sábado, 29 de novembro de 2014

Uma visita pelo 'Brasil que queremos'


Representantes do Grupo Emaús, que reúne, desde 1974, teólogos,
 intelectuais de diversas disciplinas e assessores de movimentos e 
comunidades de base nas Igrejas e na sociedade, apresentaram à 
Presidenta Dilma Rousseff, nesta quarta-feira, 26 de novembro, 
alguns pontos cruciais que merecem a atenção de seu governo.
 Não são questões desconhecidas, como por exemplo, o clamor
 geral por uma profunda e ampla reforma política, sustentabilidade 
ecológica e proteção do meio ambiente, coragem para a auditoria 
da dívida pública como manda a constituição em dispositivo especial,
 reforço do modelo econômico que mantenha o foco nos mais vulneráveis, 
determinação no cumprimento dos direitos indígenas e quilombolas, 
reforma fundiária agrária e urbana, restrição de agrotóxicos, democratização
 da comunicação, garantia de recursos para saúde e educação. O grupo 
insistiu na necessidade do diálogo com a sociedade como a Presidenta 
afirmou em seu discurso pós-eleição, especialmente com os movimentos
 sociais populares, que tem mais dificuldade de serem atendidos. O diálogo
 torna a sociedade cooperativa e por ele se encontra mais adequadamente
 a operacionalização das metas. A própria Presidenta lembrou o Papa Francisco:
 "Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum 
trabalhador sem direitos”. O encontro se revestiu também da informalidade 
de memórias, de livros e de notícias – com promessa de reencontro.

Imagem: Da esquerda para a direita: Frei Luiz Carlos Susin, Leonardo Boff, 

Márcia Miranda, Presidenta Dilma, Maria Helena Arrochellas, Rosileny Schwantes,
 Frei Betto

