terça-feira, 28 de abril de 2026

CORPO



Vou morder tua boca 

a qualquer hora, 

segurar as palavras 

nas línguas mortas.


Abracar 

tuas costas 

nuas, 

órfãs, 

pagãs.


Afagar suas coxas  

onde sou parido 

sem razão 

sem sentido.


Vou deitar-me  

em  afã de silêncio 

o desencontro 

dos horários.


Vou confessar-me 

viciado  psicótico 

naturalizado, 

nem aqui 

nem lá

NINGUÉM ME RETIRA

 

Ninguém me retira 

o barro das ruas, 

as lajes descobertas  

o amontoado incômodo, 

nos poucos cômodos.


Ninguém me retira 

a espera do bico , 

a vigilia das lágrimas, 

escorridas orações...

sofridas.


Ninguém me retira 

o querer ser normal, 

no sufoco do ônibus 

intermunicipal.


Ninguém me retira  

o vai e vem

das noites, 

as unhas sujas, 

o pó deixado na roupa


Ninguém retira  de mim

o retirante

a terra natal, 

onde deixei fincado 

um coração armado 

num mastro de São João .


Ninguém me retira 

os domingos 

do lado de fora

nas ruas cruas, 

espaço vital

segunda-feira, 27 de abril de 2026

REPARTIR

 


Quero repartir 

os raios longínquos, 

o horizonte tardio, 

a penumbra dos sonhos

esquecidos.


Repartir o acaso 

das flores caídas, 

as surpresas 

das imposições, 

tão rotineiras.


Repartir a distância 

das convivências, 

o esquecimento 

dos caminhos, 

as palavras sepultadas 

nas orações.


Repartir os dejetos 

dos objetos abjetos, 

o etéreo devir, 

de nunca conseguir.


Ver se calo 

repartições 

excluidas e acolhidas, 

e ainda assim caminhe

DEI POR MIM

 


Olhei os pedaços 

paridos no tempo, 

enquanto a Lua 

piscava eclipses,

enamorada dos amantes.


Era um artista distraído 

do meu personagem   

longe do picadeiro 

de trânsito 

em transe, 

escudo escuso, 

pomar de mares 

e azares...


O pó das ruas 

cheirava peixarias, 

entre amores, 

pernas secas. 


Recolhi meus pedaços 

acreditando nos cafés 

das tardes quentes 

cheias de gentes .


Dei por mim, 

cantando 

entre os canais 

vulgares de altares 

esperando um canto 

onde esconder o céu

domingo, 26 de abril de 2026

INCOMPLETO

 


Estou incompleto!

Dá-me um pouco 

de ti, 

de ti, 

e de ti.


Complete-me 

incompleta, 

quem sabe sigamos 

melhor assim.


Complete-me 

com tuas diferenças 

incompletas, 

frágeis fortalezas, 

somos assim.


Estou incompleto, 

dou a ti, 

a ti 

e a ti, 

um pouco de minhas 

incompletudes.


Completo-a 

com meus afetos 

desfeitos 

durante as jornadas...

plenas de defeitos


Completo-a  

com meu incompleto amor, 

quem sabe juntos 

somemos o que não somos, 

é  assim.


Minha consciência 

incompleta 

pensa-se inteira, 

mas permanece 

na soleira, 

enquanto desperta

quarta-feira, 22 de abril de 2026

ENTRE PEDRAS E FLORES

 Ando cuidadosamente 

entre as pedras e as flores, 

mesclando guerras e amores, 

neste tempo sem fim.


Vou como quem 

desconhece as pisadas,  

ora acalma,

ora enraivece, 

não sabe 

a fragilidades das flores, 

a dureza das pedras 

nas caminhadas


Vai calcando sem dó, 

uma e noutra, 

distraída caminhada louca, 

na estrada perdida em pó.


Sente o perfume 

engasga na poeira, 

vive objetivos distantes 

encravados na soleira.


Entre Trancos e barrancos, 

varia a vida

dividida, 

partida  amorosa

chegada  rancorosa

HIATO INTERIOR

 

Aprendi a ver 

no silêncio 

um companheiro.


Foi mostrando, 

o tempo, 

superficiais 

palavras, 

gestos, 

relações 

até humores.


Foi despindo, 

um a um, 

o valores 

sustentados, 

desnecessários ...


