terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O PAPAI NOEL QUE CHORAVA



Num grande país, localizado numa região escarpada por montanhas elevadas e vales profundos, vivia um povo organizado e próspero. Conquistara uma pujança econômica, após séculos de subdesenvolvimento e submissão a nações mais ricas.
Seus habitantes haviam lutado durante séculos contra o atraso, que contaminara com a corrupção e a discórdia, toda a nação.
Houve confrontos e morte, e ao final, o mal foi sendo paulatinamente erradicado.
Para os viajantes chegarem lá era difícil, devido ao relevo, mas os governantes não colocavam obstáculos para quem desejasse instalar-se ou mesmo visitá-los; até incentivavam.
Embora considerassem suas conquistas preciosas, abriam o país para a vinda de gente de fora, acreditando que isto não alteraria o equilíbrio alcançado. Tinham abertura.
O crescimento econômico obtivera êxito, abrindo novos postos de trabalho, e ampliando o mercado interno.  A fome diminuíra, e novos segmentos sociais ascenderam na escala social, ocupando espaços importantes de cidadania.
As manchetes dos jornais, não apresentavam mais apenas a prisão de peixes pequenos, mas estampavam também nas primeiras páginas, os grandes fraudadores do fisco indo para a cadeia.
A polícia invertera sua ação, sendo progressivamente respeitada pela população, que antes a via com desconfiança.
 A educação, que fora um grave problema, devido ao sistema de bolsas, formava agora um bom número de técnicos, engenheiros, médicos e cientistas. Assim, o país foi formando uma mão de obra que começava a suprir suas necessidades.
A expansão da infra-estrutura e a preservação do meio ambiente também foram sendo equacionadas, ainda que a população precisasse desenvolver novos hábitos ambientais e de higiene.
Os novos rumos de crescimento, e a abertura para o mundo, entretanto, abriram uma fissura que poderia comprometer o todo o projeto nacional: tratava-se da dominação cultural, vinda do exterior. Os pensamentos vindos de fora, eram aceitos por muitos, e vistos com reservas por outros.
A religiosidade tornara-se multifacetada, descaracterizando símbolos antes tidos como naturais, confundindo a linguagem mística do povo.
O sistema democrático, tão desejado por décadas, mostrava falhas que favoreciam o retorno dos pensamentos retrógrados, pois o uso da máquina pública para beneficiar pequenos grupos, e a própria corrupção, voltava como doença crônica.
A mitologia nacional estava sendo proscrita, devido a esta invasão. O Saci-Pererê estava desmoralizado por ser perneta, não amedrontando mais as criancinhas nas histórias contadas antes de dormir, com seu cachimbinho de entortar a boca.
A Sucupira praticamente fora esquecida. Sua última aparição fora em Macunaíma. A Mula sem Cabeça se transformara em história de bêbado, e o Boi-tatá, bem, este ninguém mais sabia quem era.
A aculturação provocou uma amnésia nacional, com transferência progressiva dos festejos para outros tipos hábitos, como a halloween, enaltecendo símbolos de morte, principalmente junto às crianças, que se fantasiavam de mortos-vivos, para pedir balas. Outras festas, consideradas tradicionais estavam perdendo seu significado, sendo tratadas de maneira superficial.
Poucos se incomodavam com estas mudanças. A maioria achava natural que valores, antes respeitados por todos, fossem sendo destruídos aos poucos, por considerá-los inofensivos.
Foi neste quadro que aconteceu um fenômeno inexplicável, que gerou uma discussão nacional.
Um país próspero, que não temia mudanças, começou a se defrontar com uma inusitada situação, com a qual nunca tinha passado. Afinal, haviam se enriquecido, tinham de tudo, não precisando prestar contas para ninguém do que faziam.
Algo começou a incomodar, ao final do ano, na preparação da festas de Natal.
Era tradição realizar um concurso para a escolha do Papai-Noel, e muitos pretendentes acorriam para disputar esta vaga, pela notoriedade que ela representava, e a remuneração que proporcionava.
O processo de escolha era sempre bem conduzido: profissionais obesos, barbudos, alegres e receptivos, disputando uma vaga diante de um comitê.
Os candidatos deviam apresentar-se paramentados com toda a vestimenta, fazer um pequeno desfile, assentar-se no trono e acolher algumas crianças chamadas, para simular um teste.
Assim aconteciam todos os anos, as escolhas. Por isso que, à princípio, ninguém deu atenção para o fenômeno.
 Na preparação da festa Natal, depois de demorada escolha do candidato, quando tudo estava praticamente pronto, e as crianças já faziam fila para pedir os seus presentes, ocorreu um algo inexplicável.
Uma força invisível e silenciosa envolvia o Papai Noel, sem que ele percebesse. Toque inicialmente imperceptível, dando a impressão de ser um simples lacrimejar, conseqüência de uma vista cansada.
