terça-feira, 27 de maio de 2014
As 3 religiões
Os 7 bilhões de habitantes da Terra, de algum modo, se vinculam a uma das 3 religiões monoteístas
Por Edson Sampel
SãO PAULO, 26 de Maio de 2014 (Zenit.org) - A gente tem a tendência a pensar que existem milhares de religiões no mundo, sendo o cristianismo, o judaísmo e o islamismo apenas 3 entre tantas. Será verdade? Reflitamos um pouco.
Tomemos como exemplo o Brasil, uma nação de proporções continentais. Em nosso país, 98 por cento dos habitantes professam a religião cristã, quer no catolicismo, quer nas inúmeras denominações evangélicas. Ninguém negaria tal afirmativa, não é mesmo? E os outros compatriotas? Bem, uma minoria se reparte entre o espiritismo e as religiões animistas de matriz africana (umbanda, candomblé, quimbanda etc.) e outros grupos. Por ora, deixemos de lado os judeus, os muçulmanos e os budistas que, no Brasil, correspondem a uma pequeníssima parcela.
Pensemos, agora, em outro exemplo paradigmático: os Estados Unidos. Naquele país gigantesco, a maioria do povo igualmente pratica a religião cristã, também através do catolicismo e das comunidades evangélicas. É claro que em solo americano há mais judeus, muçulmanos e budistas que no Brasil.
Poderíamos, também, mostrar realidades similares na Europa. Por outro lado, na China, potência que possui mais de 1 bilhão de habitantes, boa parte da população está vinculada ao confucionismo. No Japão, muitos se dedicam ao budismo.
Não vamos falar de todos os continentes. O importante é perceber o óbvio: existem apenas 3 grandes religiões no planeta Terra: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. As outras “práticas religiosas”, digamos assim, não estão infensas à influência de uma dessas 3 religiões. Por exemplo, no Brasil, os espíritas gostam de afirmar que o espiritismo não é religião e, por conseguinte, se consideram cristãos. Os seguidores do candomblé e da umbanda – pouquíssimos – igualmente incorporaram símbolos cristãos aos seus cultos e liturgias.
O budismo, o confucionismo e o hinduísmo, exemplificativamente, constituem “manifestações religiosas” e existenciais bem elásticas, abertas. No budismo, não se fala de Deus propriamente. Vale dizer: qualquer indivíduo integrante de um desses grupos se converteria facilmente ao cristianismo ou ao islamismo, sem perder a cultura de raiz. Não coloco aqui o judaísmo, porque esta religião não possui uma visão proselitista. Nasce-se judeu!
Por que será que o governo comunista da China impede que padres e pastores ingressem em seu território para a pregação do evangelho, cominando penas pesadíssimas aos infratores? Ora, simplesmente porque os chineses facilmente se converteriam ao cristianismo, uma vez que a esmagadora maioria nem sequer tem uma religião. Esta mudança qualitativa não interessa a nenhuma política totalitária.
Moral da história. O cristianismo, o judaísmo e o islamismo são, de fato, as verdadeiras religiões. E são parentes! São João Paulo II dizia que os judeus são irmãos mais velhos dos cristãos. Os maometanos, primos surgidos no século VI da era cristã, portam elementos do cristianismo e veneram Maria santíssima.
O cristianismo, mormente na sua historicidade presente na Igreja católica há 2 mil anos, representa o cumprimento das promessas confiadas ao judaísmo. Malgrado, ao longo da história, tenha ocorrido uma hedionda animosidade entre os crentes das 3 religiões monoteístas, sobretudo com os fiéis do Islã, não se deve negar que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo captaram a essência divina e são religiões no sentido próprio, porquanto propiciam o religar (sentido da palavra “religião) do ser humano com Deus. Tal asserção é facilmente comprovada pelo chamado sensus fidei (percepção do crente), uma vez que considerável proporção dos 7 bilhões de habitantes da Terra, de alguma forma, se encontra ligada a uma dessas 3 religiões.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Presidente do PMDB-MG acusa PSDB de oferecer R$ 20 mi por aliança
Declaração foi feita durante reunião do diretório mineiro do partido
iG Minas Gerais | RAQUEL GODIM |
O deputado federal e presidente do PMDB em Minas, Antônio Andrade, acusou nesta segunda-feira (26) o PSDB de tentar comprar o apoio dos peemedebistas nas eleições para o governo do Estado, por R$ 20 milhões. Durante reunião do diretório estadual do partido, Andrade disse que o presidente dos tucanos em Minas, o deputado federal Marcus Pestana, o teria oferecido o montante, além da vaga na briga pelo Senado. Os R$ 20 milhões, segundo ele, seriam usados na campanha de candidatos do PMDB à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa.
