domingo, 9 de agosto de 2026

LALAU

 


Quanto mais passa o tempo, mais vamos nos esquecendo de nomes, até que desaparecem...

Faço memória hoje de um jovem chamado LALAU.

Nunca soube seu verdadeiro nome. 

Era estudante da PUC, acho que na Economia. Eram os anos difíceis da repressão, com torturas e assassinatos disfarçados de suicídios.

Eu namorava Margarida embuste período de 70 a 73, e o Lalau era amigo nosso, e tentava nos cooptar a participar de seu movimento 

Já Por volta de 1974/75,  eu trabalhava em Piracicaba, e alugara um ranchinho perto, em Artemis, e estava lá com Meg, recém casados.

Lalau havia sido preso em 1971/72(não sei ao certo), descobri depois que militava na ALN, um grupo armado que rompera por dentro do PCB, e fazia guerrilha urbana.

Neste ano de 1974 ele havia sido solto.

 Amargara importantes anos de juventude nos cárceres da ditadura. 

Tão logo saiu, soube que nós estávamos em Piracicaba e passou conosco alguns dias no rancho. 

Curiosa era sua ansiedade em participar daquele ambiente, como se descontasse os anos aprisionados.

Terminado este tempo de uma semana aproximadamente, despediu-se e foi visitar seus parentes...para ver como lhe éramos queridos, precedíamos na visita 

Assim foi...

Nunca mais o vimos...

Soubemos, mais tarde, que morrera afogado num riacho, em Minas Gerais, quando da visita a seus pais.

O destino às vezes é ingrato...

Deixo aqui esta memória, junto a um lamento antigo,  guardado no coração.

LALAU era seu nome, um rapaz alegre e cheio de vida,  um amigo..

ESTRANHO EM MIM

 

Acompanha-me, 

vez por outra,

um estranho... 

percorre corredores sem fim, 

para ver ser se chega 

a algum lugar, 

ai de mim...


Agora mesmo está aí 

fuçando escombros velhos 

para ver se não esqueci 

algo importante, 

deixo sempre algo para trás 


Aproveita-se assim 

desta longa maratona, 

dividida 

em distintos personagens...

este bem oculto, 

declina seu nome.


No esguio aproveitar do silêncio, 

visualizo sua sombra, 

no indistinto escuro, 

como alguém que me assombra, 

 num inseguro confim

ALÉM ANIVERSÁRIOS

 

Não pedi para nascer, 

mas fui desejado, 

cresci sem saber 

o que fazer, 

depois descobri.


Amar foi tornando-se 

um mistério crescente, 

transcendente, 

nunca termina, 

dói perder.


A idade constrói monumentos, 

destruo constantemente a todos, 

busco o afago dos fracos, 

esquecidos.


O dia apresenta 

desafios de vida, 

reponho-me sempre 

na trincheira da verdade,

a morte ronda por perto...


A cada manhã o Sol, 

a consciência, 

a cada noite,

vigilias, 

sobrevivência .


Sou desafios diários,  

além aniversarios...

QUANDO VIERES...



Quando vieres 

traga junto a fragilidade,  

os reis fiquem com seus tronos.


Ao aproximar-se 

seja suave, 

possa ser vista

desde longe, 

e tão logo possas, 

afague-me antes 

de qualquer palavra.

 

Quando chegares 

traga junto lamparinas acesas, 

grandes são minhas escuridões, 

clareie cômodo por cômodo, 

até tudo iluminar-se.


Suas palavras sirvam de alimento 

onde possa refestelar-me junto a ti, 

na verdade, 

a depender do grau, 

sejam preservadas dos maus...


Quando vieres, 

venhas inteira, 

em fraternos altos e baixos, 

junto às minhas volúveis aquiescências...


Assim poderemos nos entender no amor, 

e caminharmos juntos

sábado, 8 de agosto de 2026

MERGULHADO NO PRESENTE

 


Difícil definir-me...

mergulhado no presente...

muito do que sou 

passa ausente.


Olho, 

interajo, 

opino, 

vou seguindo 

escritos e escrituras, 

e também descobrindo.


Dor e sofrimento 

carrego na aljava, 

esquecidos...

esperança e ardor 

coloco na boca, 

calor...

o sentido das coisas 

percebo pelos olhos, 

abertos...

a solidariedade 

entrego às mãos, 

lapidação...

caminhos e descaminhos

entrego aos pés

sem arcos,

cansados...


A ciência, 

intrometida,

é um tato 

sempre por descobrir 

acertar.e errar, 

errar e acertar 


Descubro amigos, 

encobertos inimigos, 

aparecem,

desaparecem


Procuro não ser só 

estar no mundo 

consciente, 

resguardando sempre 

a liberdade de cada um, 

coisa de demente


Tão mergulhado 

no presente, 

faço do caminho 

pressentimentos, 

nada às claras, 

olho a direção 

dos ventos

a segurança 

das águas rasas...

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A saudade que tenho é de nós mesmos, de Betty Vidigal

 A saudade que tenho é de nós mesmos, 

de quem éramos décadas atrás. 

Nós somos como amigos que perdemos, 

gente querida que não vai voltar. 

Um par de jovens que se pôs ao mar, 

tomou dos remos para nunca mais. 


Quem eram eles, que já não os vemos? 

A mulher bronzeada lendo ao sol,

os dois estraçalhando um rock’n roll, 

em que dobras do tempo se esconderam?

E as três crianças que os rodeavam?

Antigamente estavam sempre aqui, 

voando no turquesa da piscina,

aves aquáticas de um Morumbi 

que era um lugar longínquo e quase ermo.


A saudade que tenho é de nós mesmos.

REALIZADO

 


Hoje tenho 

um cansaço realizado, 

ações  completas.


Hoje há um beijo 

que perdura 

no espreguiçar, 

um amor 

que repõe 

a paz.


Hoje a esperança 

dá bom dia, 

acesa.


Tempo de verdade

aflorada...


O excesso 

de mentiras 

divulgadas, 

nada afeta.


Encontro 

do amor 

com a rotina,

olhares 

expandidos, 

horizontes 

próximos, 

medos 

esquecidos, 

palavras 

novas, 

bom 

ânimo. 


Os pés 

no chão 

da realidade 

a cabeça 

ordenando 

naturalmente 

como bem 

tratar tudo.


Dia de abrir janelas 

respirar fundo, 

porque estou presente, 

tudo está 

em seu devido lugar.

LALAU

  Quanto mais passa o tempo, mais vamos nos esquecendo de nomes, até que desaparecem... Faço memória hoje de um jovem chamado LALAU. Nunca s...