Sou o incômodo,
o fora de hora,
o deslocado,
o que põe a verdade nua
na cara,
descaradamente.
Sofro o isolamento
dos que se escondem
em justificativas,
injustamente...
Caminho só pelo mundo,
mudo e discriminado..
o cotidiano contado e meditado
Sou o incômodo,
o fora de hora,
o deslocado,
o que põe a verdade nua
na cara,
descaradamente.
Sofro o isolamento
dos que se escondem
em justificativas,
injustamente...
Caminho só pelo mundo,
mudo e discriminado..
Mãe, porquê me deixastes crescer?
Não sabias como é o mundo?
Não terias como me proteger.
O mundo não tem regaço.
não consola,
não compreende,
não perdoa..
Partiste na hora errada,
és chamada estar presente sempre.
Neste teu dia,
interrogo tua ausência,
como filho sempre carente,
de teus ouvidos santos,
teus braços acolhedores
de minhas dores
Vou sair por pouco tempo,
fazer de conta
que viajei para longe.
Sei que alguns
sentirão falta
por um certo tempo.
Talvez lembrem-se
de algo bom que fiz,
em alguns momentos,
depois esquecem
Não rompi estruturas,
não alterei
a maioria das rotinas;
destas digo em voz alta,
duraram muito tempo.
Passo sem fazer ruídos,
alterar a sequência das coisas...
sigo mansamente
Revoltado um dia,
conformei-me,
tornando tudo natural.
Não tenho muito
não fiz muito
a vida é rápida e frágil,
não deixa muito tempo
para mudancas
Importa o agora,
e é no agora
que vamos
Escolho pelos olhos,
observo o que perscrutam...
se voam livres,
escondem algo,
trazem marcas
de sofrimento,
ingenuidade,
ansiedades...
Neles pouso,
faço por regaço
algum tempo
e aguardo
o que vem,
se lágrimas,
se dissipam
depois vou embora.
Muitos olhos
atravessam o caminho,
não paro de olhar
é preciso ver a todos...
Sigo medindo
o quanto somo
de tudo isto,
olhos de ver,
olhos de acompanhar
Sigo me vendo
em tudo isto
nos olhos que vejo.
Quando vêm,
cobrem todo o céu.
É como se um louco,
de repente
fosse fazendo tudo
o que lhe vem à cabeça,
sem pensar,
porque não pensa,
metendo os pés pelas mãos,
invertendo tudo.
Um vendaval cobre a nação,
chuvas e ventos,
desordem nos elementos,
espalham-se em profusão.
Ninguém sabe o dia de amanhã,
ninguém pergunta ao outro
o que está acontecendo
com o salário,
a aposentadoria,
os direitos
duramente conquistados
Sabem que perdem,
mas é tarde,
porque assentaram-se no poder,
não sairão tão cedo
e fazem tudo
o que lhes vêm à cabeça.
Muito tarde!
Avisamos tanto
sobre este vendaval...
Não acreditaram.
Termina o dia,
termino com o dia...
Não sei como percorri,
quanto percorri,
se percorri
se deixo o coração
inteiro e em paz.
Uma sensação de derrota
consome a noite.
Os cães latem lá fora
para o quê?
Para quem?
Não me adapto
ao que acontece...
Sim, alegro-me
quando amanhece,
canto, respiro
mas segue o dia,
esta força amainece,
desfia.
Então busco estar só,
resisto:
É so um dia!
Amanhã será melhor.
Assim,
vou seguindo o tempo,
cultivando
uma esperança atroz
em meio a destroços.
Quando chega a noite
Deixo os olhos
olharem-me
nesta solidão.
Perceberão uma tristeza
que escondo
para que ninguém saiba:
de não ter
a quem recorrer
este indagar da vida
de tanta gente perdida
em falsas urgências,
indiferentes.
Longa noite,
esta minha,
sem ninguém...
só...
irremediavelmente só
Que culpa tem o Sol, de mim?
Deixo-o brilhar...
Que culpa tem a Lua de seus amantes,
deixe-os apreciar.
Que culpa tem o coração de seus muitos batimentos ?
Deixe-o pulsar
Que culpa tem os olhos de tudo observar?
Deixe-o discernir
Que culpa tem as diferenças em seu divergir.
Deixe-as ensinar.
E as montanhas, que culpa tem em elevar-se?
Deixe-as desafiar.
Nada tem em si alguma culpa,
deixe ser...a vida sempre continua...
Sou o incômodo, o fora de hora, o deslocado, o que põe a verdade nua na cara, descaradamente. Sofro o isolamento dos que se escondem e...