Após a reunião, em coletiva de imprensa, Andrade não reafirmou o nome de Pestana, mas confirmou a oferta feita por um “porta-voz” do PSDB. “Eu disse para eles que eu tenho que ajudar nossa bancada, que estou atrás de R$ 20 milhões e eles disseram 'isso não é problema nenhum. Nós conseguimos os R$ 20 milhões para a ajudar os pré-candidatos a deputado'”, afirmou Andrade. Em relação à disputa ao Senado, o presidente do PMDB afirmou que, em caso de acordo, ele seria o candidato da aliança, e não o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB).
Procurado pela reportagem, o presidente do PSDB afirmou que a acusação de Andrade é uma “insanidade”. “Eu não tive nenhuma conversa com ele. Isso é um delírio, uma irresponsabilidade, uma calúnia. Se ele disse que eu falei isso, é um mentiroso. Nunca estive reunido com ele, até porque, sei da posição dele”, disse. “Isso mostra a insegurança e o padrão que a campanha adversária está adotando”, completou. Segundo Pestana, o PSDB estava aguardando uma sinalização de “abertura de diálogo” dos peemedebistas para voltar a discutir uma possível aliança na briga pelo Palácio Tiradentes. O deputado afirmou, ainda, que irá considerar entrar na Justiça contra Andrade.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
A importância política da verdadeira noção de liberdade.
Criar um país de libertários não instaura uma sociedade de pessoas livres, se a liberdade não é mais do que a possibilidade irresponsável de cada um fazer o que quer.
Por Paulo Vasconcelos Jacobina
BRASíLIA, 23 de Maio de 2014 (Zenit.org) - Há um desânimo cidadão em curso no país. Muita gente está sentindo fortemente a impressão de que não há mais sonhos a serem sonhados em comum, porque todas as utopias que nos são apresentadas são, na verdade,“distopias”, ou seja, utopias ao contrário, pesadelos de um futuro que não parece valer a pena viver.
Isto ocorre quando os projetos políticos que são apresentados aos cidadãos, mesmo quando aparentemente decorrentes de um sincero desejo de mudanças e avanços, estão fundamentados em noções equivocadas, falsas mesmo. Falo especificamente da noção de “liberdade” que se coloca como fundamento para a construção dos sonhos políticos do povo brasileiro.
Há duas maneiras básicas de encarar o precioso dom da liberdade, uma falsa e uma verdadeira. Estas concepções têm uma influência fundamental na conformação política da sociedade. São elas:
1) A maneira falsa, na qual a liberdade se relaciona pura e simplesmente com uma vontade ilimitada e incondicionada, e que portanto mais livre é aquele que pode exercer incondicionalmente sua vontade para escolher indiferentemente todas as alternativas que se lhe apresentam num determinado momento. Mais livre, para os que pensam assim, é aquele que tem mais alternativas à sua disposição a cada momento. Por isto, para os que pensam assim, nem sequer o fato de ter escolhido alguma coisa pode vir a limitar o direito irrestrito de escolher de novo, e de novo e a cada vez.
Para os que entendem assim a liberdade, o compromisso é a antítese da liberdade. Vale dizer, tão mais livre é um ser humano quanto mais ele não precise nem explicar as razões de uma determinada escolha, nem tampouco enfrentar nenhuma consequência por ter escolhido algo, em especial a consequência de comprometer-se com os resultados da sua escolha e com as renúncias das alternativas.
Aqui, a relação com o outro, que é inevitavelmente atingido por qualquer escolha humana, é sempre vista como um limite, um estorvo para que se alcance a liberdade plena. Porque cada vez que alguém percebe que sua capacidade de escolher se limita, de qualquer modo, pela liberdade do outro, percebe imediatamente o outro como um opressor, alguém que, caso fosse eliminado ou subjugado, tornaria a minha própria liberdade mais ampla.