Estimada Presidenta Dilma Rousseff,
Nós, participantes do Grupo Emaús abaixo relacionados, queremos 
parabenizá-la por seu esforço e desempenho durante a árdua campanha
 eleitoral, bem como pelas conquistas de seu primeiro mandato. Somos um
 grupo de teólogos/as de várias Igrejas cristãs, sociólogos/as, educadores/as
 e militantes que nos encontramos regularmente há quatro décadas. Estamos
 todos comprometidos na construção de um Brasil, social e economicamente
 mais justo, solidário e sustentável.
A maioria batalhou, desde o início, em favor do PT e de seu projeto de sociedade.
 Nessas eleições de 2014, muitos de nós expressamos publicamente nosso 
apoio à sua candidatura. Discutimos e polemizamos, pois, percebíamos o risco
 de que o projeto popular do PT, representado pela Senhora, não pudesse se
 reafirmar e consolidar. Para nós cristãos, especialmente nas milhares de 
comunidades de base, tínhamos e temos a convicção de que a participação política, de cunho democrático, popular e libertador, se apresenta como um instrumento para realizar os bens do Reino de Deus.
Esses valores são a centralidade dos pobres, a conquista da justiça social, a 
mútua ajuda, a busca incansável da dignidade e dos direitos dos oprimidos,
 a valorização do trabalhador e da trabalhadora, a justa partilha e o respeito 
pela Mãe Terra. Por isso, na linha do diálogo que a Senhora propôs à sociedade, 
queremos apresentar algumas sugestões para que seu governo continue
 implementando o projeto que tanto beneficia a sociedade brasileira, especialmente
 os mais vulneráveis.
O BRASIL QUE QUEREMOS
Estas são as grandes opções que, acreditamos, devem estar presentes na
 construção do Brasil que queremos:
PROMOVER UMA REFORMA DO SISTEMA POLÍTICO. Uma reforma 
que acabe com o financiamento de campanhas eleitorais e partidos políticos
 por empresas privadas, e estabeleça o financiamento público. Uma reforma 
que possibilite a participação dos cidadãos e cidadãs no processo de tomada de decisões:
- sobre a política econômica;
- sobre todo e qualquer projeto que tenha forte impacto social e ambiental;
- sobre a privatização de empresas estatais e de serviços públicos.
Uma reforma que contemple também a democratização do Poder Judiciário,
 pois ele é, hoje, o menos controlado dos três poderes.
Só assim poderemos dizer que caminhamos para uma democracia política, 
econômica, social e cultural, num diálogo efetivo entre membros da sociedade
 política e da sociedade civil, que signifique governo do povo, pelo povo, para o povo.
REFORÇAR UM MODELO ECONÔMICO MAIS SOCIAL E POPULAR.
 Repensar criteriosamente a privatização de serviços públicos e de nossas 
riquezas naturais (entre as quais o petróleo). Orientar um modelo econômico
 centrado nas pessoas, na realização de seus direitos e numa relação harmoniosa com a natureza, no "bem viver" – como condição para enfrentar a grave crise ecológica na qual estamos imersos. Deve ficar claro para todos, assim o desejamos, que o governo Dilma governa todo o País, mas privilegiando os pobres e aqueles que não são capazes se manter por sua própria conta.
REALIZAR UMA AUDITORIA DA DÍVIDA PÚBLICA, externa e interna,
 conforme exigência de nossa Constituição (Constituição Federal, Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, art. 26, 1988).
Precisamos saber a quem deve e quanto deve realmente o Brasil, e de que 
forma foi feita esta dívida. A única auditoria que o Brasil fez, em 1931, constatou
 que 60% da dívida eram irregular, legalmente inexistentes. Em 2000, tivemos
 um Plebiscito Popular sobre a Dívida Externa, do qual participaram 6 milhões 
de pessoas, e 95% votaram pela realização da auditoria da dívida. O Equador
 realizou uma auditoria da dívida pública em 2009, e descobriu que 70% da 
dívida eram irregulares. A partir de então, passou a pagar apenas 30%, o
 restante foi investido em saúde e educação.
REAVALIAR OS MEGAPROJETOS À LUZ DE CRITÉRIOS 
ECOLÓGICO-AMBIENTAIS E SOCIAIS para que não ameacem o
 meio ambiente e o habitat de povos indígenas, quilombolas e populações
 ribeirinhas. Investir nas energias renováveis, especialmente na energia solar
 – visto que somos um dos países mais ensolarados do mundo. Estabelecer
 uma estratégia para o gradual fim da utilização de fontes de energia prejudiciais
 ao meio ambiente e perigosas à vida, como a energia nuclear e as termelétricas.
PROTEGER O MEIO AMBIENTE: Há anos, cientistas, movimentos sociais, 
entidades ambientalistas e muitas ONGs vêm advertindo para os sérios problemas
 climáticos que o Brasil teria se mantiver o tipo de desenvolvimento predatório 
implementado até agora. O que era uma previsão está ocorrendo diante de nós: 
a crise mais séria de falta de água de que já ouvimos falar, com riscos evidentes
