terça-feira, 23 de junho de 2026

VIDA BREVE

  


De repente, 

vejo-me sem ter 

onde guardar experiências, 

arduamente apreendidas, 

e naturalmente 

descartadas pelo mundo.


Entreguei-me ao mundo, 

como uma folha de outono 

a passear sozinha 

ao sabor do vento, 

perdida, 

antes de dissolver-se 

seca 

por sobre a terra...

uma ovelha por tosquear, 

distraída nas montanhas, 

indiferente 

aos perigos 

frequentes...

muda sem terra, 

sem vaso 

vazia 

de nutrientes...

ninho por formar, 

amor sólido, 

crias por criar, 

gerações a perpetuar


Não perguntei 

das distâncias 

nem dos riscos, 

olhava incólume 

e seguia, 

conforme o coração 

mandava...


Os resultados via depois...

na maior parte 

acertei nas decisões,  

e quando errei 

compreendi, 

às vezes 

a duras custas...


De alguma forma, 

deixei-me enrijecer

pelo mundo...


Tempos diversos 

onde a juventude 

pôde expressar-se 

sem sobressaltos, 

ciente de si, 

consequente. 


A riqueza ficou

para o último plano, 

não pensei em acumulalar...

apenas mais adulto, 

quando o fim 

pôde ser pensado.


No mais, 

era cigarra solta 

nos desertos, 

brincando de guerra 

diante das guerras...


Amar preencheu 

todos os espaços...


Pude descobrir e medir 

a importancia das coisas, 

realizar-me 

como alguém 

com identidade


Em meio a tudo, 

uma estranha 

companhia 

fui reconhecendo, 

tardia...

parecia não interferir...

acostunei-me a ela 

quando o Sol se punha...


Ao sair ileso 

das grandes perseguições, 

perguntava-me

como pude sobreviver, 

ao lado de tantos 

sucumbidos 

no pântano do poder.


Sei apenas que sobrevivi.


Estudei o que o coração pedia, 

e refestelei-me 

com o conhecimento...

disto extraí 

o nectar da vida, 

escondido dos opressores, 

o deixar-me levar 

pelo fragor das ondas 

pipocando nas praias, 

ácidas, 

eu borbulhando...


Desejei ser mais, 

sofri inutilmente 

a voraz disputa por lugares...

em certo momento, 

percebi que tudo 

tem uma hora, 

sem precisar disputar.


O mundo possui 

espaços amplos 

para acomodar 

toda gente.


Olhando por sobre os montes, 

as mudancas repentinas 

que estão vindo 

mais frequentes, 

tenho a sensação 

de que não minhas 

mas das novas gerações 

esta penitencia...


De minha parte 

fica o testemunho 

do criar, 

usufruir 

e partilhar

sempre...

e ainda tem gás...

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