sexta-feira, 31 de maio de 2024

DESESTRUTURADO

 


As estruturas 

tão grandes

eu tão pequeno.


Se grito, 

quem me ouve?


Um mundo 

tão cheio 

de opressão 

e eu um nada 

submerso 

na profunda 

exploração. 


Um povo 

tão grande 

que não fala, 

e uma minoria 

que ladra 

sem parar.


Queria 

ardorosamente  

o inverso 

deste tudo,

a revolução...


Mas fico 

silencioso, 

com minhas 

pequenas dores 

em assistir 

este circo 

de horrores.

SINTONIA

 


As palavras excedem

vão perdendo o elã.


Devem ser contidas 

nos prados 

da consciência.


Também 

são insuficientes, 

necessitam mergulhar 

no lago da realidade.


Palavras convidam 

a danças primitivas 

sonhos transcendentes, 

estão sempre 

se reinterpretando 

quanto a cor 

do seu fulgor.


As vezes 

escondem-se 

no silêncio 

da descoberta 

pessoal, 

longe 

das grandes massas.


Passo o tempo 

pescando-as 

em meu poço 

de ignorância, 

longe da lógica 

da vida.

CONTRO VERSO

 


As montanhas 

me confundem

fundem,

tão altas,

eu tão baixo.


O oceano 

me embriaga 

embarga,

tão vasto,

eu tão pequeno.


As florestas 

me desconhecem,

inexploradas,

eu tão devastado.


A vida 

me supera,

tão complexa, 

eu tão simples.


O amor 

me surpreende,  

tão aberto,  

eu tão fechado.


A estrada 

uma incógnita,  

retas e curvas, 

eu e meus dois pés...


Dominar o indomável...


Sigo 

como posso, 

falo 

como vejo

percevejo...



ESBARRO

 


Minha fé 

pesca estrelas 

errantes, 

quando a Lua 

é minguante.


Luta

distante,

a esperança 

como isca.


Fica lá aguardando...

fisga que não vêm 


Deixa perguntas soltas

Aguarda respostas íntimas. 


Questiona e questiona...


Destrói muitos deuses.


Fé de barro

que esbarro.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

SAÍDA À FRANCESA

 


Pode ser 

que um dia destes 

eu vá  

e não me despeça. 


Melhor assim, 

que fique 

a impressão 

de que ainda 

continuo, 

embora ausente.


Que as atividades 

mantenham 

sua frequência, 

e tudo siga 

o curso manso 

dos rios.


Mais do que 

ser lembrado 

é deixar marcas 

impregnadas, 

sede de justiça, 

olhar de igual 

para igual 

para amigos 

e opressores,  

sem rebaixar-se 

ou elevar-se.


Despedidas 

nada valem 

se não permanecem 

ações de convivência. 


A estrada é nova, 

e novas são 

todas as coisas.


Então,  

não se preocupe,  

porque 

de alguma forma 

continuo sorrindo 

da vida  

desdenhando 

as adversidades.


Pode ser

que não 

me despeça.

ESCURIDÃO PROFUNDA



Porquê a noite 

não termina?


Ouço ao longe 

os galos 

resmungando...


Escuridão de gente, 

escuridão de teses, 

escuridão de paz.


Demora 

uma eternidade 

para a História 

parir 

um pouco 

de liberdade.


Debato 

em pequenos 

círculos 

como se fosse 

dono do mundo!


Vício de 68.


Fico aguardando 

a vinda 

do dia, 

da luz...


Quem sabe 

hoje seja 

diferente, 

este pesadelo 

apenas 

uma brincadeira 

de mau gosto.


Prefiro continuar 

sonhando, 

acreditando, 

fingindo 

que nada disso 

existe.


A noite já vai alta, 

pelos lados 

do horizonte 

não há sinal 

do amanhecer.


Vou me dando 

conta das ilusões 

que crio. 


Como aguento 

o unguento,

tantos dissabores, 

batendo tambores


...e esta noite 

que não termina...

horizonte

que não germina

sábado, 18 de maio de 2024

DESENCONTRO

Tenho um lado doce na boca. 

Dele descem cavalos alados

das travessias outonais.

Está em conformidade 

com a vida, 

passeia palavras 

sem receio 

de esbarrar 

em muros surdos. 


Gafanhoto

de pequenos voos 

entre arbustos e ervas, 

balançando escolhas 

de ramos e folhagens. 


Vai, às vezes à relva, 

só para revolver a terra, 

recolher o oculto

que se dissolve 

em canais. 


Quando o Sol 

anda alto, 

assimila a aridez humana 

com ternura 

sem desfazer-se. 


Abre o leque 

das palavras 

com a leveza 

das brumas matinais, 

em clima 

de poucas palavras. 


Possuo também um lado amargo e seco. 


O que nunca encontra eco, 

digladia-se internamente, 

oponente de si mesmo. 


Expõe cumes inescaláveis, 

verdades proscritas, 

afetos desafetos, 

tudo que é rejeitado, 

abominável. 


Avesso a afazeres, 

permanece mudo 

no andar de cima, 

observando crítico. 


Rabugento, 

resmunga, 

consciente 

do silêncio, 

e cala-se.


Ambos regam as palavras 

com a mesma saliva.


Pêndulos de circunstâncias 

favorecem um ao outro.


Prisioneiros da convivência, 

dialogam nas marés altas

até as tempestades, 

quando urge buscar abrigos. 


Sempre se estranham 

em sua unidade.


Ferem a personalidade, 

que anoitece.




ESPERA INDEFINIDA

  A cama está a espera... reluto. Uma ânsia indefinida  mantém os olhos abertos. Um examinar tudo  permeia o silêncio. Todos dormem...  tamb...