 para a população, e a ocorrência de chuvas torrenciais, verdadeiras tempestades, 
em diferentes lugares do País, que causam destruição e mortes.
A desconsideração para com a Amazônia e o Cerrado, com a continuidade do
desmatamento - mesmo que o ritmo do desmatamento tenha diminuído -, é o
 principal fator para as chuvas desmedidas no Norte e a seca no Sudeste. 
O Brasil precisa assumir a meta do "desmatamento zero".
A falta d’água é fruto de vários fatores, entre os quais a desatenção para com 
as condições de vitalidade dos nossos rios, a realização de megaprojetos, a 
destruição das matas ciliares, a poluição das águas e a ausência de infraestrutura
 sanitária e tratamento de esgotos. O Brasil tem uma situação privilegiada no 
mundo: 13,8% da água doce estão aqui. O maior aquífero, o Alter do Chão,
 se encontra em nosso País. E, no entanto, vários de nossos rios estão secando,
e começa a faltar água em muitos lugares. A segunda maior reserva subterrânea
 de água doce do mundo, o aquífero Guarani, vem sendo contaminado pela
 infiltração de agrotóxicos. Vemos como urgente uma política que privilegie 
uma mudança da nossa matriz energética em direção a energias mais limpas 
(solar e eólica), com menor impacto ambiental (grandes hidrelétricas) ou
agravamento da contaminação ambiental e do aquecimento global 
térmicas a carvão, petróleo e gás).
DEFENDER OS DIREITOS DE POVOS INDÍGENAS E QUILOMBOLAS:
 Os primeiros habitantes desta terra foram os povos indígenas. Quando os
portugueses aqui chegaram, calcula-se que havia cerca de cinco milhões,
 repartidos em mais de 600 povos, com suas diferentes culturas e línguas. 
A colonização provocou um verdadeiro genocídio: povos inteiros desapareceram,
 restando, hoje, menos de um milhão e pessoas. Muitos deles não têm mais
 terra onde morar - eles que eram os donos milenares destas terras - e estão
 sendo dizimados, como é o caso dos Guarani-Kaiowá. Outros estão perdendo
 suas terras e, sobretudo, seus rios, para megaprojetos, para o agronegócio, 
para mineradoras. O mesmo acontece com comunidades quilombolas.
É urgente garantir os direitos constitucionais desses povos, restabelecer suas 
condições de vida, fazendo florescer toda a riqueza de sermos um País pluriétnico, 
pluricultural e plurilinguístico, se é que queremos chamar a nossa sociedade de 
civilização: uma civilização que não faz respeitar os direitos humanos não tem
 direito a este nome.
REALIZAR A REFORMA AGRÁRIA. Esta é uma reivindicação dos 
trabalhadores rurais que data da primeira metade do século XX, e que foi um dos motivo
s para o golpe militar de 1964. A ditadura impediu a reforma agrária, mas os 
governos posteriores também não a realizaram.
É uma reforma estrutural necessária para acabar com a concentração da 
propriedade da terra - onde 1% dos proprietários detém quase metade da terra
 -, para democratizar o seu acesso, fazendo com que a terra se destine a quem 
nela queira trabalhar e produzir alimentos para a população. E garantir condições
 favoráveis para as pessoas poderem se manter no campo.
PROMOVER A REFORMA URBANA, para democratizar o direito à cidade.
 Que as cidades sejam feitas para as pessoas e não para os automóveis; investir
 no transporte público de qualidade, priorizar o uso dos trilhos (metrô, trens), 
reduzir o tempo de deslocamento entre casa e trabalho. No que diz respeito 
à habitação, conter a especulação imobiliária e garantir que todos tenham
 condições de morar dignamente, com pleno acesso aos serviços públicos.
RESTRINGIR TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS. Até há alguns anos,
 havia dúvidas sobre se os transgênicos faziam mal à saúde. Este ano, um 
manifesto de 815 cientistas de todo o mundo alertou os governos de que os 
transgênicos representam um perigo e que se deveriam estabelecer uma
 moratória de cinco anos sem transgênicos, até que pesquisas independentes
 comprovem que fazem bem ao ser humano. É urgente uma política para 
reduzir, controlar e acabar com este tipo de plantio que está prejudicando
 a geração atual, mas prejudicará, ainda mais, as gerações futuras. E pior
 que isso, permite o controle de nossa agricultura por grandes multinacionais
 desta área, cujo único interesse são os lucros cada vez maiores, pondo
 em risco nossa soberania alimentar.
O mesmo se pode dizer sobre o uso de agrotóxicos: nós somos o maior 
consumidor de agrotóxicos em nível mundial. Nos países desenvolvidos, 
vários dos agrotóxicos que aqui ainda são usados foram proibidos há 
mais de 20 anos. Como chamou nossa atenção o cineasta Sílvio Tendler,
"o veneno está na mesa". É absolutamente fundamental estabelecer uma
 política de estrito controle sobre as substâncias que entram nos nossos
 alimentos, e reduzir sistematicamente o seu uso.