 Entretanto, com o passar das horas, transformara-se num rio de lágrimas incontidas, comprometendo a atividade, impedindo-o de ouvir as crianças, de falar e sorrir. Ao final, seus olhos permaneciam inchados.
Ficava ali, o Papai Noel, prostrado em sua cadeira real, com a cabeça pendida para o lado, escondendo das crianças o seu rosto inchado.
A fila parada e o tempo passando,  logo provocaram reclamações.
Os pais estranhando este comportamento retiraram os filhos de perto, não entendendo o que acontecia. Apenas criticavam a falta de critério na escolha do candidato.
 Como as reclamações aumentaram, encerraram de maneira antecipada o evento. Todos foram embora reclamando dos organizadores, e por extensão do governo.
Quando deixaram o local, e restaram apenas os organizadores à sós com o velhinho, perguntaram-lhe porque chorava.
- Não sei – respondeu - Não tenho vontade de chorar, mas as lágrimas não param...
Repetiram o evento no dia seguinte, e como era de se esperar, aglomerou-se um número ainda maior de pais e filhos para a visita. Novamente, aconteceu o mesmo problema das lágrimas, com a conseqüente interrupção da festa.
Como o problema persistia os organizadores não tiveram outra saída senão afastar o Papai Noel. Interessante que, fora do atendimento ele não chorava, permanecendo apenas com os olhos avermelhados, mas bastava assentar-se no trono e colocar-se para receber as pessoas, e começavam as lágrimas.
Escolheu-se outro candidato para o cargo temporário de Papai Noel, e, surpresos, viram repetir-se a mesma situação.
Não havia explicação para o choro. E só acontecia quando estavam no trono.
Este fato gerou um questionamento em todos:
-Como é possível, -diziam- que o mesmo problema permaneça, mesmo trocando de Papai Noel?
Outros ainda investigavam - Por que choram somente quando ocupam a cadeira de Papai Noel?  
Para não constranger pais e filhos, ambos foram afastados do convívio social, longe dos holofotes da imprensa, ávida de informações, e levados a uma das muitas grutas que existem nas montanhas da região. Quando o terceiro Papai Noel também verteu lágrimas, o processo foi interrompido,
Lá os três passavam seus dias juntos, tentando entender as lágrimas e os olhos inchados, e o que isto significava.
Os governantes com isso resolviam o problema ao seu modo, tirando de cena os velhinhos chorões. Ocorre que tanta coincidência acabou gerando um burburinho estranho no país.
Uns achavam que era uma mensagem divina que não fora devidamente interpretada. Outros pensavam tratar-se de um golpe para desestabilizar a nação. Outros ainda imaginavam ser a propaganda de um novo produto a ser lançado.
O quadro era de impasse: o Natal se aproximando, o trono do Papai Noel vazio, as crianças cada vez mais irrequietas, os pais questionando como fazer as crianças acreditarem em Papai Noel. Estes, por seu lado, não encontravam respostas, aguardando na gruta alguma solução, vinda não se sabe donde.
A vida em solidão tornou-se uma experiência incomum. De personagens públicos, rodeados de toda espécie de pessoas, agora, discriminados e em exílio. Fato inicialmente difícil de aceitar foi, paradoxalmente, fornecendo-lhes consciência, e embora não eliminando o problema, tiveram a oportunidade de se examinarem melhor.
Foi quando aconteceram os primeiros sinais.
Uma manhã ao acordar, um dos velhinhos, disse aos demais ter ouvido, entre o sonho e o despertar, uma voz dizendo-lhe:
- Vai, vai, vai! Vai nascer! E o trono é meu!
Seus olhos naquele dia pareceram sãos, mas como ele não conseguiu explicar aquela voz, no dia seguinte, voltaram a ficar inchados.
A mesma voz soou nos ouvidos do outro Papai Noel no outro dia, pouco antes do amanhecer, com a conseqüente sensação de cura. Como, novamente, não se entendeu a voz, tudo retornava.
Informados, os dirigentes da nação, ofereceram uma recompensa para quem explicasse o sonho. Nada.
Aproximava-se o dia 25 de dezembro e a aflição aumentava cada vez mais.
Na véspera do dia 25, um eremita, que passava o dia isolado em orações, e habitava nas grutas próximas, em uma de suas raras aparições, a passar pelo local, ficou sensibilizado com a tristeza dos bons velhinhos.
- Por que vocês estão tristes e vivem nesta gruta? – perguntou.
- Nós fomos escolhidos para representarmos o Papai Noel na cidade, mas sempre que sentávamos no trono, para receber as crianças, começava em cada um de nós, um choro que não parava. Só quando deixávamos o local é que as lágrimas sumiam.
- Eu não sabia a razão - disse um deles - pois não tinha vontade de chorar. Apenas chorava. Agora, eu sei que deve existir uma causa para estas lágrimas. Só que eu não consigo resolver esta charada. Estou seco de tanto que chorei, sem ter sentido.