Foi perdendo o sentido.


Quando finalmente 

veio o silêncio 

por companheiro, 

distraí-me comigo,

redescobri-me 

sem declarações, 

não precisava.


Viajei por mares profundos 

desertos ensolarados, 

conheci os meio tons 

onde os conselhos 

dispersam distantes ...


Falam rapidamente...

pesco-os antes,

ao nascer do Sol...


A futilidade gigantesca 

da vida, 

depositada 

em pequenas coisas...

a grandeza de ser, 

aferrada aos bens,

esbanja prazeres...


Ao me ver só, 

comigo mesmo, 

investiguei-me...


Ali encontrei Deus, 

destronado,

como um amigo 

que ajuda a pensar, 

chegar à verdade


Neste fim 

brotaram soluções, 

para os problemas 

infindáveis...

nova forma de amar 

mansa e silenciosa...

domingo, 19 de abril de 2026

DOMINGAR 2

 


Ai, 

meu domingo 

é um não fazer nada 

e coisa alguma.


Um silêncio 

de uma espera 

de sei lá o quê(?)...

sem perguntas, 

nem respostas


Um café 

que se estende 

pela manhã, 

uma cama 

sempre pronta 

pra deitar, 

uma notícia fresca

para se meditar 

longamente, 

sem fim


O dia demorado, 

despejado da semana, 

encontros triviais

despedido do trabalho, 

do sexo aflito, 

paz não negociada,

absolvido e reencontrado.


Domingo 

do velho 

e carcomido 

marasmo, 

ausência plena 

do entusiasmo, 

ausente imanente,

zelador do jardim


Domingo 

da sempre presente 

preguiça perdoada...

sexta-feira, 17 de abril de 2026

ÁRDUO CAMINHO

 


A hora está próxima, 

os sinais...

cada vez mais claros.


Não há mais tempo 

suficiente, 

o mundo está à deriva, 

não há mais como 

impedir o que virá 


As crianças, 

a juventude, 

nossos filhos e filhas

nossas netas e netos

herdarão o fim, 

a destruição. 


Fizemos tanto, 

e vemos escapar 

os sonhos 

de nossa geracão.


Foi como se tivesse 

sido pouco,

interrompemos 

o processo,

pensávamos ser

suficiente. 


Quisemos aproveitar 

a paz, 

a convivência...

fez falta 

por muito tempo

 

Agora, 

tarde, 

sobram as trincheiras l

onde a verdade 

ainda é guardada 

longe da populacão


Vida e morte 

continuam juntas, 

dependentes 

uma da outra.


Morte e vida 

respondem 

com o sangue, 

com a carne...

ainda crêem, 

apesar de tudo.


Árduo o caminho 

deste tempo, 

de esforços 

insuficientes, 

multidões 

ausentes...


Árduo tempo

de lutas permanentes.

terça-feira, 14 de abril de 2026

DOMINGAR 1

 

João Paulo Naves Fernandes
Domingo é dia
da institucionalização
da preguiça,
tão perseguida
pelo capital.

Dia de
não se fazer nada,
não desejar nada;
se for o caso
passear
por passear,
sem recitar.

Os poemas dormem
nos domingos,
porque os leitores,
que se cansam fácil;
neste dia então,
nada leem.

Ah...não ter
de escrever,
de declamar,
rimar.

Há um tédio
neste nada.

Do que será?

O que se produz
tem um limite,
e este limite
termina no nada,
e o nada,
o limite do nada,
é um tédio
da inutilidade de tudo,
descoberta
inconsciente
profunda.

Ah domingo
das velhas cavernas
ancestrais,
que evocam
longas contemplações
do por do Sol,
das estrelas noturnas.

Descanso na realidade
do vazio de mim.

VARAIS

 

João Paulo Naves Fernandes
Coloco minhas roupas
para secar no varal,
ao lado da jaboticabeira,
o sabiá alegra-me com o dia.

Aproveito que o Sol
me invada também,
secando a sujeira
que ficou de ontem.

Prendo com grampos
meu eu seco,
na roupa úmida,
certo que os ventos
sacudam a rabugice
para longe

Estico na roupa a ser presa,
essa língua tagarela,
para que possa calar-se,
deixando os demônios
enjaulados

No primeiro varal
ficam as mãos erguidas
com roupas
tiradas dos ombros,
pesam,
clamando um despertar
diante de tantas situações,
eu tão omisso...

