quarta-feira, 10 de julho de 2019

Reflexões esquisofrênicas


Não consigo escrever poemas por lógica, por decisão.
Assalta-me o pensamento vindo dos abismos interiores, e inicio uma tradução não verbal, até adquirir letra.
Não convida, impõe, não pede licença, interrompe.
Apresenta talento que desconheço em mim mesmo, e surpreendo-me.
Não é estranho, mas não se submete à minha realidade.
Emerge como se me visse íntegro.
Aceito de bom grado este eu escondido, remoendo vísceras, estancando hemorragias, antenando canais interiores.
Acostumei-me a estas delícias.
Fazem o contraponto de minhas quimeras cheias de incensos e ambrosia.
Atinge o batimento cardíaco regando compassadamente o cérebro.
Vem quando quer e como quer.
Às vezes é raro, nunca tardio; outras, um aluvião (e eu observando atônito).
Acontece, simplesmente, sem sinos, relógios, em plena cama, no carro, boteco, vaso sanitário, cheio de movimentos peristálticos.
Não pede livros, não se arroja em querer ser conhecido, não me interroga.
Apenas vem.
Posso recusá-lo, mas conto nos dedos as ocasiões de tanta desfaçatez.
De vez em quando consigo reuní-los num corpo único, e lanço sem pretenções.
Dois ou três já me alegram o compartilhamento, ainda mais, se entronizam e saboreiam.
Da mesma forma que vem, vai.
Passa meses ou ano embutido, no meu subconsciente, ou sei lá onde de mim, mas não está morto.
Despreza (nunca me disse) a forma como vivo, e a trata-me como a um afogado, tentando ressuscitar-me.
Faz o contraponto do que nunca serei.
Por isso o admiro pelo inusitado esforço de vir à tona.
Somo irmãos, desconhecidos e sem convívio.
Ele lá, eu aqui.
Ele noite, eu dia.
Não nos confrontamos, mas nos respeitamos.
Sou eu que não me conheço nele.
E ele quem me conhece por rejeição.
Postado num diálogo com outro eu e o João Paulo Naves Fernandes

Amor ao Brasil

Como amo o meu país. Amo o meu Brasil. Amo o povo brasileiro, de todas as cores (multicolorido), de todos os gêneros, de todas as idades, tamanhos. Amo mais os de renda baixa, os esquecidos, os endividados, os oprimidos, o presos, os doentes, enlouquecidos. E a nossa terra.....o mar....como amo ir à praia, naquela bagunça de cores e culturas e rendas. Meu Brasil...como é bom ser brasileiro. Um dia a raiva passa, e o fascismo será varrido daqui, como foi com Hitler e Mussolini. É um apêndice do corpo brasileiro, agudo e inflamado.

INSÔNIA

. Eu nunca me contive nos limites que se me apresentavam. Isto, por toda a minha vida. Nada me satisfazia. Buscava além da liberdade, da paz. Ousava-me forçar. Era natural, humano. Nunca entendi esta sociedade que vomita regras e ofende a descoberta. Fiz um pouco de tudo. Até direito fui, aos olhos de minha mãe. Mas tinha que nascer, todos os dias, e morrer antes do fim. Amei e desejei mais do que amei. Tive amizades transgressoras, hoje ordeiras. Odeio os opressores de todos os matizes. É o que existe em abundância por aí. Quem sabe ser perseguido descobre a verdade completa. A maioria sente-se segura nas prisões morais, politicas, sexuais. Afrontam-se ordeiramente, ostentando uma humanidade robótica. Transgrido...transgrido....transgrido. Meu ser se esvai em inutilidades crescentes. Os ordeiros irão todos para o inferno, junto com suas falsidades. Me descubro enquadrado, estereotipado, desnaturalizado, possuído pelo demônio do dinheiro. Quem sabe Jesus Cristo saia da clandestinidade e destrua os monumentos que lhe erigiram. A revolução me assombra todas as noites, como resgate total. Ergo os braços como um afogado busca a superfície e fecho os punhos como recusa inconsciente da ausência da libertade. Despeço-me destas ideias, que amanhã farão parte do meu subconsciente, esquecidas. Sinto, por todos nós, exímios atores.

COMO SER POETA?

 A multidão vive 
palavras sem rimas, 
tendo a sobrevivencia 
como companhia. 

Estive 
em inúmeras encontros, 
às vezes 
inflamando mentes, 
outras vezes, 
apenas ouvindo, 
sem versos, 
aversão 
inerente, 
teimosa 
a tudo,
antissocial, 
antiacadêmica. 

Meus recitais 
são em praças públicas, 
quando são:
expressam mais 
gritos de guerra, 
que o deleite 
de corações. 

Uma realidade 
horrenda 
me prende 
ao mundo, 
não permite 
transcender. 

Tem o gosto de fome, 
o frio das ruas, 
as portas fechadas, 
poderosos sorridentes, 
religiosos interesseiros, 
as forças das armas, 
mais um povo 
mudo e ausente. 

Como ter tempo para ser poeta? 

Não foi principal 
diante da realidade; 
ficou nas encruzilhadas 
dos caminhos, 
sulcos de beijos, 
declarações por dar. 

Inacabado, 
esbarro 
em trajetos, 
pessoas, 
teorias, 
grupos.

Diverte-me 
a gestação 
das sementes, 
o casamento 
com a natureza, 
passeios fugidios, 
a sinceridade 
das crianças.

 O resto é um tédio 
convite ao suicídio, 
mundo devorador, 
desumano. 

Mundo de morte 
opressão. 

Como ser poeta? 

João Paulo Naves Fernandes.

Árido

Ando árido,
 seco. 
coagulado,
sem expressão. 

Um poente. 

Ando ermo, 
com ideias 
em permanente 
formação.

Carnal!. 

Ainda assim vens. 

Vislumbro o desconhecido 
com curiosidade insólita, 
incapaz. 

O dia vem,
 e outro, 
mais outro. 

Suspendo os caminhos
 e olho o entorno. 

Faz sentido? 

Tudo pode perder sentido, 
ainda que existam 
sentidos ocultos.

Brasil aculturado

O POETA TRANSFORMOU O VERSO EM PALAVRA DE ORDEM

VOU TOMAR CONTA DO TEU SONHO.

 Vou tomar conta do teu sonho. Pronto! Já não há mais ditadores, e o excesso de pessoas some das ruas. Os ricos perdem o poder e as crianças podem brincar,ir à escola. Os esquecidos são percebidos, 
exaltados. Um mundo novo é construído. As doenças desaparecem, e a juventude se mantém para sempre. Não se morre mais, mas se passeia sempre.As praças ficam cheias, e as semanas, meses e anos serão feriados, sentidos assim. A criatividade estará livre, sendo proibido apenas o que faz o mal. Por sinal o mal será esquecido até desaparecer. Os gritos, apenas para chamar as crianças para o almoço. No mais, a expressão das faces dirá tudo. Vou tomar conta do teu sonho. Depois você me diga se gostou. Ah...lá os poetas não precisarão mais recitar; será a nova linguagem da humanidade..

 (Para os sonhadores, do antipoeta esquecido no tempo - Joao Paulo Naves Fernandes.)

ESPERA INDEFINIDA

  A cama está a espera... reluto. Uma ânsia indefinida  mantém os olhos abertos. Um examinar tudo  permeia o silêncio. Todos dormem...  tamb...