- Você sabe por que não sentiu o seu choro? – questionou o eremita.
- Se eu soubesse, já teria ido embora deste exílio que me foi imposto.
- Seu choro parece o de uma grande perda na vida. Se a gente aceita tudo o que não é importante, e faz todos aceitarem também, algo chora dentro de você. Algo autêntico, que ficou tão distante que não pode mais ser identificado.
- Você, por acaso, sabe o que está tão distante de você?- completou.
- Se eu soubesse, já teria saído deste exílio – respondeu o terceiro velhinho.
O eremita entristeceu-se com esta resposta. Pensara que uma luz já tivesse acendido no coração daqueles homens.
Aproximando-se, olhou para cada um como se estivesse criticando a ignorância, e completou.
- São vocês mesmos, que estão distantes de si próprios, e do verdadeiro sentido do Natal. Papai Noel precisa também nascer de novo!
Vejam! Contra a vossa vontade, o espírito de cada um de vocês chorava a ausência do Criador, por todas as vezes em que dele estiveram distantes. E é tão fácil ficar distante, não é?
Tudo convida a agir sozinho. Porém, como o nosso espírito mantém o desejo de unir-se a Deus, ele provoca as lágrimas que estranhamos, pela ausência que sente.
 - Ah... – retrucaram uníssonos – Existe alguém dentro de nós que sente o que nós não sentimos?
Nossos sonhos diziam que alguém iria nascer...Será este o nascimento que o sonhos se referem tem a ver com nossas lágrimas?
- Sim, mas é um nascimento diferente, um nascimento interior, em vocês mesmos - acrescentou o eremita. Uma mudança que não lhes desfigurará, mas permitirá que percebam como ela está ocorrendo.
Fizeram um silêncio consentido.
Considerando ter falado o suficiente para um bom entendimento, o eremita esquivou-se deles, e voltou a refugiar-se em sua pequena caverna.
Aquela reflexão foi tornando claras as razões daquela situação.  Descobriram, que na gruta não teriam chance de se libertar do problema. Assim, decidiram sair juntos em direção à cidade.
- A verdade está chegando! – gritavam juntos
Quem os via passar, seguia-lhes os passos, curiosos – O que descobriram afinal?
Dirigiram-se para onde estava o trono do Papai Noel, localizado ao final da avenida principal da cidade. Lá, existe uma escadaria e um caminho com tapetes vermelhos, no alto do qual fica um grande trono, que pode ser visto por toda a multidão
Enquanto descia, gritavam,
- O trono não é nosso! O trono é dele! – É como se uma consciência fosse tomando conta dos três conforme caminhavam. Uma alegria embalava o trajeto.
Atônito, o povo foi se aglomerando, acompanhando-os em direção ao trono.
Aproveitando, pegavam seus filhos, pois ali encontravam a oportunidade de resolver a questão da escolha dos presentes de Natal.
Ao chegarem junto do trono, diante de uma multidão, todos notaram que seus olhos estavam curados, pois não choravam mais.
Curiosamente, nenhum dos três se sentou no trono, mas pediram que se buscasse uma imagem do Menino Jesus deitado, de aproximadamente uns 60 centímetros, enquanto aguardavam.
Ao trazerem a imagem, dando um grande suspiro de alegria, depositaram-na sobre o assento do trono. Fez-se, na multidão, um instante de silêncio de surpresa e de expectativa.
Em seguida, sentaram-se os três, ao lado daquela criança que estava para nascer, e admiraram-na.
Todos aguardavam o que aconteceria.
- Agora – disseram juntos – estamos diante do presente verdadeiro. O presente dos presentes. O que dá e o que tira, o que estava esquecido, mas que agora é lembrado.
- Crianças – completaram – venham todas aqui!
As crianças vieram em algazarra, gritando rindo e lotando a escadaria.
- Peçam o que quiserem!
Todas gritavam ao mesmo tempo, de forma que não se entendia nada.
- Nós temos uma boa notícia para vocês – completaram – A partir de hoje vocês poderão pedir vossos presentes aos seus próprios pais, sem ter que procurar o Papai Noel, não é bom? Não é mais fácil?
 - Entretanto, aprendam que vocês também podem dar presentes aos seus pais! Não é só pedir.
– Crianças! Vocês são os presentes para seus pais!
- Pais! Vocês são presentes vivos a seus filhos!
- Assim nunca mais ninguém precisará chorar!
Foi o primeiro Natal verdadeiro daquele país.
Todos perceberam que de fato, presentes, riqueza, educação, ou até mesmo melhores condições de vida, nada significavam para suas vidas, se ela estiverem fechadas em si mesmas.
Importa a união, a solidariedade, o amor mutuo.
Que adianta um país rico e progressista, se estiver desfigurado? – diziam os velhinhos.
- E a figura, a imagem visível de Deus, que é o melhor presente para a humanidade, está presente na pequenina imagem do Menino Jesus – completaram.
Naquele dia, todos compreenderam porque eles choravam.
Reverenciaram, portanto, o nascimento de Jesus, que enxuga as lágrimas e enche de alegria a todos que o recebem como um presente.