REFORMA TRIBUTÁRIA. Reformar o nosso sistema tributário para que
 ele seja progressivo, isto é, para que pague mais quem ganha mais, e pague
 menos (ou nada) quem ganha menos, o que implica que o imposto sobre
 a renda tenha mais peso que o imposto sobre o consumo.
Introduzir o imposto sobre as grandes fortunas, de modo a reduzir a enorme
 desigualdade social que caracteriza nosso País. Aumentar o imposto sobre
 a propriedade territorial rural, para acabar com o privilégio dos latifundiários. 
Introduzir a taxação sobre o capital financeiro (bancos e investimentos):
 "taxa sobre transações financeiras" (a famosa Taxa Tobin). Esta reforma 
é fundamental para reverter o atual sistema tributário, gerador de desigualdade.
POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA. Precisamos, urgentemente, 
de uma nova política de segurança pública e de reforma de nosso sistema
 prisional, para que se torne regenerativo e não apenas punitivo. Estão 
encarcerados/as, hoje, no Brasil, cerca de 550 mil presos/as. A maior parte
 destes/as se encontram ali por crimes contra o patrimônio ou por tráfico
 de drogas, não por crimes letais. No Brasil, ocorrem cerca de 50 mil homicídios
 dolosos por ano. A maioria das vítimas é jovem, pobre, negra, e do sexo 
masculino. Este genocídio precisa acabar, e temos meios para isso. Que a 
segurança pública seja exercida para proteger a vida e os direitos dos cidadãos,
 e não apenas a propriedade.
DEMOCRATIZAR OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO. É necessária uma
 legislação que torne a liberdade de informação e de expressão uma realidade
 para todos os brasileiros (e não apenas para a elite que controla a grande mídia), 
e que abra o espectro da comunicação, quebrando o atual oligopólio - que 
favorece unicamente a um pequeno grupo de grandes proprietários, em detrimento
 dos direitos da maioria.
UNIVERSALIZAR OS DIREITOS HUMANOS, políticos, civis, econômicos,
 sociais, culturais e ambientais, com respeito à diversidade. Garantir um sistema
 de saúde pública de qualidade, assim como de educação, transporte, saneamento básico. Que se combata, com todo o rigor, a violência policial, o emprego da tortura contra presos comuns e a situação degradante dos presídios superlotados.
VALORIZAR O TRABALHADOR E A TRABALHADORA: Garantir trabalho
 para todos/as. Trabalho digno e não precarizado. Redução da jornada de trabalho
 para 40 horas semanais, sem redução dos salários, como repartição dos abusivos
 ganhos de produtividade do capital. Reaparelhamento do aparato fiscalizador do
 Ministério do Trabalho. Combate à terceirização.
O CONTROLE SOCIAL DA GESTÃO PÚBLICA, para garantir um serviço
público voltado para os interesses dos cidadãos. É fundamental que estes possam
 exercer o controle da atividade parlamentar, assim como o controle dos governos
 (municipais, estaduais, federal). Reapresentar o projeto de Participação Social.
 Criar Observatórios de Controle Social (OCS) em todos os municípios brasileiros, 
formados por representantes da sociedade civil.
A ÉTICA NA POLÍTICA E DA POLÍTICA. O comportamento ético é essencial para
 a vida do cidadão e, especialmente, para aquele/a que pretende se dedicar ao 
serviço da sociedade, do bem comum, ao serviço público. Nenhuma política 
baseada na corrupção levará a uma sociedade justa, democrática, solidária e
 equitativa. Uma outra política é possível, com punições exemplares e reforma
 de nossas instituições, de modo a coibir a impunidade.
Aproveitamos para afirmar que nos empenharemos em colaborar, através dos
 meios de que dispomos, para que essas sugestões se tornem possíveis e façam
 avançar o projeto de sociedade que todos almejamos.
Desejamos sucesso em sua nova gestão, invocamos sobre a Senhora a lucidez
e coragem do Espírito Criador e, sobre seu governo, todas as bênçãos divinas
 de luz, paz e amor solidário.
Seus irmãos e irmãs
AFONSO MURAD Teólogo, ambientalista e assessor da Conferência dos 
Religiosos do Brasil (CRB). (MG)
ALESSANDRO MOLON - Advogado e Deputado Federal. (RJ)
ANDRÉA RODRIGUES MARQUES GUIMARÃES - Doutora em Ecologia, 
Conservação e Manejo da Vida Silvestre MG-4 348 699. (MG)
ANTONIO CECCHIN – Irmão Marista. Advogado. Fundador da Comissão Pastoral
 da Terra – RS. Militante dos movimentos Sociais, Pioneiro da luta e organização
 dos catadores no Brasil. Assessor do Movimento Nacional dos Catadores de
Material Reciclável de Porto Alegre. 6000123148 RS.
BENEDITO FERRARO – Teólogo. Professor de Teologia PUC – Campinas
RG 3568777-0. (SP)
CARLOS MESTERS – Biblista. Membro fundador do Centro de
 Estudos Bíblicos/CEBI. (MG)
CLÁUDIO DE OLIVEIRA RIBEIRO - Pastor Metodista. Professor 
Universitário. RG 04794811-1. (SP)
EDSON FERNANDO DE ALMEIDA – Teólogo. Pastor da Igreja Cristã 