2) A outra noção, a única verdadeira e sadia, é a de que a liberdade se relaciona essencialmente com a capacidade de discernir, dentre todos os fins propostos ao ser humano, aquele que vale a pena eleger e, elegendo-o, ser capaz de enfrentar todas as consequências de sua escolha a fim de alcançar o resultado escolhido, aceitando inclusive a renúncia das alternativas em nome da possibilidade de construir o fim pretendido. Mais livre, portanto, é aquele que é capaz de começar e terminar o que escolheu, sem ser a cada momento desviado para um novo começo que o faça abandonar tudo, como um Sísifo adolescente, para começar tudo de novo, deixando para outros o dever de arcar com as consequências daquilo que começou e não terminou.
Aqui, neste segundo modelo, a liberdade relaciona-se com a razão, com a possibilidade de enxergar fins e valorá-los, de escolher os meios adequados para alcançá-los e, principalmente, de renunciar a alternativas atraentes e desviantes e de arcar completamente com as consequências do que escolheu, mesmo quando venha a discernir que fez uma escolha mal feita e precisa recomeçar. Mas recomeça sabendo sempre do preço a pagar. Para este segundo modelo de liberdade, tão mais livre é uma pessoa quanto mais seja capaz de discernir adequadamente os fins de suas ações e escolher os meios adequados, renunciando a tudo que atrapalhe a conquista do fim pretendido e assumindo pessoalmente as responsabilidades pelas inevitáveis consequências, boas e ruins, que advêm de qualquer escolha – sabendo que todo caminho concentra inevitavelmente vantagens e desvantagens, que devem ser suportadas –e colhidas –por aquele que livremente escolheu caminhar determinado caminho.
Neste modelo, o outro é exatamente a condição da liberdade. Uma vez que se pode discernir fins e estabelecer responsabilidades pelos meios, caminhar junto é sempre poder atingir mais facilmente os fins propostos e dividir mais justamente tanto as dificuldades quanto as vitórias do caminho. Não é difícil perceber que o conceito de “liberdade” descrito no item 01 acima é aquele que se infiltrou profundamente na nossa cultura contemporânea: o conceito voluntarista e libertário, no qual a responsabilidade não é uma consequência, mas uma opressão, um limite à liberdade. E que o outro, aquele que cobra a responsabilidade, é, para estes, um opressor. Há uma pulverização da política em grupelhos alinhados com seus interesses estritamente individuais, que se tornam bandeiras libertárias contra uma maioria silenciosa que busca viver sua vida sob a égide da noção de liberdade descrita no item 02 supra. Esta "liberdade" do item 01 é a que tem movido grupos que consideram condutas como depredações, ocupações e destruição de patrimônio público e privado, pichações, fechamento de vias e agressão física à autoridade pública, a permissividade sexual e a desconstrução do modelo natural de "família", como meios justos e legítimos ao seu intento de "avançar o país" até eliminar os "entraves opressivos" da responsabilidade pressuposta no modelo verdadeiro de liberdade, descrita acima no item 02.
De fato, no entanto, nunca se gozou de tanta permissividade social e sexual. Nunca se tratou com mais tolerância a dissolução das famílias, o uso indiscriminado de drogas, a sexualidade fugaz e descomprometida, a desconstrução de quaisquer modelos de estabilidade e confiança comportamental, a substituição da formação educacional e profissional pela doutrinação ideológica e sexual, como pela ideologia do gênero e a promoção da pansexualidade.
E nem por isto as pessoas estão mais felizes. Ao contrário, sentem-se cada vez mais inseguras e ansiosas, e, se as mais pobres se desesperam pela perda total da perspectiva de ter um lar estruturado, serviços públicos minimamente razoáveis e um trabalho decente para viver e sustentar seus filhos, os mais ricos já não têm pudor de, após ter adotado o discurso libertário para consumo interno, declarar em seus círculos mais íntimos que seu sonho mais secreto é sair do país com a prole para morar e educá-los no exterior. Querem mudar-se para os países que levam a sério a visão de liberdade expressada no número “2” supra.