No último 
ficam as peças
menos usadas,
secam na sombra,
demoradamente,
estão cansadas
do uso contínuo,
torcem por novidades.

Dependuro a esperança
no calor do dia,
com a certeza
de recolhê-la à tarde,
guardá-la para o amanhã
nem tudo é para hoje,
estarão preparadas.

Meus varais estão
sempre à espera,
aproveitam a luz,
o calor,
os ventos
prendem a ordem
seguram a vida
que balança...

EXPLOSÃO

 

João Paulo Naves Fernandes
Vou explodir!!!

Será que você será atingido?

Cairei a qualquer momento
em algum lugar...

Você nunca saberá...

Minha explosão
é de amor...
é revolução...

Vou destroçar
tua frieza
tua ausência
de tudo.

Vou deixar pedaços
teus em rosas
suspensas em espinhos,
protegidas dos vasos.

Explodirei em você
nas noites quentes
de verão,
quando as ruas chamam
as janelas abertas

MENSAGEIROS

João Paulo Naves Fernandes

Tenho um mensageiro do vento
na entrada de casa.
Traz notícias de longe,
altos mares,
montanhas escarpadas,
sintetizadas no bater
de notas metálicas agudas,
como as mudanças.
Anuncia leves brisas,
fortes tempestades.
Traz o que está
do lado de fora
da proteção
que me encontro,
faz pensar...
Tenho outro mensageiro,
escondido no fundo da casa.
Prefere discrição,
quer dizer algo,
aguarda raros silêncios.
Não o escuto direito,
exige total atenção.
Espera eu descer
alguns andares
de pensamentos,
então, bem baixinho,
sussurra pequenas sugestões.
Não se apresenta ostensivamente,
não gosta de interferir
em minhas opiniões
e decisões pessoais.
Tem mansidão,
voz suave quando fala.
Outro mensageiro ainda,
aproveita a dobra
da noite e do dia,
vem rápido,
diz logo o que quer,
cheio de tarefas.
Nunca completa uma frase,
é enigmático,
espera que eu decifre.
Muito concreto,
traz ordens
a serem cumpridas.
Mais um,
despe-se de sua suntuosidade,
fala a todos,
alto,
em plena tarde,
quando os sonhos
estão desfeitos.
Chama-me sempre pelo nome;
se o procuro,
a ninguém encontro.
De vez em quando
alguém quer se fazer
mensageiro.
A este,
quando identifico,
desprezo.
Tenho muitos
mensageiros comigo,
estão sempre aqui e ali.
Foram colocados
para que eu acerte
o caminho,
não erre tanto.

DORES AUSENTES

 

João Paulo Naves Fernandes
Ninguém conhece
minha dor.

Meus olhos
treinaram alegria,
consegui esconder
meus sofrimentos.

Todos
me veem alegre,
divertem-se comigo,
não sabem
o que guardo.

Cada um
com sua dores
mudas...

Vem um dia,
vai outro,
assim vão seguindo
dias sem fim,
enquanto celebro,
silenciosamente,
alegres ausências.

AQUI E AGORA

 

João Paulo Naves Fernandes
Sou o momento,
o instante,
afago e o beijo,
do sempre presente
desejo,
desapego e distância.

Sou do pé firme no chão
e olhos nos confins,
da palavra
que vai fundo ao coração,
e do silêncio da espera
de oportunidade.

Sou do grito por justiça,
e das lágrimas que correm,
viagem deslumbrante
em diferentes trajetos.

Nada espero e pouco almejo.

Tudo deposito no aqui e agora.

Sonho enquanto faço,
luto na realidade da vida,
presença viva
no meio de mortos.

Sou palavras de ordem
aos desalentados, 
e gritos de guerra
aos surdos.

Marco os passos
por onde ando
e abro frentes novas
diante das dificuldades.

Sou peregrino de mim mesmo,
retirando velhos escombros
reconstruindo novo ser.

REFÉM

 

João Paulo Naves Fernandes
Admito viver pelos cantos.

Talvez tenha visto muito,
além do suportável;
talvez não tenha conseguido
seguir como esperam.

As grandes paisagens
passaram ao largo,
tudo o que vi
foram dores e sofrimentos.

Acima de tudo me quiseram calado.