 Ele, o verdadeiro presente. 

FUGA HERÓICA


Vê!
Todos estão
Ansiosamente
Dispostos
A ouvir
Alguém
Que fale
O que pensam.

Todos têm
A idéia
Do que reforçar,
Já sabendo.

Só para contar
O número
Dos que falam
A mesma coisa.

Só para terem
Certeza
De que é
Uma coisa
Só,
Que precisa
Ser dita.

Só para verem
Quem fala
Melhor
A mensagem
A ser
Compreendida,
Para não
Esmorecerem
A fé
No dia
Seguinte.

para
 não estarem
a sós
diante
da verdade.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

29,8 milhões de pessoas em todo o mundo são escravizadas.

A propagação da escravidão moderna
Uma chaga que afeta dezenas de milhões de pessoas
Por John Flynn, LC
02 de Dezembro de 2013 (Zenit.org) - Rodou o mundo a notícia das três mulheres mantidas em cativeiro em um quarto de Londres. O fato chamou a atenção sobre o problema da escravidão e do tráfico de pessoas.
Em 2012 o Human Trafficking Center britânico, órgão da National Crime Agency, declarou ter identificado 2.225 potenciais vítimas do tráfico humano, com um aumento de 178 unidades ( +9%) com relação ao 2011 (BBC, 22 de novembro) .
O relatório sublinha que os dois tipos de exploração mais comuns são a exploração sexual (35% das vítimas potenciais), seguido pela exploração laboral (23%) .
Entre as notícias mais recentes sobre o tema, na semana passada, o Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU anunciou que o Relator Especial das Nações Unidas, Gulnara Shahinian, teria visitado o Gana do 22 ao 29 de novembro, para monitorar a situação no que diz respeito às práticas de escravidão no país.
Em outubro, a enorme extensão da escravidão foi revelada em um dossiê publicado pela Walk Free Foundation, com sede em Perth (Western Austrália).
A fundação, que tem 20 membros na equipe, foi instituída no mês de maio do ano passado por Andrew Forrest – presidente do Fortescue Metals Group – e por sua mulher Nicola. Fortescue Metals é uma das vinte mais importantes companhias australianas e o quarto maior fornecedor de ferro no mundo.
A relação inaugural do “Índice Global da Escravidão” afirmou que 29,8 milhões de pessoas em todo o mundo são escravizadas.
A Índia tem o maior número em absoluto de pessoas na escravidão, com aproximadamente 14 milhões de pessoas, que, como observou o relatório, são quase a metade da totalidade mundial. Não é tanto uma questão de estrangeiros explorados, observa o relatório, mas de muitos indianos vítimas da servidão por dívidas e pelo trabalho forçado.
Em termos globais a China é o segundo, com 2,9 milhões de escravizados. Os outros países do top 10 são o Paquistão, Nigéria, Etiópia, Rússia, Tailândia, República Democrática do Congo, Mianmar e Bangladesh. O top 10 inclui mais de 22 milhões de escravizados.
Se olhamos em termos de proporção com a população, a escravidão está no mais alto nível na Mauritânia, onde se estima cerca de 150 mil escravos em uma população de apenas 3,8 milhões de habitantes. Haiti e Paquistão estão respectivamente no segundo e terceiro lugar neste ranking.
A escravidão moderna, explica o relatório, não é bem compreendida e é também escondida, com criminosos que usam uma grande variedade de meios para permiti-la e racionalizá-la.
Embora a maioria das formas de escravidão sejam ilegais, o relatório assinala que as leis raramente são reforçadas. O relatório dos EUA sobre tráfico de pessoas do 2013 afirma que 46.570 vítimas do tráfico de seres humanos foram oficialmente identificadas em 2012. Houve, no entanto, somente 7.705 processos penais e 4.750 condenações registradas globalmente.
A prevalência da escravidão está ligada a outros fatores, de acordo com o relatório. Por exemplo, há uma alta correlação entre a escravidão e a corrupção. Níveis mais baixos de desenvolvimento humano e bem-estar econômico são outros tópicos relacionados.
Há algum tempo o Vaticano está comprometido com a questão da escravidão e do tráfico humano. O exemplo mais recente foi quando, no início de novembro, a Pontifícia Academia das Ciências Sociais, em colaboração com a Federação Mundial das Associações Médicas Católicas, realizou aquilo que foi chamado de "worskshop preparatório" sobre o assunto.
"Toda relação que omite respeitar a fundamental convicção que cada pessoa – homem, mulher, menino, menina – é igual às outras e tem a mesma liberdade e dignidade, constitui um grave crime contra a humanidade”, afirma a declaração final do encontro do passado 2 e 3 de novembro.
Há uma "necessidade urgente" de que se continue, para que se coloque fim ao tráfico de seres humanos.
"É nossa obrigação moral fazer de nós mesmos a última geração que deverá combater o tráfico de seres humanos”, acrescenta a declaração final.
O documento conclui com uma série de recomendações do Vaticano, das organizações internacionais, das empresas e dos governos, com relação à prática que deve ser feita.
O Papa abordou a questão da escravidão na recentíssima Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. “Sempre causou-me dor a situação daqueles que são objeto das diferentes formas de tráfico de pessoas. Gostaria que se escutasse o grito de Deus que pede a todos vós: “Onde está o seu irmão?” (Gn 4, 9) (EG 211).
O Papa, então, se pergunta: "Onde está o teu irmão escravo? Onde está o irmão que estás matando cada dia na pequena fábrica clandestina, na rede da prostituição, nas crianças usadas para a mendicidade, naquele que tem de trabalhar às escondidas porque não foi regularizado?" 
" Não nos façamos de distraídos!”, exorta o Papa Francisco, destacando que “há muita cumplicidade".
" Nas nossas cidades, está instalado este crime mafioso e aberrante, e muitos têm as mãos cheias de sangue devido a uma cómoda e muda cumplicidade", acrescentou o Papa.
Tradução Thácio Siqueira

Agora, não importa mais o tempo.



