quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

DOCE ADORMECER

 


Dorme pequena, 

assim também 

dormem suas dores 

tão despertas.


Surpreendem-te 

as marcas do tempo 

em teu corpo...


Fostes gazela solta 

em campos de girassois,  

voltados a ti, 

tua luminosidade.


O vento enamorava-se 

de teus cabelos, 

desejoso de encarnar-se, 

despedida etérea.


Teus passos 

paralisavam ambientes 

ritmos inconscientes.


Fostes meu princípio, 

gerado em ti, 

desconhecido de mim, 

até então. 


Fostes meu tudo, 

quando percorria ermo 

as pegadas do destino, 

circulares.


Hoje somos fusão, 

próximos de nós, 

esperanças realizadas.


A verdade 

encravada na vida 

a faz dormir, pequena, 

junto às dores. 


Desperta!

Enciumam-me teus sonhos, 

banido noturno de ti.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

ANÔNIMO

  


Levo recordações 

entremeadas de amor, 

deixadas ao longo 

da estrada.


Fingem-se de presença, 

deitadas no tempo.


São beijos em suspensão, 

fugas sorrateiras, 

descobertas de verdades 

enterradas nas perseguições.


Tanta vida 

tornou tudo 

morte 

depois


Alimento o presente

com a força construída 

das orquídeas brancas 

não murcham, 

resistem


Resguardo o espaço 

da herança erigida 

na história anônima, 

sem exaltação, 

sem poder...


Conserva uma consumação,

sangue  branco da paz

domingo, 30 de novembro de 2025

DISPERSO

 


Meus versos estão feridos 

não se expandem, 

sangram


Questionam os corações vazios

a calmaria dos varais, 

as marés eternas...


Buscam lugares distantes, 

longe da morte,

arrependem-se das palavras...


Querem  dividir espólios,  

guardam suas partes, 

disputam...


Ardem pelo caminho

trânsito em transe, 

lêem...


Estão aí dispersos 

em simbolos, 

mal associam...


Sonham por algo, 

sem saber o quê, 

persistem...

terça-feira, 25 de novembro de 2025

FINAL DE NOITE

 

Como temos

sobrevivido

meu amor...

um mundo
que não nos entende,
nos leva em mar
tempestuoso,
jogando o barco
de um lado ao outro.
Queria a mansidão
dos jardins dispersos
fora dos trajetos,
e só encontro
o tempo comprimido.
Sobrou o fim da noite
para nosso silêncio.
Sobrou a sobra,
quase nada para nós.
Sobraram sonhos perdidos
no desencontro diário.
Ainda assim
sobrevivemos
nas confidências
guardadas
no outro lado
dos montes
onde o Sol
descansa
extenuado
do homem
e da mulher.
Peço
não se perca
este pouco
que ainda resta
no pouco
que somos
do pouco
que temos.
Somos assim,
acamados
noturnos,
assim seguiremos...

domingo, 23 de novembro de 2025

LIMITES

 


Vivo de limites...


Estão por aí, 

em quase todos 

os lugares.


A eles me submeto, 

me adapto,  

confronto... 

a outros rejeito, 

e por fim, 

outros ainda estabeleço.

partes fundantes da vida.


Com os limites 

mantenho uma relação 

de paz e guerra.


De paz...

se andam de acordo 

como vejo e ajo; 

de guerra...

quando me obrigam  

a contragosto, 

guardar-me 

do que digo e faço. 


Grande parte destes limites 

não estão explícitos, 

fazem parte 

do subentendido, 

vigiando no silêncio. 


As palavras batem-se, 

constantemente, 

a contragosto, 

nos muros da convivência, 

diferentes olhares, 

até definirem 

o que deve ser dito, 

e o que deve calar-se.


Talvez o primeiro choro 

tenha passado por fora...

talvez o amor desconheça regras

é porque é...

por isto perseguido 


Se olho atento, 

percebo-me um prisioneiro 

social e individual, 

um catálogo 

com nome e registro.


Ai os horários 

que lembram 

nossos tempos 

todos delimitados.


Agora tenho 

que por um fim, 

um limite, 

e chega!

sábado, 22 de novembro de 2025

ALMA MINHA

 


Desperta-me, minha irmã, 

segure o tempo um pouco mais, 

enquanto pesquisamos 

conchinhas coloridas 

deixadas nas areias úmidas da praia. 


Percorramos este vasto campo 

onde se esvai o caminhar 

entre as margaridas, 

enamoradas da relva homogênea, 

destacam-nas...


Lembra-te? desaparecemos nelas...


Alça-me além 

dos escombros inevitáveis 

nestes teus beijos líquidos, 

pesquisam linguas extintas, 

adiam meu féretro. 


Querida irmã,  alma minha!


Tu és a marca 

formada em meu rosto, 

fotografia em que me revelo 

inteiramente em ti, 

passos de meus tropeços, 

tão constantes

imagem que me distrai, 

despenca no caminho. 


Leva-me junto a ti, 

incapaz de ti, 

carente de ti.


Amada irmã, 

enciuma-me o beijo 

matinal do Sol,  

o banho noturno 

de afagos 

da Lua...

te acompanham 

em minhas ausências, 

velho e pequeno


Lembra-te de como 

percorremos em silêncio 

as grandes distâncias 

dos ocasos, 

tudo se encaixava 

como azulejos azuis, 


 Tudo era possível!


Onde tocávamos 

encontrávamos vida, 

mesmo nas pedras, 

impecáveis 

disformes...


Agora a hora se despede...

mostra-me então a noite, 

sigamos este pouco juntos, 

sonâmbulos do amanhã, 

olhemos o entorno construído, 

como reagimos 

aos clamores que ouvimos, 

ainda ecoam, 

como choramos o mundo...

certos de não errarmos o destino.


Venha! 


Ainda temos história nas mãos...

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

ENJOO INTIMO



Chega de mim!


Entorto-me como gostam...


Chega que me cego, 

nublado do que descarrego 


Chega do novo asfixiado 

nas entonações previstas.


Busco o afago 

das montanhas 

ansiosas de visitas, 

lágrimas que sugam o mar


Que se vá o vil 

que sempre me precede, 

e perca-me no silêncio 

dos seios protegidos .


Fujo de tudo, 

quem sabe descubra 

o ponto onde esqueci 

o nada badalando o tempo.

BOM DIA

  Que alegria acordar com o Sol,  ver que o dia chegou,  seu cachorrinho vir lamber-lhe o rosto. Que alegria o beijo matinal  da mulher amad...