A contragosto, correndo riscos,
desenhei limites de proteção
onde somente entrassem
com vendas,
sem saber onde estão,
e tudo fosse buscas

Preservei a casa,
a mulher,
os filhos...
preservei os jardins,
o que tinha de melhor,
o que sustentava
meus enigmas de existir.

Por isso o canto,
onde escoro
as laterais da vida
que não se encaixam,
deixam os olhos ácidos...

Decifro-me enquanto me dispo,
meus caminhos são muitos,
não dependem do tempo.

Tornei-me amigo
da noite e do silêncio,
amigo da verdade,
enquanto sigo 
refém do mundo.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

LIVRE EXPRESSÃO

 Letras escapam livres, 

garantem a liberdade de quem sou, 

apesar das estruturas,

posso dizer de mim, 


Fica o entendimento 

conforme se viveu, 

ninguém sabe 

o que não passou.


Porque expressam 

a experiência amalgamada, 

as pessoas amadas 

e as desalmadas.


As nuvens dissolvem-se 

nas escarpas das serras, 

encontram sentido 

nas folhas úmidas, 

ali descansam


Assim posso dizer de mim, 

sem ser percebido; 

fica o gosto 

retido na libido, 

cada qual sabe o seu...


Sou um pequeno regato 

escondido na extensa floresta, 

disfarço meus contornos, 

sob as copas das árvores, 

sigo manso e distraído.


Atravesso incólume 

a diversidade, 

cristalinamente, 

sou mais um.


Nas palavras encontro 

formas de dizer, 

sem contudo, 

receber desconto. 


Digo conforme o timbre, 

o ritmo, 

abro vertentes 

abrangentes, 

istmos 

da compreensão, 

por onde dou vazão.

MUNDO EM COMA


O mundo está em coma...
seus sinais vitais
estão cada vez
mais fracos
inconstantes,
espasmos inesperados.
Ora inundações,
ora secas,
intenso calor,
grandes nevascas
Caminha para a morte
consciente da morte,
todos vêem.
Guerras ocupam o planeta.
Líderes dispostos a destruir,
antecipam a agonia.
A verdade foi transformada
em seu contrário,
o amor em ódio,
paz em guerra,
a sede por riqueza
sacrifica todo o meio ambiente,
não se importa
se destroi o habitat
de inumeras espécies
e povos que por lá habitam.
Mundo em coma...
Como meus netos sobreviverão?

sábado, 11 de abril de 2026

BELA AKMADULINA, poetisa russa

 Hoje nos separamos para sempre

e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: "Vou embora, adeus!"

Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!

Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.

A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobe pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos

(escrito por Akhmadullina quando se separou de Yevtuchenko)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Palavra e o Ser

 

Vou deixar você a vontade, 

muitos desejam impor, 

outros manipulam...


Que as palavras 

sirvam de remédio letrado, 

e servem. 


Luto com as religiões 

para as palavras 

serem donas das letras, 

literatas


Nem sempre os versos rezam...


Deixar a compreensão 

chegar no seu tempo, 

sem  aflições, 

calmamente, 

como se estivesse só 

na alta noite, 

descobrisse a verdade 

sem esforço.


Assim, 

poderás abrir a vela da vida, 

e aproveitar as monções 

que surgem no caminho.


Deixar a indignação 

somar-se em seu dorso, 

poder explodir 

contra a injustiça, 

abraçar os menos letrados ...


Ando cabisbaixo com as palavras, 

tem ferido a muitos...

precisam ser recitadas

quinta-feira, 9 de abril de 2026

TEMPESTADES NO HORIZONTE

 


Estamos cada vez mais próximos dos campos de batalha.

Os girassois estão sendo arrancados, para construírem trincheiras.

Abriram mão das palavras, e seguem como se fossem zumbis.

Esqueceram o calor do afeto materno, do colo paterno, lá do início de suas vidas, de que foram criancas e brincaram, e que o mundo era o jogo de domingo.

Instigação a desconfiança e a mentira, a ponto de perder o equilíbrio nas análises e colocar o ódio em primeiro lugar.

Estamos perdendo esta batalha a qual querem nos jogar para morrer.

É preciso acender, novamente, a esperança num mundo melhor e para todos, acreditarmos nas utopias, e alegrar-nos desde já.

