quinta-feira, 31 de outubro de 2024

QUEBRA CABEÇA

 

Fiz das palavras
minha infância,
fazendo-as correr
de um lado a outro,
pulando dimensões,
jogando versos soltos
em busca de concordâncias.
Elas preservam
a verdade
guardada pelo tempo,
despertas das preocupações
ressuscitam os mortos
das pesadas estruturas
(amontoam-se na idade),
buscam espaços perdidos
deslizam em sonhos
até hoje.
Dentro de mim
há uma criança
sentada,
brincando com letras,
quebra cabeça
de palavras
desconhecidas
gerando poemas.
Esta criança
não para de brincar,
não gosta
que a tirem
de sua transcendente
concentração.

CORACÃO DE PAPEL

 


Coração de papel
escreve enquanto palpita.
Combina ritmos
junto às palavras,
quase música;
não sabe
se fala,
se canta,
se cala,
meio termo de tudo,
segue em meio
aos afazeres
e prazeres,
contudo.
Batimentos
de folhas viradas,
olhos atentos
em páginas vazias,
escritas náufragas
de profundidades
permissivas,
proscritas.
Provém de jardins
desconhecidos,
regados
por dores,
amores
adormecidos
nas letras
Afloram puros,
ignoram a existência,
leitura mítica interior,
intervalos noturnos,
tropeis caudalosos
de versos alados
fungam ansiosos.
Aspiram recitais exilados,
contrapontos da vida,
coração que se desfaz
em páginas
enquanto segue
o caminho.

POEMA PROIBIDO


Estou procurando
um poema proibido.
Se o encontrarem,
escondam...
não deixem
que vejam.
Poema
subversivo
realista
clarissimo,
comunista.
Ocultem-no
dos poderosos,
incultos,
vazios,
pestilentos,
não sabem
que não sabem,
fungam morte.
Procuro no vazio
o poema discurso
sem rumo sem curso
anárquico que busco.
Que fique guardado
no panteão da liberdade
ou nas trevas das prisões,
amordaçado,
porque sempre grita,
incomoda,
irrita,
Poema proscrito,
Escondam-no
depressa...

CONFIDÊNCIA (Véspera de Todos os Santos)

 

Cometi muitos erros
em minha vida.
Quem sabe,
mais erros
que acertos.
Cheguei ao fundo
do poço,
ninguém sabe disto.
Por isso compreendo
os erros dos outros,
de todo o tipo.
Por ter errado muito,
aprendi, no sofrimento,
a não colocar-me
acima das pessoas.
Se olho de cima
(quem sou eu
para estar no alto),
quem sabe
mais Deus tenha
de se esforçar
em sua misericórdia,
para comigo.
O mundo sempre esteve
em minha frente
como uma conquista
a ser feita.
Somente o tempo
celebrou o casamento
do mundo comigo,
e pudemos fazer as pazes,
regar jardins
descobrir terras novas,
cuidar dos feridos
de toda ordem.
Ferido a cuidar
de feridos.
Ainda luto...
contra o mundo
e contra mim.
Sinto-me sempre puxado
para um lado
que não é bom,
enquanto esforço-me
para seguir outro,
ditado pelo coração.
Assim,
posso ser encontrado
às vezes sisudo,
outras vezes alegre,
depende do momento,
por onde caminho.
Tantos erros,
que tento
fazer o bem,
compensação
de situações
que não
se compensam,
acumulam.
Está somatória desperta
um juízo adormecido
que pende,
ora para o perdão,
ora acusacão...
Assim vou...

domingo, 20 de outubro de 2024

SENTIDO



Quero deixar um beijo,

receba-o como quiser, 

deixar um afago, 

o mundo precisa tanto.


Deixar-me inteirante a ti, 

se me ouves 

lês 


Preciso de ti, 

nada sou 

sem ti,

sentir, 

sentido.


Sou palavras rasuradas 

à procura de um encontro, 

nada mais.

BERÇO ESPLÊNDIDO

 


O tempo vai se esgotando, 

o espaço se reduzindo.


Mas a realidade da vida, 

permanece exigindo 

sempre mais, 

como se não se importasse 

com nossos dias contados.


A voracidade dos acontecimentos 

está em proporção avassaladora, 

em relação à nossa capacidade 

de resolver.


Mundo dos fortes....


Sentimo-nos indefesos, 

como inocentes 

jogados aos leões.


Reduzimos a presença 

atentos ao possivel, 

olhando a ameaça 

das instituições, 

os perigos das aventuras,

às tendências 

dos grandes movimentos 

no tabuleiro social 

e político da vida, 

mantendo o foco 

nos pequenos, 

não no mercado.


Compreendemos 

que nada sai do ódio 

senão ele mesmo, 

uma idiotice proto homínida, 

repetida inutilmente. 


Percebemos 

que só o amor 

encaminha 

às grandes soluções. 


Distraímo-nos nas tarefas 

como se fossem um fim, 

e tardiamente nos damos conta 

dos grandes desperdícios 

de nós mesmos, 

que a felicidade 

era uma ingênua participante 

de nossas relacões


Alertamos a um mundo 

que não escuta, 

segue seu caminho suicida. 


Sobra a consciência e a fé...


É destas que virão 

as grandes soluções; 

não são ensinadas, 

mas encaminhadas 

às mentes e corações 

para suas experiências íntimas;

o que é verdadeiro 

passa por aprovação pessoal


O amor jaz 

nas entrelinhas, 

portas fechadas, 

condenado pelo grande 

perigo que representa 

de propor o novo, 

enxergar 

as grandes soluções.


Por isso sofre, 

é perseguido.


O tempo vai se esgotando, 

o espaço se reduzindo...

PORQUÊS

Porque esvoaçam os brilhos que descansam no olhos? Os ninhos que se ocultam na boca, chocam verdades? Não eclodem? As sombras disfarçadas pe...