Todos estes conterrâneos, ricos e pobres, têm a intuição de que a liberdade voluntarista é uma liberdade que não leva a lugar nenhum, senão à impossibilidade de realização humana verdadeira. Criar um país de libertários não instaura uma sociedade de pessoas livres, se a liberdade não é mais do que a possibilidade irresponsável de cada um fazer o que quer. Esta é uma liberdade de escravos, porque não faz caminhar. Ao contrário, paralisa.
Manlio Dinucci: Contra-ofensiva russa na Frente Oriental
23 de maio de 2014 - 16h04
Em Xangai, está tudo pronto para sediar o quarto encontro da CICA [Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia – Conference on Interaction and Confidence Building Measures in Asia – NT].
Enquanto a OTAN está reunindo, em 21-22 de maio em Bruxelas, os 28 ministros da defesa para atualizar suas forças com um objetivo anti-russo, e está a intensificar o treinamento militar e paramilitar em Kiev (incluindo as gangs que tentaram assassinar o Secretário do Partido Comunista Ucraniano), e enquanto a União Europeia tem a Rússia como alvo de novas sanções, a resposta não vem de Moscou, mas da distante Pequim.
O Presidente Putin começou hoje sua visita estatal à China, a qual vai ver a assinatura de trinta acordos bilaterais com o efeito direto de mutilar o plano de Washington de "isolar a Rússia do Presidente Vladimir V. Putin cortando seus laços econômicos e políticos para o mundo exterior".
O escopo dos acordos é estratégico. Um contrato no valor de US $ 270 bilhões, entre a companhia estatal de petroleo da Rússia Rosneft e a Companhia Nacional de Petroleo da China, prevê que a Rússia irá fornecer à China nos próximos 25 anos mais de 700 milhões de toneladas de petróleo. Outro contrato prevê que, até 2018, a companhia estatal russa Gazprom irá fornecer pelo menos 38 bilhões de metros cúbicos por ano de gás à China, isto é, cêrca de um quarto do montante que agora exporta para a Europa. Interligando com investimentos chinêses previstos de US $ 20 bilhões, Moscou pretende agilizar o gasoduto entre a Sibéria Oriental e o Pacífico, acoplando-o a um duto de 4000 km para abastecer a China.
Por seu turno, Pequim está interessada em fazer investimentos também na Crimeia, em especial na produção e exportação de gás natural liquefeito, na modernização da agricultura e na construção de um terminal de grãos. Ao mesmo tempo, Moscou e Pequim estão pensando em abandonar o dólar como moeda para o comércio na região asiática. E a Rússia está pronta para lançar seu próprio sistema de pagamento, adotando o modelo UnionPay da China, incluindo cartões de crédito que podem ser usados em mais de 140 países, ocupando a segunda posição no mundo depois do Visa.
A cooperação russo-chinêsa não está limitada à esfera econômica. Os Presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping, segundo fontes diplomáticas, devem fazer uma "declaração substancial" sobre a situação internacional. A convergência de interesses estratégicos será demonstrada pelos exercícios militares conjuntos que os dois países estão prestes a realizar no Mar da China Meridional, na esteira das manobras navais realizadas pelos Estados Unidos nas Filipinas. E um acordo militar está praticamente garantido, segundo o qual Moscou irá fornecer a Pequim caças Sukhoi Su-35 de multi-função; submarinos da classe Lada, e os mais avançados sistemas de defesa de mísseis, o S-400.
JPEG - 20.5 kb
A Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia (Cica) foi fundada por iniciativa do Cazaquistão em 2006 e seu secretariado permanente baseia-se em Almaty. A Presidência rotativa será entregue pela Turquia à China na abertura do próximo encontro em Xangai em 21 e 22 de maio de 2014.
Para sublinhar a comunalidade de interesses entre Moscou e Pequim, Putin participará da Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia (Cica), presidida por Xi Jinping, sendo realizado em Xangai em 21 e 22 de maio, com a participação do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki, do presidente afegão Hamid Karzai e do seu homólogo iraniano Hassan Rouhani. Um tapa na cara dos Estados Unidos, que – depois de ter gasto 6 triilhões de dólares nas guerras no Iraque e no Afeganistão - agora vê a China aumentando sua presença econômica nestes dois países. No Iraque, ela compra cerca de metade da produção de petróleo bruto e faz grandes investimentos na indústria petrolífera; no Afeganistão, ela investe principalmente no setor de mineração, depois que os geólogos do Pentágono descobriram ricas jazidas de lítio, cobalto, ouro e outros metais. Ao abrir oportunidades para o Irã no Oriente, a Rússia e a China estão cortando o tendão do embargo decretado pelos EUA e pela UE.