O que era necessário
 ser feito,  foi.

O que não foi alcançado
ficará para as gerações
vindouras.

Sempre se estará
por conquistar.

Perdoem o hiato histórico
esta transitoriedade,
diante dos grandes
processos estruturais.

Perdoem as ausências
diante das exigências
das grandes lutas.

Relevem o  papel
não escrito
que passou ao largo
Da História.

Desconsiderem!

É que a condição humana
exige uma entrega
compulsiva
descompassada
arrítmica,
ainda que eu creia
na possibilidade

Há um compasso...

Por enquanto
fica esta parte
dividida ao meio
onde todos
cantam e lamentam.

Melhor assim.

Antecipo conquistas
diante do desespero
dos grandes,
ainda que a árvore plantada
não tenha vingado,
os livros permaneçam
Não lidos,
 ocultos

Silvionê Chaves, amigo dos professores, alunos, e dos enfermos lança incrível livro em Sampa




Fiquei no passado.


Nada tenho com este mundo;
das conquistas me honro,
das derrotas, lamento.

Todas vindas do passado.

Se passo à frente
e abro horizontes,
é porque há esteio,
base construída.

Vejo a luta com a lupa,
 lembrando árduos momentos
de solidão total,
escuridão
que obscurece
bandeiras parciais,
atuais.

Como estrangeiro aculturado
canto cantos de melodias decifráveis,
 antigas
inflexível a formas e rítmoss
sem expressividade.

Presente de ausências,
passado digestivo.
como unir rompimentos
que não se entrelaçam?

Tento ser moderno, 
esforço-me por ser 
compreensivo,
busco superar
este rompimento
do tempo
em mim.

Encontro portas
que dão para o mesmo,
levam de volta.
enquanto aposto
em novidades.

Engano-me

Formatos é o que são.

Tentativas de superar
o eterno repetido
em subformas
aprendizes.

Quem sabe
Surja algo novo?

Quem sabe
Possamos renascer.

(JP)


