terça-feira, 14 de abril de 2026

DOMINGAR

 

João Paulo Naves Fernandes
Domingo é dia
da institucionalização
da preguiça,
tão perseguida
pelo capital.

Dia de
não se fazer nada,
não desejar nada;
se for o caso
passear
por passear,
sem recitar.

Os poemas dormem
nos domingos,
porque os leitores,
que se cansam fácil;
neste dia então,
nada leem.

Ah...não ter
de escrever,
de declamar,
rimar.

Há um tédio
neste nada.

Do que será?

O que se produz
tem um limite,
e este limite
termina no nada,
e o nada,
o limite do nada,
é um tédio
da inutilidade de tudo,
descoberta
inconsciente
profunda.

Ah domingo
das velhas cavernas
ancestrais,
que evocam
longas contemplações
do por do Sol,
das estrelas noturnas.

Descanso na realidade
do vazio de mim.

VARAIS

 

João Paulo Naves Fernandes
Coloco minhas roupas
para secar no varal,
ao lado da jaboticabeira,
o sabiá alegra-me com o dia.

Aproveito que o Sol
me invada também,
secando a sujeira
que ficou de ontem.

Prendo com grampos
meu eu seco,
na roupa úmida,
certo que os ventos
sacudam a rabugice
para longe

Estico na roupa a ser presa,
essa língua tagarela,
para que possa calar-se,
deixando os demônios
enjaulados

No primeiro varal
ficam as mãos erguidas
com roupas
tiradas dos ombros,
pesam,
clamando um despertar
diante de tantas situações,
eu tão omisso...

No último 
ficam as peças
menos usadas,
secam na sombra,
demoradamente,
estão cansadas
do uso contínuo,
torcem por novidades.

Dependuro a esperança
no calor do dia,
com a certeza
de recolhê-la à tarde,
guardá-la para o amanhã
nem tudo é para hoje,
estarão preparadas.

Meus varais estão
sempre à espera,
aproveitam a luz,
o calor,
os ventos
prendem a ordem
seguram a vida
que balança...

EXPLOSÃO

 

João Paulo Naves Fernandes
Vou explodir!!!

Será que você será atingido?

Cairei a qualquer momento
em algum lugar...

Você nunca saberá...

Minha explosão
é de amor...
é revolução...

Vou destroçar
tua frieza
tua ausência
de tudo.

Vou deixar pedaços
teus em rosas
suspensas em espinhos,
protegidas dos vasos.

Explodirei em você
nas noites quentes
de verão,
quando as ruas chamam
as janelas abertas

MENSAGEIROS

João Paulo Naves Fernandes

Tenho um mensageiro do vento
na entrada de casa.
Traz notícias de longe,
altos mares,
montanhas escarpadas,
sintetizadas no bater
de notas metálicas agudas,
como as mudanças.
Anuncia leves brisas,
fortes tempestades.
Traz o que está
do lado de fora
da proteção
que me encontro,
faz pensar...
Tenho outro mensageiro,
escondido no fundo da casa.
Prefere discrição,
quer dizer algo,
aguarda raros silêncios.
Não o escuto direito,
exige total atenção.
Espera eu descer
alguns andares
de pensamentos,
então, bem baixinho,
sussurra pequenas sugestões.
Não se apresenta ostensivamente,
não gosta de interferir
em minhas opiniões
e decisões pessoais.
Tem mansidão,
voz suave quando fala.
Outro mensageiro ainda,
aproveita a dobra
da noite e do dia,
vem rápido,
diz logo o que quer,
cheio de tarefas.
Nunca completa uma frase,
é enigmático,
espera que eu decifre.
Muito concreto,
traz ordens
a serem cumpridas.
Mais um,
despe-se de sua suntuosidade,
fala a todos,
alto,
em plena tarde,
quando os sonhos
estão desfeitos.
Chama-me sempre pelo nome;
se o procuro,
a ninguém encontro.
De vez em quando
alguém quer se fazer
mensageiro.
A este,
quando identifico,
desprezo.
Tenho muitos
mensageiros comigo,
estão sempre aqui e ali.
Foram colocados
para que eu acerte
o caminho,
não erre tanto.

DORES AUSENTES

 

João Paulo Naves Fernandes
Ninguém conhece
minha dor.

Meus olhos
treinaram alegria,
consegui esconder
meus sofrimentos.

Todos
me veem alegre,
divertem-se comigo,
não sabem
o que guardo.

Cada um
com sua dores
mudas...

Vem um dia,
vai outro,
assim vão seguindo
dias sem fim,
enquanto celebro,
silenciosamente,
alegres ausências.

AQUI E AGORA

 

João Paulo Naves Fernandes
Sou o momento,
o instante,
afago e o beijo,
do sempre presente
desejo,
desapego e distância.

Sou do pé firme no chão
e olhos nos confins,
da palavra
que vai fundo ao coração,
e do silêncio da espera
de oportunidade.

Sou do grito por justiça,
e das lágrimas que correm,
viagem deslumbrante
em diferentes trajetos.

Nada espero e pouco almejo.

Tudo deposito no aqui e agora.

Sonho enquanto faço,
luto na realidade da vida,
presença viva
no meio de mortos.

Sou palavras de ordem
aos desalentados, 
e gritos de guerra
aos surdos.

Marco os passos
por onde ando
e abro frentes novas
diante das dificuldades.

Sou peregrino de mim mesmo,
retirando velhos escombros
reconstruindo novo ser.

REFÉM

 

João Paulo Naves Fernandes
Admito viver pelos cantos.

Talvez tenha visto muito,
além do suportável;
talvez não tenha conseguido
seguir como esperam.

As grandes paisagens
passaram ao largo,
tudo o que vi
foram dores e sofrimentos.

Acima de tudo me quiseram calado.

A contragosto, correndo riscos,
desenhei limites de proteção
onde somente entrassem
com vendas,
sem saber onde estão,
e tudo fosse buscas

Preservei a casa,
a mulher,
os filhos...
preservei os jardins,
o que tinha de melhor,
o que sustentava
meus enigmas de existir.

Por isso o canto,
onde escoro
as laterais da vida
que não se encaixam,
deixam os olhos ácidos...

Decifro-me enquanto me dispo,
meus caminhos são muitos,
não dependem do tempo.

Tornei-me amigo
da noite e do silêncio,
amigo da verdade,
enquanto sigo 
refém do mundo.

DOMINGAR

  João Paulo Naves Fernandes Domingo é dia da institucionalização da preguiça, tão perseguida pelo capital. Dia de não se fazer nada, não de...