As coisas não estão melhores para Washington na Frente Ocidental. A possibilidade com que a Administração Obama está brincando de reduzir em mais de 25%, nesta década, o gás russo para a Europa, e de substituí-lo com gás natural fornecido pelos Estados Unidos, está a revelar-se como sendo um blefe. A confirmação disso é o fato de que, apesar das sanções anunciadas por Berlim, empresas alemãs continuam a investir na indústria de energia da Rússia: a RMA Equipamento de Dutos, fabricante de válvulas de encanamento de óleo e gás, está agora abrindo sua maior fábrica na região do Volga. E a Gazprom já assinou todos os contratos, incluindo um de € 2 bilhões com a empresa italiana Saipem (Eni) para a realização do gasoduto South Stream [Canal do Sul – NT], que passando pela Ucrânia trará o gás russo através do Mar Negro até a Bulgária e de lá para a UE. Mesmo se os Estados Unidos fossem capazes de bloquear o South Stream, a Rússia poderia desviar o gás para a China.
O "Canal do Leste" [East Strem] está agora aberto.
* Geógrafo e geopolítico. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010 ; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.
Fonte: Il Manifesto. Tradução de Marisa Choguill para o Rede Voltaire
A tática dos Estados Unidos de isolar economicamente a Rússia para impedir que venha em auxílio da população ucraniana teve um efeito oposto ao pretendido: está empurrando Moscou para o braços de Pequim; assim, a longo prazo, o bloco Europeu Oriental-Asiático, que está ganhando vapor, irá superar o poder dos países ocidentais.
Por Manlio Dinucci, no jornal Il Manifesto
Em Xangai, está tudo pronto para sediar o quarto encontro da CICA [Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia – Conference on Interaction and Confidence Building Measures in Asia – NT].
Enquanto a OTAN está reunindo, em 21-22 de maio em Bruxelas, os 28 ministros da defesa para atualizar suas forças com um objetivo anti-russo, e está a intensificar o treinamento militar e paramilitar em Kiev (incluindo as gangs que tentaram assassinar o Secretário do Partido Comunista Ucraniano), e enquanto a União Europeia tem a Rússia como alvo de novas sanções, a resposta não vem de Moscou, mas da distante Pequim.
O Presidente Putin começou hoje sua visita estatal à China, a qual vai ver a assinatura de trinta acordos bilaterais com o efeito direto de mutilar o plano de Washington de "isolar a Rússia do Presidente Vladimir V. Putin cortando seus laços econômicos e políticos para o mundo exterior".
O escopo dos acordos é estratégico. Um contrato no valor de US $ 270 bilhões, entre a companhia estatal de petroleo da Rússia Rosneft e a Companhia Nacional de Petroleo da China, prevê que a Rússia irá fornecer à China nos próximos 25 anos mais de 700 milhões de toneladas de petróleo. Outro contrato prevê que, até 2018, a companhia estatal russa Gazprom irá fornecer pelo menos 38 bilhões de metros cúbicos por ano de gás à China, isto é, cêrca de um quarto do montante que agora exporta para a Europa. Interligando com investimentos chinêses previstos de US $ 20 bilhões, Moscou pretende agilizar o gasoduto entre a Sibéria Oriental e o Pacífico, acoplando-o a um duto de 4000 km para abastecer a China.
Por seu turno, Pequim está interessada em fazer investimentos também na Crimeia, em especial na produção e exportação de gás natural liquefeito, na modernização da agricultura e na construção de um terminal de grãos. Ao mesmo tempo, Moscou e Pequim estão pensando em abandonar o dólar como moeda para o comércio na região asiática. E a Rússia está pronta para lançar seu próprio sistema de pagamento, adotando o modelo UnionPay da China, incluindo cartões de crédito que podem ser usados em mais de 140 países, ocupando a segunda posição no mundo depois do Visa.
