domingo, 9 de junho de 2024

SAÍDA À FRANCESA

 


Pode ser 

que um dia destes 

eu vá  

e não me despeça. 


Melhor assim, 

que fique 

a impressão 

de que ainda 

continuo, 

embora ausente.


Que as atividades 

mantenham 

sua frequência, 

e tudo siga 

o curso manso 

dos rios.


Mais do que 

ser lembrado 

é deixar marcas 

impregnadas, 

sede de justiça, 

olhar de igual 

para igual 

para amigos 

e opressores,  

sem rebaixar-se 

ou elevar-se.


Despedidas 

nada valem 

se não permanecem 

ações de convivência. 


A estrada é nova, 

e novas são 

todas as coisas.


Então,  

não se preocupe,  

porque 

de alguma forma 

continuo sorrindo 

da vida  

desdenhando 

as adversidades.


Pode ser

que não 

me despeça.

SINTONIA

 


As palavras excedem

vão perdendo o elã.


Devem ser contidas 

nos prados 

da consciência.


Também 

são insuficientes, 

necessitam mergulhar 

no lago da realidade.


Palavras convidam 

a danças primitivas 

sonhos transcendentes, 

estão sempre 

se reinterpretando 

quanto a cor 

do seu fulgor.


As vezes 

escondem-se 

no silêncio 

da descoberta 

pessoal, 

longe 

das grandes massas.


Passo o tempo 

pescando-as 

em meu poço 

de ignorância, 

longe da lógica 

da vida.

NÃO VERBAL

 


Meu coração 

quer dizer algo, 

mas sua linguagem 

ainda não 

se transformou 

em palavras.


Talvez 

nunca consiga,

mitiga

mitiga,

fica

por ali

mesmo.


Aperta aqui, 

deixa algo 

no ar, 

indecifrável. 


Deseja

compreensão

sobrenatural.


No limite 

de sua mudez, 

mistura-se 

junto a face, 

sem identidade, 

clamando 

ser descoberto

de seu desterro. 


Atravessa 

as falsidades 

da razão, 

sempre 

tão ereta 

incólume.


Ah coração! 


Quanta vergonha 

faz passar 

os perfeitos, 

tão falsos.


Quanto desbravamento de ódios!

ESCOLHA

 


Escolhi você 

e te amei.


Não pensei muito, 

não pensei.


Foi olhar 

e me dar conta 

de perdido.


Reviravolta 

nos caminhos, 

nada no lugar.


Escolhi percorrer 

o desconhecido contigo,

quando tudo seguia 

o ritmo de sempre.


Revolucionei-me, 

não dormi, 

segurei firme 

no amor

desabei-me em ti

derramei-me

calçadas afora. 


Agora vivo livre

qual um passarinho

saltitando 

entre os galhos 

matinais.


Bela é a vida!

Bom é amar!


Que eu siga 

este caminho 

de desafios 

propagando a vida 

como fim.


Sem o amor, 

o que é viver?

BOMBA RELÓGIO

 


Tenho 

uma bomba relógio 

em mim.


Conta 

os segundos, 

a hora, 

o dia, 

a semana, 

o mês,  

o ano, 

a vida.


Está ali, 

Aguardando 

o tempo 

de sua eclosão. 


Não se importa   

se existem 

projetos, 

trabalho, 

família, 

política , 

religião, 

lazer, 

submete tudo 

a uma urgência 

obrigatória.


Estes sim, 

correm 

para terminar 

rápido, 

o que lhes 

foi confiado, 

desconfiados.  


Hoje ela dorme, 

finge ausência, 

deixa a impressão 

de ilusão, 

permanência. 


Vem o dia, 

se vem, 

em que ninguém 

poderá impedir, 

esta bomba 

explodir. 


Não há 

quem tenha 

contado detalhes 

deste derradeiro 

enlace, 

interrupção 

abrupta 

de tudo, 

de uma só vez.


Piso manso

o caminho , 

olhando dentro, 

na esperança 

de não antecipar 

seu tempo contar.

PREÂMBULO

 


Não sei 

se vou 

conseguir 

dizer 

o que estou 

pensando.


Também 

não tenho pressa 

nem certeza 

de que 

é isso mesmo.


Então fico 

num compasso 

de espera, 

aguardando 

chegar tudo, 

para me manifestar.


Melhor assim,

Incompreensão 

sob o manto

da prudência. 


Agora, 

vai que eu diga 

e não é  isso, 

como fica? 


Não sei 

se falo 

assim mesmo...


Melhor assim...


Depois 

alguém 

me corrige. 


Decerto 

vai me ajudar 

a entender, 

ou não?


Não sei...


Vou dar 

um tempo 

até tudo 

se esclarecer.


De repente, 

encontro.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

SONOLÊNCIA HUMANA

 Vou guardar 

as promessas que fiz 

em meio a dor.


Padecer

desperta 

o coração, 

caminham juntos.


Que a saúde 

não ofusque 

a consciência 

alcançada 

no sofrimento.


Quanta ausência presente! 


Tudo vai bem.


É preciso 

um certo adoecer,

para amanhecer melhor.


Muitos lamentos 

ecoam pelas noites 

sem fim...


Silêncio de gente...


Todos permanecem 

em suas posições.


Estarão preocupados

com algo, 

com alguém?


Seres ausentes do mundo...


Vou propor 

epidemias, 

grandes desastres!


Quem sabe acordem 

desta sonolência 

criminosa,

olhem ao lado,

vejam tantos 

que sofrem,

apagados 

de suas realidades.


Vou propor guerras!


Quem sabe pensem,

 em algum momento, 

sobre os benefícios da paz.


Vou propor eu, você, nós!


Seguirmos juntos 

nesta caminhada distraída, 

desvencilhando-nos 

de tudo 

que nos ocupa, 

desocupa.

PORQUÊS

Porque esvoaçam os brilhos que descansam no olhos? Os ninhos que se ocultam na boca, chocam verdades? Não eclodem? As sombras disfarçadas pe...