AS PEDRINHAS DOS NOMES NOVOS

Um pequeno conto de Natal para os amigos do Pó das Estradas


Nos espaços abertos sob um viaduto da grande cidade, onde os abandonados se ajuntam em meio às folhas de jornais, que servem de coberta nas noites frias, viveu um menino.
Nunca se soube de seu nome verdadeiro, talvez José, ou João, nem se teve notícia de quem eram seus pais. Por isso os moradores de rua o apelidaram de Fininho, devido ao seu corpo franzino, e como é o costume de nomearem os colegas, que não gostam de ser identificados.
Tinha aparecido num destes dias de chuva, com tempestades e inundações, quando o índice pluviométrico excede em muito as quantidades de água previstas para o mês, e as pessoas são obrigadas a se proteger no primeiro lugar que encontram.
Como aquele viaduto estava próximo, protegia todo tipo de gente, embora os deixando apertados, por falta de espaço.  Do lado de fora, duas cachoeiras desciam em enxurradas pelas vias laterais, inundando as ruas adjacentes. O asfalto e o cimento rendiam-se à natureza, que reclamava por terra e árvores.
Foi assim que apareceu Fininho. Aparentava uns 12 anos de idade. Vestia uma camiseta rasgada e suja, calção e tênis velho. Trazia ainda alguns apetrechos em uma sacola que carregava consigo.
-Era um pivete-, diziam as pessoas.
Quando os relâmpagos passaram a ressoar em estrondos cada vez mais fortes, dando a impressão de atingir o primeiro que estivesse na frente, e a chuva formava uma cortina de água, Fininho surgiu.
Veio andando. Dava a impressão de não se importar com a tempestade, íntimo como a uma amiga. Nem lhe incomodava estar molhado, resfriar-se.
Era como se tivesse descido pelo raio. Não fosse seu jeito magro e sujo, e todos pensariam ser um milagre. Desvinculavam, portanto, um fato com o outro, tornando a surpresa algo normal.
Logo, estava ali aconchegado a um cantinho, de forma que ninguém se incomodou com sua presença.
Mas diziam, - Como pode um pai deixar o seu filho sair sozinho por aí, num dia de chuva como este?
 -Que pai mais desnaturado? Como pôde abandoná-lo, assim, no meio da rua, com tanta gente má? Em plena véspera de Natal?
-Será que Deus faria assim com um filho seu? - interrogavam-se.
Mas, aparentemente, Fininho não trazia expressão de raiva, ou tristeza; antes parecia achar natural estar ali, e acolhia bem quem se preocupasse consigo. Depois que a chuva parou, permaneceu.
Conheceu os moradores do local:  Pedro, um pequeno proprietário rural, que veio do Nordeste e acabou não voltando;  Marcos, mineiro, que foi arrancado da família pela “marvada” da pinga;  Luiz, um ex-caminhoneiro, e outros mais. Cada um tinha uma história muito interessante.
Foram pessoas importantes, como se diz, quando se referem a algum bom profissional nisto ou naquilo. Mas, por alguma razão, encontraram fortes problemas pela frente, e não resistiram, acabando por viver na rua.
Haviam perdido algo essencial em suas vidas: não acreditavam mais em si mesmos, em mais nada. Haviam perdido o interesse por tudo, e passavam o tempo se esgueirando pelos becos, maltrapilhos e desprezados pelas pessoas.
Em conseqüência, afastavam-se de todos, perdendo o pouco de auto-estima que ainda lhes sobrara.  Alguns mendigavam como se estivessem doentes, cegos ou paralíticos, ainda que não fossem assim, mas incorporavam.
Outros conseguiam resgatar uma rotina de sobrevivência que os mantinha em atividade. Catavam papelão ou latas de metal para vender em algum depósito, mas lhes pagavam uma ninharia por tanto esforço, que parecia uma tarefa inglória.  
Com bebidas e até drogas, buscavam vencer o frio da madrugada, viciando-se até ficarem caídos pelas calçadas.  Estes últimos eram os que estavam em situação mais lastimável. Os que passavam pelas calçadas sentiam repugnância ao cruzar com eles, devido ao estado de abandono em que se encontravam, com seu jeito cambaleante e o falar mole.
Não raro, abordavam os pedestres com tal ousadia que, para se livrarem do desconforto, davam esmola, para se verem livres. Faziam de propósito, pressionando através da repugnância. Demarcavam propositalmente uma distinção que a sociedade não quer admitir: os párias versus o mundo organizado.
Mas engraçado, Fininho não se importava com estas coisas, e os tratava como a mesma importância que a qualquer um que encontrasse. Por isso, logo foi aceito pela maioria, que o recebeu como a um amigo. De sua parte, também aceitou aqueles com quem queria conviver.
Era véspera de Natal. Fininho observava como as pessoas andavam apressadas pelas ruas, racionando os gastos para a festa da noite: presentes, alimentos, tudo para ter a família reunida. Carregavam vários pacotes, olhando para os lados com medo de serem assaltadas. Era um tempo de muita insegurança.
Em meio a tantas providências, não se apercebiam do mais importante: a própria comemoração do Natal, o nascimento de Jesus.
Este, como todo mundo sabe, ocorreu em um local simples, com o menino colocado sobre uma manjedoura, onde se alimenta o burrinho, a vaca.
Assim, parecia-lhe estranho tanta movimentação de compra, para lembrar-se de alguém, que nem tinha lugar para nascer. Se compreendessem a proposta de humildade que envolvia este acontecimento, estariam tão voltados aos bens materiais?
Percebeu também, que tanto seus amigos da rua quanto a pessoas que passavam apressadas tinham algo em comum: Não eram felizes. Havia um grande vazio.
Não conseguiam alterar seus esquemas e formas de fazer as coisas. Não rompiam com as estruturas que os prendiam. E teve pena, porque ocupavam-se com tantas coisas, mas esqueciam de ser simples e solidários. Era mesmo muito estranho.