A cooperação russo-chinêsa não está limitada à esfera econômica. Os Presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping, segundo fontes diplomáticas, devem fazer uma "declaração substancial" sobre a situação internacional. A convergência de interesses estratégicos será demonstrada pelos exercícios militares conjuntos que os dois países estão prestes a realizar no Mar da China Meridional, na esteira das manobras navais realizadas pelos Estados Unidos nas Filipinas. E um acordo militar está praticamente garantido, segundo o qual Moscou irá fornecer a Pequim caças Sukhoi Su-35 de multi-função; submarinos da classe Lada, e os mais avançados sistemas de defesa de mísseis, o S-400.
JPEG - 20.5 kb
A Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia (Cica) foi fundada por iniciativa do Cazaquistão em 2006 e seu secretariado permanente baseia-se em Almaty. A Presidência rotativa será entregue pela Turquia à China na abertura do próximo encontro em Xangai em 21 e 22 de maio de 2014.
Para sublinhar a comunalidade de interesses entre Moscou e Pequim, Putin participará da Conferência sobre Interação e Medidas de Fortalecimento da Confiança na Ásia (Cica), presidida por Xi Jinping, sendo realizado em Xangai em 21 e 22 de maio, com a participação do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki, do presidente afegão Hamid Karzai e do seu homólogo iraniano Hassan Rouhani. Um tapa na cara dos Estados Unidos, que – depois de ter gasto 6 triilhões de dólares nas guerras no Iraque e no Afeganistão - agora vê a China aumentando sua presença econômica nestes dois países. No Iraque, ela compra cerca de metade da produção de petróleo bruto e faz grandes investimentos na indústria petrolífera; no Afeganistão, ela investe principalmente no setor de mineração, depois que os geólogos do Pentágono descobriram ricas jazidas de lítio, cobalto, ouro e outros metais. Ao abrir oportunidades para o Irã no Oriente, a Rússia e a China estão cortando o tendão do embargo decretado pelos EUA e pela UE.
As coisas não estão melhores para Washington na Frente Ocidental. A possibilidade com que a Administração Obama está brincando de reduzir em mais de 25%, nesta década, o gás russo para a Europa, e de substituí-lo com gás natural fornecido pelos Estados Unidos, está a revelar-se como sendo um blefe. A confirmação disso é o fato de que, apesar das sanções anunciadas por Berlim, empresas alemãs continuam a investir na indústria de energia da Rússia: a RMA Equipamento de Dutos, fabricante de válvulas de encanamento de óleo e gás, está agora abrindo sua maior fábrica na região do Volga. E a Gazprom já assinou todos os contratos, incluindo um de € 2 bilhões com a empresa italiana Saipem (Eni) para a realização do gasoduto South Stream [Canal do Sul – NT], que passando pela Ucrânia trará o gás russo através do Mar Negro até a Bulgária e de lá para a UE. Mesmo se os Estados Unidos fossem capazes de bloquear o South Stream, a Rússia poderia desviar o gás para a China.
O "Canal do Leste" [East Strem] está agora aberto.
* Geógrafo e geopolítico. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010 ; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.
Fonte: Il Manifesto. Tradução de Marisa Choguill para o Rede Voltaire
Comissão de Justiça da CNBB solta nota oficial sobre o mensalão
qui, 22/05/2014 - 20:43 - Atualizado em 22/05/2014 - 20:43
Jornal GGN - A Comissão Brasileira Justiça e Paz, organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, soltou nota sobre a execução da Ação Penal 470, o mensalão. Segundo a nota, as decisões neste caso ˜têm suscitado críticas e preocupações na sociedade civil em geral e na comunidade jurídica em particular˜, e estas reações pedem um debate sobre as ˜situações precárias, desumanas e profundamente injustas do sistema prisional brasileiro˜.
A nota evidencia os problemas levantados pela Pastoral Carcerária, por decisões judiciais que levam a "condenações sem provas" e "negam a letra da lei" com "interpretações jurídicas absurdas", o que foi notado no julgamento do mensalão.
A Comissão repudia o conteúdo dessas decisões e clama pela independência do Poder Judiciário, pois que só assim dará a segurança jurídica em sua plenitude, com amplo direito de defesa e a isenção absoluta na apreciação de provas.