de Ipanema. Coordenador do "Compassio: teologia arejada, pastoral 
comprometida”.
RG 112625819. (RJ)
EDWARD NEVES MONTEIRO DE BARROS GUIMARÃES – Teólogo. 
Membro da Sociedade de Teologia e Estudos da Religião (SOTER).
 Professor de Cultura Religiosa e Filosofia na PUC Minas. Coordenador do 
Curso de Especialização em Teologia do Centro Loyola. RG M-4 997 414 (MG)
EKKE BINGEMER - Profissional Independente de Administração de Serviços. (RJ)
FRANCISCO DE AQUINO PAULINO JUNIOR – Teólogo. Presbítero da 
diocese de Limoeiro do Norte – CE. Professor da Faculdade Católica 
de Fortaleza e Universidade Católica de Pernambuco. Assessor de 
Pastorais Sociais.
RG: 2008858604-3 (CE)
FREI BETTO – Jornalista. Escritor. Assessor de Movimentos Sociais.
 RG 14214910 SSP-MG (SP)
FREI SINIVALDO SILVA TAVARES – Teólogo. Professor de Teologia
 Sistemática na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) e no 
Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA). M 2327250 SSP/MG (MG)
JETHER RAMALHO – Sociólogo. Membro da Igreja Cristã de Ipanema.
 Membro fundador do Centro de Estudos Bíblicos/CEBI e do Conselho
 Editorial do Boletim REDE. (RJ)
JOSE OSCAR BEOZZO – Historiador. Teólogo. Coordenador Geral do
 Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular
 – CESEEP (SP). Professor Universitário. RG 2.769.363-6 SSP-SP (SP)
LEONARDO BOFF – Teólogo. Filósofo. Escritor. Membro da Comissão
 Internacional da Carta da Terra. Autor de Ecologia: grito da Terra,
grito dos pobres, Vozes 2014. RG (Genésio Darci Boff): 02 773 327-8 
Detran (RJ)
LÚCIA RIBEIRO – Socióloga. Membro do Iser – Assessoria. Membro do 
Centro Alceu Amoroso Lima. RG 055068274 IFP/RJ. (RJ)
LUCILIA RAMALHO – Vice-Presidente do Centro de Recreação Infantil 
(CRI) da Igreja Cristã de Ipanema. (RJ)
LUIZ ALBERTO GÓMEZ DE SOUZA – Sociólogo. Diretor do Programa
 de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido
 Mendes. Membro do Centro Alceu Amoroso Lima.
 RG 04488154591 IFP/RJ. (RJ)
LUIZ CARLOS SUSIN – Teólogo. Professor do Programa de Pós-Graduação
 e de Filosofia da PUC/RS na cadeira de Ética Ambiental. Secretário Geral do
 Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Membro do Comitê de Redação
 da Revista Internacional de Teologia Concilium. RG 1003162623. (RS)
LUIZ EDUARDO W. WANDERLEY – Sociólogo. Professor da PUC-SP. Membro
 da Diretoria do CEESEP e da Ação Educativa. (SP)
MAGALI CUNHA – Jornalista. Docente do Programa de Pós-Graduação em 
Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo. Editora do 
Blog Mídia, Religião e Política. RG 05477006-0 (IFP/RJ). (SP)
MANFREDO ARAÚJO DE OLIVEIRA – Filósofo. Professor Titular da Universidade
 Federal do Ceará. RG 99010318053. (CE)
MARCELO BARROS – Teólogo. Escritor. Coordenador latino-americano da 
Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). 
RG 4242073 - SSP - GO. (PE).
MARCIA MARIA MONTEIRO DE MIRANDA - Educadora popular. Membro
 do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis e do Centro
 Nacional dos Direitos Humanos de Brasília. 11.878.008-9 – Detran. (RJ)
MARIANGELA BELFIORE WANDERLEY - Assistente Social. Docente da 
PUC/SP. Professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço
 Social da PUC-SP. Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre
 Movimentos Sociais da PUC-SP Membro do Grupo Nutrição e Pobreza do
 Instituto de Estudos Avançados – IEA da USP. (SP)
MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Teóloga. Articulista do Jornal do Brasil.
 Professora da PUC/RJ. Membro do Comitê de Redação da Revista Internacional
 de Teologia Concilium. (RJ)
MARIA HELENA ARROCHELLAS – Teóloga. Diretora do Centro Alceu 
Amoroso Lima para a Liberdade/CAALL. RG 121.534.700-5. (RJ)
MARIA TEREZA BUSTAMANTE TEIXEIRA – Médica sanitarista. Professora
 Associada da UFJF. Pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer lotada
 na UFJF. Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva.
 Coordenadora adjunta do NATES/UFJF. Editora Geral da Revista de APS. (MG)
MARIA TEREZA SARTORIO – Pedagoga. Educadora Popular. Membro 
da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política. RG MG 18292550. (ES)
OLINTO PEGORARO – Filósofo. Professor Titular de Ética da UERJ. 
Trabalha com Movimentos Sociais na Comunidade do Borel. (RJ)
ROSEMARY FERNANDES DA COSTA – Educadora. Teóloga. Membro
 da SOTER. Assessora da CNBB. Professora da PUC Rio, Teresiano
 CAP/PUC e Secretaria de Educação do RJ. RG 3 750 717-5 
 DETRAN - RJ (RJ)
ROSILENY SCHWANTES - Cientista da Religião. Psicóloga. Professora 
da Universidade Nove de Julho. RG 38 910 786 4. (SP)
TEREZA MARIA POMPEIA CAVALCANTI – Teóloga. Assessora de CEBs. 
Professora na PUC-RJ (RJ)
Corrêas (RJ), 09 de novembro de 2014.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