Para não ser injusto, observou um pequeno brilho, quase imperceptível, estampado nos olhos daquela gente. Eles deixavam uma leve impressão de ter esperança. Algo difícil de dizer, ou explicar, mas estava lá, misturada entre a pressa e as estruturas, estampada nas expressões faciais.
Era um pequeno brilho nos olhos, um brilho diferente. E como se diz que “os olhos são a janela da alma”, havia algo de bom, de belo, para o lado de dentro daqueles olhares, que refletia assim.
Percebera que ainda havia uma solução.
Por isso decidiu participar ativamente daquela festa, apesar da dificuldade para reunir os convidados. Havia uma porta semi-aberta, por onde as pessoas poderiam refazer suas vidas.  
Propondo-se  arrumar presentes para os convidados, Fininho fez um pequeno saco com o pano e o barbante que guardara na sacola, e preparou-se para encontrar pedras, pequenas pedrinhas. Sua intenção era utilizá-las como presente.
Achá-las seria difícil, porque a cidade estava coberta de cimento e asfalto, nos prédios e grandes avenidas, existindo poucos lugares abertos, praças ou locais em obras, onde pudesse achá-las.
Como presente, uma pedra talvez tivesse pouco significado, um enfeite, um peso para fixar papéis, não havendo maior utilidade. Não estava claro o que pretendia com isto, o menino.
Seria uma forma de participar de um acontecimento ao qual ele não tinha nada a oferecer?  
- Cada pedrinha – considerou - tem a sua beleza própria, como cada indivíduo é único. O importante é adequarem-se.
–Assim, poderei entregar um presentinho bonito e próprio para cada um dos meus amigos
Era tarde do dia 24 de dezembro, as pessoas ainda corriam apressadas atrás de lembranças para convidados de última hora, e para completar os condimentos e enfeites natalinos.
Fininho saiu pelas ruas em busca de uma praça, uma obra onde pudesse encontrar seus presentes. Caminhou a distância de dois bairros até chegar ao centro. Lá encontrou um caminhão basculante virando uma caçamba cheia de pedras. Estavam terminando a preparação para o capeamento de asfalto de uma rua.
-Levanta mais a caçamba, que ainda tem pedra aí em cima, - gritava o ajudante ao motorista- porque eu moro longe, e ainda tenho que pegar o ônibus para chegar em casa. Vamos depressa!
Fininho parou e ficou observando até descarregarem toda carga. Tão logo saíram, dirigiu-se ao local, agachou-se, abriu seu saquinho, e iniciou uma coleta seletiva.
Cada pedrinha guardada era tratada como única. Parecia estar sendo garimpada. Nos cuidados que cercava cada escolha, esta deveria esculpida pela própria natureza, sem interferência de mão ou tecnologia humana. O tamanho poderia variar desde que não fosse pesada, para caber no seu saquinho, e até para carregar, por causa do peso. As cores também poderiam ser de todo tipo, nas suas mais variadas tonalidades.
Desta forma foi escolhendo umas e descartando outras. Procurava ser rápido, pois restava pouco tempo para voltar ao viaduto. Após escolher sete pedrinhas, partiu.
Pelo caminho fez a seguinte oração:
- Paizinho, todos estão muito ocupados em festejar o Natal, e não sabem o que significa a encarnação de Deus, ou talvez, não acreditam. Presenteiam-se uns aos outros reforçando seus elos de amizade. Isto é bom, mas infinitamente menor do que poderia ser. Gostaria de transformar esta festa, com Tua ajuda. Peço-Te que derrame sua Graça sobre cada uma destas pedrinhas, dando-lhes o poder de reviver os que forem recebê-las. Que possam tornar-se novos homens, e novas mulheres. Sabendo que o Senhor nunca falta aos meus pedidos, agradeço. Amém.
Fez a oração de uma vez confiantemente, pois considerava falta de fé as repetições. Apressou o passo, acreditando ter sido atendido na oração. Agora a responsabilidade de realizar o que pedira dependia mais de si.
A oração o manteve num estado de torpor durante o trajeto de retorno ao viaduto. Como se houvesse a sobreposição de dimensões, teve a sensação de que o tempo tivesse parado. As folhas das árvores bailavam num ritmo de harpas, assimilando a melodia do vento, as estrelas piscavam silenciosas, convidando à reflexão, uma paz celestial revestia a realidade do caminho tornando-o manso e suave.  
- Como Deus, tendo poder sobre tudo - meditava- pode depender deste seu pequenino. Que honra poder participar desta festa!
As ruas estavam vazias e os ônibus escasseavam. As portas das casas fechavam-se, e as famílias estavam reunidas. Uma contagem regressiva palpitava os corações, incompreendidos pela razão, que mantinha posturas.
Eram 23h30min. Como combinado, chegou a tempo de encontrar-se com os amigos no viaduto. Cada um trouxera algo para comemorar juntos: alimentos recolhidos durante o dia, um vinho, panettoni que receberam de pessoas caridosas, alguns doces. Tudo reunido sobre uma folha de um jornal.
Acenderam uma fogueira ao lado, para clarear o local, e sentaram-se ao redor. Permaneceram em silêncio. Não ousavam falar, aguardando quem dirigisse a palavra. A ansiedade inibia a oração.
A chuva se dissipara, e as primeiras estrelas apontavam no céu, escondidas entre as nuvens.
Fininho levantou-se e disse.
– Será possível Jesus estar junto do Pai neste instante, e continuar a ser um Deus bebê, como o vemos no presépio?
Após um instante, riram com a pergunta, pelo inusitado da questão, e iniciando a refeição, comentavam que sim, era perfeitamente possível Jesus ser para nós hoje um Deus Bebê.
