidos no tempo...e uma mescla de carícias protetoras transgredindo.

Sentia-me a incapaz de mim, fortaleza sem defesas.

Segurava-me como podia...toda a formação e experiência eram testadas naquele instante. 

Quem sabe estivesse preso... mas não,  tinha toda a liberdade a meu dispor

Frades andavam, sós, sem ação, com suas batinas cinzas, escondendo os rostos, para lá e para cá,  para lá e para cá...

Não se ouviam tiros, não haviam perseguições,  apenas eu vulnerável, podendo tudo, e sofrendo pelo que é justo..

O sonho continuou em mim já desperto,  com desejos contidos, sublimados, como se fizessem parte da realidade. Meu amor dorme ao lado, e o cão aos pés...

Conheci esta noite meu verdadeiro tamanho, minha imensa fragilidade.  

Entendi porque buscar a Deus...

SUBVERTENDO O TEMPO

 


Como gostaria 

de reunir o tempo, 

passado e futuro 

num presente, 

trazer meus pais, 

irmãos, 

parentes, 

amigos 

num encontro 

possível


Não posso...


Então lanço-me 

em lembranças 

ainda criança 

com meus pais, 

em seus colos

em casa, 

numa ingênua 

convivência 

desconhecedora 

das perdas.


Como doem 

as ausências...

insubstituíveis, 

incapacitantes


sofro 

impossibilidades, 

incapacidades, 

insuficiências, 

poder que não tenho, 

deus que não sou...


À noite, 

só, 

vêm 

à mente 

nomes, 

situações, 

acontecimentos... 

ausências 

preenchem 

o vazio 

que adentra.


Estou só, 

patriarca solitário 

em um mundo hostil

INSENSATO

  Ser pequeno,  impulso sereno,  após derramadas  lágrimas orgulhosas. Quantos voos vãos  consciência  de desilusão, escapam  entre as mãos....