sábado, 20 de junho de 2026

FRIO HUMANO

 


Fria noite, 

desprotegida...

fria humanidade,

desabitada...

frio amor 

coabitado...


Fria miséria

rica,

indiferente 

ao padecimento

da gente,

falsifica 


Fria rotina, 

neblina 

cega, 

que apega,

fina, 

confina  


Frio interior.. 

de amor 

fugidio...

morte 

sem fim, 

calafrio, 

exterior...


Frio algoz 

em nós 

penumbra 

permanente, 

pendente...

desfigurada,

incrustada


Frio mudo, 

mortal, 

na espinha, 

na mente,

caminha,

imanente 


Frio de tudo, 

de ventos 

polares,

isolamento 

mudo

fechado 

nos lares.


Frio 

de busca 

inútil, 

fútil,

terminal...


Frio humano...

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O DEMOLIDOR DE MUROS

 


A vida tem muros...


Tenho encontrado muros

no decorrer do tempo.


Detenho-me diante deles 

sempre que surgem, 

não são convidados 

a participar da festa, 

mas vêm.


Possuem tamanhos diversos, 

fazem-se de intransponíveis, 

deixam a impressão 

de que ali 

terminam meus passos, 

velhos passos.


Já ultrapassei vários deles..


Quando me viro,  

olho para trás, 

nem sempre vencê-los 

trouxe gosto de vitória, 

mas alívio, 

consciência de que algo 

se perdeu, 

atrasou.


Agora mesmo

está aí um muro imenso, 

com seu sentimento 

de impotência, 

convidando a desistir, 

ficar na constante maré.


Quer que pense

não ter força suficiente 

para derrubá-lo, 

cheguei ao fim do caminho.


Pacientemente 

me dou conta 

da aparência 

do obstáculo, 

encontrando saídas, 

continuando em frente.


Aprendi a desafiar muros...

não são tão grandes 

quanto parecem, 

quando nos pomos 

a resolvê-los


Surgem a todo instante, , 

aparentando maiores.


Sou um demolidor de muros. 


Estão sempre à minha frente, 

e eu sempre à derrubá-los.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

PROCUREM-ME AMANHÃ

 


O que faço de mim, 

neste fim de tarde 

em que tudo 

perde o sentido 

e recolho-me solitário?


Melhor guardar-me 

em silêncio

sem que voce 

veja o que vi:

a fome de sempre, 

a guerra de sempre, 

as pessoas 

e os pensamentos 

de sempre,

suas imensas formalidades...

esta horrivel sensação 

de que tudo permanece igual.


Melhor recolher-me 

a um canto, 

sem encanto, 

por enquanto, 

até que possa

ver novamente 

o Sol 

desvendando a escuridão, 

a Lua 

despertando a amor, 

o mar, 

abrindo o horizonte, 

criancas brincando 

na praia, 

casais namorando...


Quem sabe assim 

possa passar 

esta sensação 

tão real, 

de que vivo 

um mundo falso 

de representações, 

e não haja ninguém 

por trás disso, 

só falsidades.


Então, combinemos,

procurem-me amanhã, 

e possa já ter retirado

esta sensação 

tão estranha 

de vazio, 

que me assombra 

neste final de tarde...

segunda-feira, 15 de junho de 2026

ANTES QUE AMANHEÇA

 

Antes que amanheça 

deixo-te alguns sonhos, 

quem sabe precises 

de algum deles 

no decorrer do dia.


As terapias noturnas 

refazem rotas.


Deus mesmo 

pode ver-se 

aí incluído, 

sem liturgias, 

fazendo-se de amigo.


Antes da noite 

empalidecer-se 

dos lados do horizonte, 

poderás fazer 

as ponderações 

tão desprezadas,  

em meio a um 

sem número 

de ações vorazes.


Antes que o dia aconteça, 

é de bom alvitre 

entender o universo 

contido no travesseiro,

viagens inusitadas 

a cidades paradisíacas, 

visitas que te transpassam, 

voláteis, 

vertigens de ausência 

de elevadores, 

inflexíveis ascensões,

amores semelhantes 

ao da amada, 

distantes, 

necessitando 

de abraços

constantes


Quanto mais persigo 

mais abrem-se 

as alternativas, 

e vejo como sou 

indesejavelnente 

simples e modesto


Poderás então dizer de ti 

com a mansidão 

de quem se viu de fora,

desejos soltos 

em campinas enluaradas, 

respiro e penso;

-Dia, aqui vou!

sábado, 13 de junho de 2026

POR DO SOL

 


Deixo-me entardecer, 

movimentos mais lentos, 

compreensão dolorosa 

ainda esperançosa.


Deixo o meu Sol se por...


Se venho 

Lua Nova, 

ou Minguante, 

aceito-as em minhas 

diversas finitudes.


Em algumas 

encaixam-se meus dias, 

entre leituras 

e saídas porta afora, 

diante do mundo, 

e sua natural crueldade.


Ponho-me na porta da noite 

comemorando a sobrevivência, 

sem subserviência...

RETIDO

 


Não sei despedir-me, 

algo retém a saída.


Não sei se nuvens 

não convidam, 

estão estáticas...

não sei se somos nós, 

temerosos do mundo, 

das descobertas..


Ando segurando 

suas mãos 

o quanto posso, 

afago de permanência. 


Temos algo a concluir 

em suspenso, 

ao nos despedirmos...

continuidade  

por formar sentido.


São necessárias 

novas buscas, 

experiências, 

que reguem 

o jardim cultivado

em silêncio.


Despedidas matam!


São como 

enterros antecipados 

preparando os corações 

a viagens distantes.


Há muito ainda 

a se dizer, 

a ouvir...

há muito de nós 

represado na boca, 

enquanto olha, 

deseja estar junto


Despeço-me 

com versos 

do leitor, 

como quem 

não quer partir, 

e deixa palavras 

que ficam.


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quinta-feira, 11 de junho de 2026

ESCOLHA?

 


Vou deixar a escolha, 

a porta aberta, 

o desconhecido.


Vou deixar a irriquieta 

busca de si, 

nos grandes vazios 

nunca preenchidos. 


O olhar e o desviar, 

o amar e o evitar, 

o odiar e o compadecer


Dolorosa forma 

de se orientar por aí,  

escolhendo e descartando 

pelos tempos afora.


Híbrido desorientado, 

finjo uma amarela 

estabilidade recatada...


Miserável de mim, 

desta sorte 

em não saber seguir, 

se segue...


Ainda que me creia, 

sempre me perco...

FRIO HUMANO

  Fria noite,  desprotegida... fria humanidade, desabitada... frio amor  coabitado... Fria miséria rica, indiferente  ao padecimento da gent...