quarta-feira, 6 de maio de 2026

POR CERTO TEMPO

 


Vou sair por pouco tempo, 

fazer de conta 

que viajei para longe.


Sei que alguns 

sentirão falta 

por um certo tempo.


Talvez lembrem-se 

de algo bom que fiz, 

em alguns momentos, 

depois esquecem 


Não rompi estruturas, 

não alterei 

a maioria das rotinas; 

destas digo em voz alta, 

duraram muito tempo.


Passo sem fazer ruídos, 

alterar a sequência das coisas...

sigo mansamente


Revoltado um dia,

conformei-me, 

tornando tudo natural.


Não tenho muito 

não fiz muito

a vida é rápida e frágil, 

não deixa muito tempo 

para mudancas


Importa o agora, 

e é no agora 

que vamos

OLHOS DE VER

 


Escolho pelos olhos, 

observo o que perscrutam...

se voam livres, 

escondem algo, 

trazem marcas 

de sofrimento,

ingenuidade, 

ansiedades...


 Neles pouso, 

faço por regaço 

algum tempo 

e aguardo 

o que vem, 

se lágrimas, 

se dissipam

depois vou embora.


Muitos olhos 

atravessam o caminho, 

não paro de olhar

é preciso ver a todos...


Sigo medindo 

o quanto somo 

de tudo isto, 

olhos de ver, 

olhos de acompanhar


Sigo me vendo 

em tudo isto 

nos olhos que vejo.

MUITO TARDE

 


Quando vêm, 

cobrem todo o céu. 


É como se um louco, 

de repente

fosse fazendo tudo 

o que lhe vem à cabeça, 

sem pensar, 

porque não pensa,

metendo os pés pelas mãos,

invertendo tudo.


Um vendaval cobre a nação, 

chuvas e ventos, 

desordem nos elementos, 

espalham-se em profusão.


Ninguém sabe o dia de amanhã,  

ninguém pergunta ao outro 

o que está acontecendo 

com o salário, 

a aposentadoria, 

os direitos 

duramente conquistados


Sabem que perdem, 

mas é tarde, 

porque assentaram-se no poder, 

não sairão tão cedo

e fazem tudo

o que lhes vêm à cabeça. 


Muito tarde!


Avisamos tanto 

sobre este vendaval...


Não acreditaram.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

TERMINO

 


Termina o dia,

termino com o dia...

Não sei como percorri, 

quanto percorri, 

se percorri

se deixo o coração

inteiro e em paz.


Uma sensação de derrota 

consome a noite.


Os cães latem lá fora 

para o quê? 

Para quem?


Não me adapto 

ao que acontece...


Sim, alegro-me 

quando amanhece, 

canto, respiro

mas segue o dia, 

esta força amainece, 

desfia.


Então busco estar só, 

resisto:

É so um dia!

Amanhã será melhor.


Assim, 

vou seguindo o tempo,  

cultivando 

uma esperança atroz 

em meio a destroços.


Quando chega a noite

Deixo os olhos 

olharem-me

nesta solidão.


Perceberão uma tristeza 

que escondo 

para que ninguém saiba: 

de não ter 

a quem recorrer 

este indagar da vida

de tanta gente perdida 

em falsas urgências, 

indiferentes.


Longa noite, 

esta minha, 

sem ninguém...

só... 

irremediavelmente só

MEA CULPA

 


Que culpa tem o Sol, de mim?

Deixe-o brilhar...

Que culpa tem  a Lua de seus amantes, 

deixe-os apreciar.

Que culpa tem o coração de seus muitos batimentos ? 

Deixe-o pulsar

Que culpa tem os olhos de tudo observar? 

Deixe-o discernir

Que culpa tem as diferenças em seu divergir.  

Deixe-as ensinar.

E as montanhas, que culpa tem em elevar-se? 

Deixe-as desafiar.

 Nada tem em si alguma culpa, 

deixe ser...a vida sempre continua...

domingo, 3 de maio de 2026

SOBRA...

 


Sou a sobra 

de tuas alternativas, 

aquele que te acolhe 

quando tudo desmorona, 

apelo derradeiro.


Estou presente na esperança, 

doença desconhecida, 

falência irreversível, 

na solidão do perseguido, 

alimento do esfomeado. 


Tenho as simples solucões 

na simplicidade da vida


Sou o sempre esquecido, 

raramente lembrado, 

presente na dor, 

último apelo.


Ensinaram-me assim...

a servir,

servir, 

servir


Sou o nada, 

o vazio, 

o abandonado, 

muitas vezes impróprio, 

digo o que não gostam de ouvir


Venha sempre,

quando quiser...

sou todo ouvidos,

estou na escuta, 

à sua disposição, 

mas se demorar. 

já sabes...

continuo por aqui...

sábado, 2 de maio de 2026

DISTANTE

 


As estrelas escondem 

segredos distantes, 

longe da imaginação.


Sequer geram esperanças, 

pulsam soltas, 

coladas a um céu inatingivel


Perdi-me neste olhar sem sentido.


Buscava explicar a rua, as pessoas,  o poder...


Impossível. 


Por isso, 

descia à pé 

o trajeto 

todos os dias...


Explicavam os peixinhos amarelos 

presos aos aquários, 

as mudancas inesperadas 

da velha ordem...


Olhar incansável 

de perguntas e buscas, 

nunca cessam


Por isso continuo olhando as estrelas 

em seus segredos distantes

POR CERTO TEMPO

  Vou sair por pouco tempo,  fazer de conta  que viajei para longe. Sei que alguns  sentirão falta  por um certo tempo. Talvez lembrem-se  d...