Diziam isto, não por conhecimento teológico, mas por acreditarem que tudo é possível para Deus. É uma questão de fé.
-Que mensagem será que Ele nos passa, de dentro de uma manjedoura?- acrescentou.
Novo silêncio.
Bem – Pedro tomou a iniciativa - eu acho que deve ser semelhante ao nascimento de toda criança.
Como assim?
- Bem, quando nasce um bebê, os pais não depositam suas esperanças nele?
-Não deixam de pensar somente em si mesmos, e começam a fazer de tudo para aquela criança? – completou.
- Então?
- Então, com o nascimento de Jesus é a mesma coisa, quer dizer, toda a humanidade pára no Natal, para depositar suas esperanças neste bebê, que chegou.
- Muito bem Pedro – disse fininho.
 – Por você ter descoberto uma parte do segredo do Natal, eu te dou uma das pedrinhas que tenho - e revirando o fundo da sua sacola, pegou o saquinho de pedras, abriu, retirou uma pedrinha cinza, e entregou-a a Pedro.
- Esta pedrinha cinza, Pedro, representa a capacidade de abrir mão de si mesmo, em favor dos outros. Ela trará um pouco da dor que se tem ao abandonar os projetos pessoais para outro ser feliz. Dor que não dura muito, porque a alegria de servir é infinitamente maior. Morre apenas o egoísmo. Feliz Natal!
- Obrigado, Fininho – agradeceu Pedro, sem entender muito – eu acho que não fui de pensar muito nos outros, mas vou guardar esta pedrinha comigo.
Fininho completou.
- Pedra de Serviço, receba agora um coração voltado para o próximo.
Nunca mais Pedro teria aquela expressão fechada, resultado de tantas derrotas. O frescor da noite o convidava a renovar seu caminho, sendo a fronte aberta um convite para retomar a vida, porém em moldes novos.
Marcos, um mineiro de Montes Claros, a Princesinha do Norte, era outro morador do viaduto. O abandono de sua esposa levou-o a viciar-se em bebidas alcoólicas, deixando tudo para trás, e cair no mundo. Era difícil o dia que Marcos não se embebedava.
Quase não ganhava esmola, porque as pessoas desconfiavam que ele iria comprar pinga. Às vezes apagava, de tanto beber, dormindo quase todo o dia. Aí roubavam seus poucos pertences, quando não apanhava, ao ser roubado. Mantinha, entretanto uma atitude pacífica com todos, pois já conhecia as leis da sobrevivência nas ruas.
- Não quero me lembrar de tudo o que passei, Fininho – indagava. –Também não quero saber o que vou passar.
Fininho estremeceu com a falta de perspectiva de Marcos e disse.
– E você, Marcos, o que diz sobre a mensagem que vem da manjedoura?
- Não sei – parou para pensar – acho que um bebê tão pequenino não tem condições de ser Deus. Ele é muito frágil e dependente. Só se for isto que Ele queira dizer, isto é, que Ele precise de mim, para sobreviver, para crescer. Mas acho isso difícil, porque eu não sou nada, apenas um bêbado abandonado.
- Muito bem, Marcos. Por ter decifrado que Deus precisa mais de nós do que nós dele, eu vou te dar uma pedrinha.
 Fininho abriu seu saquinho, tirou uma pedrinha verde, e entregou-a a Marcos.
- Sabe – continuou - Deus precisa de você para morar em seu coração, sua mente. Precisa de você para ir pelo mundo, transformando-o. Lógico, Ele tem poder de fazer o que quiser, sem nenhum de nós. A questão é, que Ele deseja realizar a sua obra através de nós. Ele não é exclusivista. Os santos que o digam!
- A partir de hoje você se chamará Marco da Prontidão, porque a vida te ensinará a conhecer o que Deus quer de você. Você, Marco da Prontidão, ouvirá a voz dos anjos ao amanhecer, antes de acordar. E será enviado a grandes missões.
Marco recostou-se no muro do viaduto, e ficou admirando a pedrinha verde, sem entender a qualidade exaltada pelo menino. Em poucos minutos, dormiu.
Assim, Fininho foi perguntando, presenteando, e nomeando cada um dos moradores do viaduto.
Pedrinha azul para o Luiz, ex-caminhoneiro, chamado agora de Luz do Caminho, pois se lembrara das constantes fugas do Deus bebê, desde cedo perseguido.
Sentia-se também perseguido e discriminado sem motivo; solidário, portanto, com o Deus bebê, que também fugiu para que nada lhe acontecesse.
- Quem diria – disse - o Caminho também comporta fugas...
-Quando adulto, o Deus bebê não fugiu mais – respondeu Fininho - mas enfrentou seus perseguidores, pensando em você hoje. Compreende isto?
Luiz expressou dúvida, mas entendeu que aquela reflexão dizia para ele retomar um caminho verdadeiro, engatar uma quinta marcha, em vez de permanecer estacionado sob um viaduto.
Pedrinha branca para o João, chamado João da Paz.  Pedras de todas as cores e tipos, até acabarem-se. Foi uma noite singular. Cada um descreveu o Deus bebê de modo particular e rico.
Por fim, Fininho guardou seu saquinho na sacola, voltou-se para os convidados, e disse:
- Vocês não rejeitaram nenhuma das pedrinhas. Obrigado, por receberem com tanta abertura as pedrinhas dos nomes novos. Elas são simples, como Deus bebê quer que sejamos. Agora é possível reconstruir a vida numa dimensão nova, como nunca se viu antes. Onde as lágrimas não mais existirão, e a verdade, a alegria e a justiça sejam uma constante dos nossos dias. Deixem que esta noite produza esta grande novidade em seus corações. Deixem a Graça acontecer.
Dormiram imaginando ter sido tudo um sonho, em noite de paz celestial.
 Ao amanhecer, Fininho não estava mais lá. Havia partido.
O que acontecera, teria sido efeito da bebida? – Comentavam.
 - A aparição de um anjo de Deus? O próprio Deus jovem?  Guardaram com eles este mistério. Mas caminhavam diferentes, agora. Haviam percebido que eram especiais.
(JP)
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