DESARME O CORAÇÃO


Por um momento
respire e pense 
nas dores
que se acumulam 
nele.

Toda sorte de dores
as justas e as injustas,
as pequenas e as grandes
as raras e as frequentes.

Permita que ele bata
naturalmente
sem a pressão
das angústias
raivas
tristezas
que se acumulam
e nem sempre 
sabemos.

Desarme.
Sei que às vezes
a morte torna-se 
uma solução.

Rejeite!
Porque há uma chance
na vida
para sermos bons

Depende exclusivamente
de mim
de você...
é intransferível.

João Paulo

Quênia: 28 pessoas são assassinadas por não saberem recitar o alcorão

Medidas de segurança contra milicianos islamistas são intensificadas, mas há temor na comunidade cristã

 25 de Novembro de 2014 (Zenit.org) - Neste dia 22 de novembro, 28 pessoas foram assassinadas a sangue frio por milicianos somalis Shabaab, que selecionaram as vítimas com base na sua crença religiosa e assassinaram os que não sabiam recitar um verso do alcorão.
A informação, veiculada hoje, é da agência de notícias Fides. Houve intensificação das medidas de segurança nas igrejas cristãs do Condado de Mandera, ao norte do Quênia e na fronteira com a Somália. Os fiéis da região estão apreensivos e com medo de participar dos cultos religiosos.
Diante de cada edifício de culto cristão, há hoje três agentes de guarda.
O bárbaro assassinato de inocentes está gerando grande impacto social, já que entre as vítimas havia 7 professores, além de médicos e policiais. Sua atuação profissional faz grande falta na localidade.
Em resposta ao atentado, as autoridades quenianas afirmaram ter realizado uma série de operações militares contra o Shabaab na Somália, nas quais teriam morrido 100 milicianos. O porta-voz dos extremistas somalis, no entanto, negou esta afirmação.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Paquistão: ameaças a parentes de casal assassinado em fornalha