Por fim, a CBJP diz-se convicta de que as instituições não podem ser "dependentes de virtudes ou temperamentos individuais". E ainda, de modo contundente, afirma não ser lícito que atos políticos, administrativos e jurídicos insuflem a sociedade ao justiçamento e à vingança. E pede um diálogo transparente sobre a necessidade de reforma do Judiciário e o saneamento de todo o sistema prisional brasileiro.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
A Líbia de novo no cenário internacional
Lejeune Mirhan *
Desde a derrubada de Muammar Khadaffi em 2011, apoiado por rebeldes e terroristas que assolam todo o mundo árabe e com bombardeio das forças da OTAN, seus grandes aliados, a Líbia quase estava fora do noticiário internacional. Voltou quando um embaixador estadunidense foi morto em Benghazi. O Estado líbio foi praticamente destruído. O espírito tribal volta à cena e o exército se desfaz. Agora, surge um general que pretende alterar a estrutura de coisas. É tema de nossa coluna esta semana.
Ele atende pelo nome de Khalifah Haftar. Foi general do antigo exército do Estado líbio com Khadaffi. Havia se exilado ao romper com o coronel e líder do país por décadas. Biografias disponíveis dizem que ele até teria sido treinado na Rússia. Mas, o certo é que estava exilado e morando nos Estados Unidos.
Pois bem. Para surpresa de muitos e com pouca ou quase nenhuma cobertura da mídia internacional, eis que ele surge se autodenominando comandante do Exército Nacional Líbio, coisa inexistente. Um ajuntamento de soldados recrutados em tribos simpatizantes do general, em especial a da família Khadaffi.
No último domingo, dia 18 de maio, tomam de assalto a principal rede de TV da Líbia, fecham o parlamento e anunciam que combaterão até o fim os fundamentalistas islâmicos vinculados à rede terrorista Al Qaeda e a Irmandade Muçulmana, que inclusive, tinha maioria no parlamento. Ele foi apoiado por um coronel de nome Mokhtar Fernana. Suas bases mais fortes são na capital Trípoli e na segunda maior cidade Benghazi. Ainda nesta semana o ministro do Interior do governo anunciou seu apoio à Khalifah e diversas outras autoridades.
O general Khalifah anuncia a sua operação e lhe dá o nome de Karama (Dignidade em árabe). Diz que lutará contra a islamização do país, defenderá a laicidade e se coloca contrário que sejam aplicadas as leis da Sharia, regras do direito islâmico.
As eleições gerais no país estavam marcadas para agosto e a comissão eleitoral nacional anunciou nesta semana a antecipação para 25 de junho. Não sabemos se em consonância com o novo líder líbio.
As informações ainda são esparsas e não temos ainda condições de formar uma opinião. Em especial porque estamos acostumados a tecer análises com base na realidade de nosso país, que tem partidos estruturados e sabemos bem a diferença entre esquerda e direita.
O que fica claro é que na Líbia hoje temos dois grandes blocos. Um, da Irmandade e de sunitas fundamentalistas, muito vinculados ao terrorismo que usam o Islã como sua arma principal e outro bloco os que defendem a laicidade do Estado líbio.
A ideologia do primeiro bloco é amplamente conhecida. Vimos sua ação na Síria que resultou na destruição de grande parte da infraestrutura do país e a morte de mais de cem mil pessoas. Mesmo no Egito, esse agrupamento praticou atos terroristas e massacrou o povo. Quem não é muçulmano tem que pagar caro por isso. É a volta à Idade Média.
O que não está claro é como pensam os que integram o segundo bloco sob a liderança do general Khalifah. Muitas perguntas não estão respondidas, em especial se ele tem apoio dos Estado Unidos ou manterá a independência do país, que vive sob cerco das tropas da OTAN.
A história do general Khalifah
Khalifah tem hoje 65 anos. Era cadete do exército quando, em 1969, os coronéis liderados por Khadaffi derrubaram o rei Idris e implantaram a República. Ele apoiou esse movimento e se aproximou do novo líder do país. Chegou a ser chefe da guarda militar pessoal do presidente Khadaffi.