O amor fraterno é o antídoto para os que defenden  ordens unidas e flexões.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

ENFIM

 


Não sei o que é terminar...

Talvez nunca saiba, 

nunca termine...

percorrer constante,

plenitude inconstante.


Meio sorriso, 

meio choro, 

meias conquistas, 

meios fracassos,

objetivos sempre intermediários...

um horizonte à perder de vista.


Sou uma tênue linha 

que se basta em caminhar, 

com ansiedade 

permanentemente 

suspensa.


durmo desperto

acordo sonolento, 

assédios opostos, 

conflitos compostos...

mal faço o bem, 

bem faço o mal, 

nada completo, 

nada encerrado.


Quem sabe um beijo 

retido nos sonhos, 

quem sabe um abraço 

esquecido na frieza, 

tragam um fim imediato, 

e possa dizer enfim de algo:

Terminei !

Sinto-me realizado.


O hoje...sim o hoje

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O LADO OCULTO DA LUA


O lado escondido da Lua 

guarda nossos segredos 

mais íntimos, 

impublicáveis.


Vive em nossos olhos... 

vasculha 

além valores,

odores 

faros ancestrais 

scio da Humanidade,  

quando a natureza 

prevalece na vontade. 


Lado oculto 

das taras insepultas, 

guardadas a sete chaves, 

nunca deixa de ser reto, 

ser descoberto.


Lado amante, 

fluente, 

erótico, 

ternamente 

carente


Lado libido, 

inibido, 

mórbido, 

transgressor, 

possessivo...


Lado verdadeiro, 

inteiro, 

incontido, 

mudas declarações,

silencioso pecador noturno. 


Meu lado oculto da Lua 

sonha eclipses, 

transborda para fora


Ah...perigoso lado oculto, 

embriaga, 

perde-se e encontra-se 

entre meus passos, 

meus olhares

domingo, 5 de abril de 2026

QUANDO MORRE UMA POETA

 

(em memória de Thereza Rocque da Motta )


Quando um poeta morre, 

um encantamento 

nas palavras 

desaparece, 

e uma realidade dura 

vem à tona.


Quando morre uma poeta, 

morre também 

a esperança na paz, 

diante de todas as guerras, 

os corações sofrem desolados.


Ai, quando vem a notícia 

de que um poeta 

já não está mais conosco...

sem o sereno consolo 

dos versos.


Tão difícil viver 

sem sua mansidão 

diante das investidas 

do desamor, 

eterna dor.


Como viver 

sua ausência poética, 

ambientes de violência, 

tiranias, 

torturas, 

segura as agruras


Quando uma poeta 

se despede,  

é como Jesus  

entre morte 

e ressurreição, 

perde-se o norte, 

a canção,

não sabemos 

como se foi, 

não sabemos 

como ficamos.


Permanece 

a ausência 

a solidão, 

ecoam palavras 

esquecidas 

não ditas, 

angústia dos que ficam.


Quando se vai 

a paz de uma poetisa 

ficamos sempre órfãos...

sexta-feira, 3 de abril de 2026

IMPUBLICÁVEL

 


Não! Não me gabo do quarto...


Ele tem meus segredos 

mais infames, 

impublicáveis.


Nele torno-me 

o mais profano usurpador 

das minhas quimeras,

escavo meus limites 

compartilhados.


Nestes momentos despeço 

o anjo e o arcanjo, 

as ordens e as bandeiras, 

e sem eiras nem beiras, 

solto minhas enzinas 

mais primitivas.


Os limites desaparecem 

diante da liberdade do amor


Ah meu quarto impenetrável..

quinta-feira, 2 de abril de 2026

VERSOS DE ESPERA

 


Tanto amor guardado...

amor por dar..

ultrapassa você, 

o nós, 

segue agregando 

mais e mais, 

sem cessar.


Tanto amor reduz declarações...

torna-as obsoletas 

diante do mundo 

que cobra as pobres indiferenças 

deixadas no extenso caminho.


Venha sempre, amiga! 

A porta das novidades 

deixarei aberta, 

quem sabe traga 

seu olhar amplo 

para este pequeno 

esquecido seu...

LOGO APAGA...

  Se negam tudo tanto,  deixem-me ser,  ao menos, poeta,  e já basta. Fiquem com o mundo! Explorem o povo  até a exaustão! guerrreiem! matem...