Parentes do casal assassinado brutalmente sob a acusação de blasfêmia sofrem pressão para retirar as acusações
Por Redacao
21 de Novembro de 2014 (Zenit.org) - Não tem fim o pesadelo dos parentes do casal cristão assassinado brutalmente sob acusação de blasfêmia, na província de Punjab, Paquistão. "Estamos recebendo ameaças telefônicas para retirar as acusações", disse Shahbaz Masih, irmão Shehzad Masih, durante conferência de imprensa em Islamabad, à agência de notícias Mishná. "Para compensar foram oferecidas terras e dinheiro", diz ele. Por esta razão, os parentes exigem a proteção do governo.
As duas vítimas são Sehzad Masih e Shama Bibi, que estava grávida. Eles foram atacados por uma multidão e jogados em uma fornalha após um líder islâmico da cidade ter anunciado no alto-falante de uma mesquita, que os dois haviam cometido blasfêmia queimando páginas do Alcorão.
Até à data, registra-se mais de cem participantes no ataque, a polícia deteve 43. "Nós só queremos justiça através de investigações justas", disse Masih, que também pediu a formação de uma comissão judicial e uma equipe de investigação conjunta que inclua membros de minorias religiosas, a fim de obter resultados imparciais.
As demandas das famílias das duas vítimas parecem ecoar o clima que reina no país. Na quarta-feira Nazir S Bhatti, presidente do Pakistan Christian Congress (PCC), expressou profunda preocupação com as declarações de Ali Mohammad, líder do Paquistão Tehreek Insaf (PTI), que comentou sobre o assassinato do casal na televisão, ele chamou os cristãos de "kafir", ou seja, "infiéis". As comunidades cristãs do Paquistão solicitaram imediatamente o pedido de desculpas por parte de Ali Mohammad Imran Khan. Por enquanto, permanece o silêncio.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vamos acabar de vez com este jeitinho brasileiro, ou universal


Sem propina, não se faz 

obra pública, alega advogado

Mário Oliveira, defensor do lobista Fernando

 Soares, diz que os pagamentos são rotineiros

O DIA

Fernando Baiano, que irá depor amanhã à PF, foi ontem ao IML para fazer exame de corpo de delito
Foto:  Geraldo Bubiak

Rio - Advogado do lobista Fernando Soares, conhecido como
Fernando Baiano, Mario de Oliveira Filho afirmou ontem que,
no Brasil, não se faz obra pública sem “acerto” e que quem
nega isso “desconhece a história do país’. Apontado como
operador do PMDB em esquema de desvio de recursos na
Petrobras, Fernando Baiano vai depor amanhã.
O lobista se entregou anteontem na sede da Polícia Federal
de Curitiba e é um dos 24 presos que tiveram a prisão decretada
 na sexta-feira pela Operação Lava Jato — 11 deles já foram
 liberados.
“O empresário, se porventura faz alguma composição ilícita
 com político para pagar alguma coisa, é porque se ele não fizer
 isso não tem obra. Pode pegar qualquer empreiteira e prefeitura
do interior do país. Se não fizer acerto, não coloca um
paralelepípedo no chão”, afirmou Oliveira Filho.
O advogado do lobista disse ainda que os empresários detidos
 na Operação Lava Jato são “vítimas da cultura política do país”.
Oliveira Filho negou, no entanto, que seu cliente tenha
intermediado pagamento de propina em obras da Petrobras.
A participação de Baiano foi citada em depoimentos feitos pelo
 doleiro Alberto Youssef e pelo ex-diretor da Petrobras Paulo
Roberto Costa. “Estão tratando ele como bode expiatório. Ele é
um empresário que descobre um problema de infraestrutura e vai
atrás da solução, vai atrás da empresa que tem a solução, recebendo
uma porcentagem absolutamente legítima disso”, justificou o advogado.
Segundo os depoimentos de Youssef e de Paulo Roberto Costa,
Fernando Baiano seria o operador do PMDB no esquema de corrupção
na Petrobras. Mas, de acordo com Oliveira Filho, Baiano não tem
 relações com o partido. “Dizem que ele é ligado ao PMDB.
Perguntei para ele, e ele disse que não conhece o Renan Calheiros,
que nunca viu e que não tem ligação nenhuma com o PMDB”, afirmou.
O advogado voltou a dizer que Baiano foi “surpreendido” com
o pedido de prisão decretado na sexta-feira. Segundo ele, seu
cliente tinha passagem marcada para Curitiba para depor na
Polícia Federal. “Ele abriu mão de depor no Rio, onde mora,
para vir a Curitiba esclarecer tudo. Estava colaborando com
a Justiça”, afirmou.
Polícia Federal ouve executivo da Camargo Corrêa
O vice-presidente da empreiteira Camargo Corrêa, Eduardo Leite,
poderá “colocar a mão à palmatória” em novo depoimento à Polícia
 Federal. A afirmação é de Cláudio Mariz de Oliveira, advogado de Leite.
Ao depor ontem pela manhã, o executivo da Camargo Corrêa
 respondeu apenas a questionamentos básicos sobre sua função
na empreiteira. Por orientação de seu advogado, ele não respondeu
as perguntas sobre contratos firmados entre a construtora e a Petrobras.
Anteontem, Sérgio Mendes, presidente da Mendes Júnior, confessou
à Polícia Federal que pagou R$ 8 milhões ao doleiro Alberto Yousseff,
 a mando do ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa.
Segundo Mariz de Oliveira, seu cliente não se <MC0>manifestou
porque não teve acesso ao teor das acusações. O advogado
observou, porém, que Leite poderá falar em novo depoimento,
depois que a defesa tiver acesso ao inquérito. “Vamos colaborar.
Vamos tomar conhecimento de todos os fatos e aí podemos
colaborar com um depoimento mais específico na sequência”,
disse o advogado.
Ele confirmou ter entrado com um pedido de liberdade para
seu cliente. “Nós já entramos com o pedido de Habeas Corpus.
Por enquanto, ele permanece preso”, disse. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Meditar sobre a conversão para não se tornar cristão morno, acomodado ou de aparência