Entre 1978 e 1987, lutou clandestinamente no vizinho Chade, mas sob ordens de Khadaffi. Ao final, foi derrotado e ele e mais 300 soldados foram feitos prisioneiros. Khadaffi viveu uma imensa contradição. Ele não poderia reconhecer que tinha soldados lutando no país vizinho. Assim, optou por negar tudo e disse sequer conhecer o então tenente-coronel Khalifah. O atual general sofreu muito nas cadeias do Chade, tempo que aumentou seu ódio pelo líder líbio. Prometeu vingança. Chegou a fazer acordos com o governo do Chade, foi libertado sob a condição de formar uma milícia, que chamou de Exército Nacional Líbio.
Morou exilado nos Estados Unidos, no Estado da Virgínia, exatamente na cidade de Langley, onde fica o Quartel General da CIA. Há fortes suspeitas de que foi treinado por essa organização de espionagem, pois os EUA queriam, há muito, tirar Khadaffi do poder. No entanto, nos últimos anos da vida de Khadaffi ele acabou fazendo acordos com os EUA e a União Europeia, chegando a indenizar as famílias vítimas do atentado do Boeing da Lokerbee que caiu na Inglaterra e matou quase 500 pessoas. Aplicou a política neoliberal, negando praticamente o seu passado.
O general Khalifah retornou à Benghazi já no levante insuflado pela Europa e EUA, com apoio da OTAN, que visava derrotar Khadaffi. Isso foi no primeiro semestre de 2011. Chegou com a sua milícia e para organizar os rebeldes pela derrubada do presidente.
De lá para cá foi promovido à patente de general e lidera tropas. Muitos o consideram um militar muito preparado, profissional e com muita experiência em batalhas. O braço político de sua organização militar que ele lidera chama-se Frente de Salvação Nacional. Ele expressa profunda divergência com os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana, apoiada pelos EUA e pelos terroristas da Al Qaeda. Refere-se a eles como “grupos extremistas” e “flagelo terrorista”.
Nos últimos dias passou a ter o apoio do chefe do Estado Maior da Força Aerea, coronel Joma Al Abani. Diversos ministros do atual governo, de maioria conservadora, sunita e vinculado à Irmandade.
Perspectivas para a Líbia
Não se pode prever o desfecho dos acontecimentos. O que sabemos ao certo é que a Líbia é na verdade um agrupamento de grandes tribos espalhadas pelas várias regiões. O general é apoiado pelas maiores e mesmo a da família de Khadaffi. Não temos notícias ainda da extensão do seu apoio tanto na população, quanto na estrutura do Estado líbio, praticamente destruída com apoio da OTAN, como fizeram no Iraque e tentam fazer agora na Síria. Se não podem derrubar o líder, destroem o país por completo.
Aqui, mesmo sem saber em detalhes a ideologia do general, seu plano de salvação nacional da Líbia, quero arriscar alguns palpites.
Como disse acima, temos dois grandes blocos no país, ainda sem uma nítida divisão e clareza ideológica. No entanto, do lado defendido pelo general está a laicidade do Estado, dos valores seculares e contra a islamização do país. Não sabemos as suas concepções de democracia. No entanto, o outro campo é fundamentalista. É apoiado pela Irmandade e pelo grupo terrorista Al Qaeda que tantos males e ataques vem causando em vários países do mundo.
O campo do fundamentalismo defende a volta à Idade Média, a um Islã do século VII, da época do profeta Maomé. Defende a implantação de um estado islâmico. O sistema judicial que propõem baseia-se na Sharia, conjunto de normas islâmicas do direito que tem como base única e exclusivamente o Alcorão. Defendem a imposição do véu para todas as mulheres. Mas mais do que isso, defendem imensas restrições aos direitos das mulheres, como na Arábia Saudita e outros lugares que dominam.
Até por isso, podemos ter opinião inicial de que é preciso, de fato, combater o terrorismo e o extremismo. É claro que não devemos seguir a linha do “inimigo de meu inimigo é sempre meu amigo”. A vida vai mostrar, em breve, talvez em dias, a que veio esse general.
Parte da imprensa internacional que pude ler chegam a aponta-lo como uma espécie de general Sisi, que é o comandante do exército egípcio e forte candidato nas eleições deste final de semana e deve vencê-las. Vamos ver. Breve saberemos.
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