quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

CEIA SOLITÁRIA

 


O esquecimento é rápido, 

as lembranças demoradas.


O ontem desapareceu, 

mas as partidas

são longínquas,

eternas,

nunca morrem. 


Vem dia,

vai dia,

José 

nunca mais ligou, 

Pedro desapareceu.


Fico a pensar  

como o presente 

é duro e solitário,

só o passado 

é recheado de gente.


Cumprimento Ciça, 

ela vira a esquina e...

será que volta?


já os que partem, 

muitas vezes, 

sem despedida, 

sempre estão comigo

presença gotejante 

permanente.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Pequena Hermenêutica do Amor. ( a Vinicius de Morais)



Que o amor seja 

o do amanhã, 

mais do que 

do hoje, 

ainda que seja 

o mesmo.


Possa eu dizer 

um "te amo" 

que ultrapasse 

mantras, 

ressoe 

novas formas, 

sem perder 

o agora.


Amo-te 

num multiforme 

infinito, 

mais descoberto, 

do que amado.


Basta o gozo 

do agora,

e os méritos 

dos que vem 

de fora.


Deixe enlaçarem-se 

as línguas do tempo, 

vaginas de eras inteiras, 

enquanto abraçam 

novas formas, 

escondidas 

desde antes, 

quando se realizaram.


Por hora, 

entrega-me 

teu ser inteiro 

para eu inteiro, 

e sejam depois, 

escavações 

intermináveis.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

VERSOS SOLITÁRIOS

 

Escrevo com o povo
versos solitários.
Andam errantes
como quem não sabe
o dia em que come,
o lugar onde dorme.
São versos excluídos,
seus escritos
são proscritos.
São palavras
que não ecoam,
a maioria escuta apenas
suas próprias lamentações .
Versos expulsos
das praças,
gritam a surdos,
escapam pelos vãos
das incompreensões.
Quisera versos despertos
ouvidos atentos,
poemas engajados,
mas discriminado,
encontro apenas
versos solitários.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

POR FAZER

 


Tenho um abraço por dar...

eles estão esperando, 

mas a iniciativa é minha.


Um beijo por dar; 

não esperam, 

mas é minha a iniciativa.


Uma visita por fazer,

talvez esperem, 

talvez não, 

não importa. 

porque a iniciativa é minha.


Tenho uma estrada a percorrer, 

e existem muitos nela, 

ocupados consigo mesmos. 


Ocupar-se com o nós 

na estrada,

é minha iniciativa.


Abraçar, 

beijar, 

visitar, 

percorrer a estrada, 

não espera, 

se faz...

SINAIS SEM MAIS

 


O ponto é o fim.


As reticências são fins abertos.


O parênteses é uma incapacidade de se explicar.


A interrogação transfere dúvidas. 


A exclamação dá sustos. 


A vírgula é um pensamento  alongado. 


As aspas querem ser diferentes.


O acento é amigo do ritmo.


Os dois pontos são uma formalização. 


O hífen é uma velha bengala da palavra. 


A apóstrofe é uma arritmia respeitosa.


O travessão discrimina a letra.


O ponto e virgula quer parar, nas não consegue.

NA ESTRADA

 


Sempre estive 

na estrada, 

sempre 

caminhando.


Encontrei de tudo 

por onde andei, 

chupei frutas, 

colhi ervas amargas. 


Estavam todas na estrada. 


De vez em quando 

olhava o céu 

e respirava, 

tão grande estrada, 

mais longa 

que meus pequenos 

sonhos.


Optei pela realidade, 

vi a fome

vi o abandono,

encontrei no amor 

algo diferente de tudo, 

ultrapassava. 


Experimentei a dor, 

e vi o quão só 

ela nos deixa.


Ainda caminho 

nesta estrada.


A subida 

contorna o fim.


Ela nunca acaba.


Acabo eu, 

mas a estrada 

continua, 

nua, 

cruel, 

mel...

PORQUÊS

Porque esvoaçam os brilhos que descansam no olhos? Os ninhos que se ocultam na boca, chocam verdades? Não eclodem? As sombras disfarçadas pe...