Na missa em Santa Marta, o Papa, inspirado nas leituras de hoje, reflete sobre a conversão
Por Federico Cenci
ROMA, 18 de Novembro de 2014 (Zenit.org) - A advertência do Senhor aos cristãos de Laudiceia no Apocalipse de João ecoa através dos séculos e chega até nós. A conversão não é uma porta de entrada para a "espiritualidade da comodidade", mas um caminho que todo cristão deve percorrer diariamente para não cair na "tepidez". Caminho marcado pela adesão autêntica, que evita as "aparências" que caracterizavam Zaqueu antes do seu encontro com Jesus.
As leituras do dia inspiraram o Papa na homilia sobre o tema da conversão, definida como "graça" e "visita de Deus." Na primeira leitura - observou - o Senhor pede aos cristãos de Laucideia que se convertam porque vivem na "espiritualidade do conforto". Condição que semelhante à de muitos atualmente, que cumprem algumas ações de rotina e por isso acreditam que "não falta nada": "Eu vou à missa aos domingos, rezo algumas vezes, me sinto bem, estou na graça de Deus, sou rico" e "não preciso de nada".
Mas - advertiu o Papa – se trata de uma ilusão, porque "este estado de espírito é um estado de pecado". A eles, o Senhor "não poupa palavras" e, na verdade, diz: "Porque és morno, vou vomitar-te da minha boca". Eles são chamados à conversão, bem como "os cristãos de aparências". O Papa sublinhou que "as aparências são o sudário destes cristãos, que estão mortos."
Sudário que pode envolver cada um de nós, sem que percebamos. Por este motivo, o Papa nos convida a fazer algumas perguntas: “Sou vivo dentro, tenho uma vida espiritual? Sinto o Espírito Santo? Dou-lhe ouvidos? Ou... se parece que vai tudo bem, não me questiono? Tenho uma boa família, ninguém fala mal de mim, tenho tudo o que preciso, sou casado na Igreja... estou na graça de Deus, estou tranquilo. Então, devemos “procurar alguma coisa de vivo dentro, temos que nos converter: das aparências à realidade. Do torpor ao fervor”.
Caminho de conversão que Zaqueu percorreu, "um chefe dos publicanos e rico", que - como disse o Papa - "traiu seu país" porque "trabalhava para os estrangeiros, para os romanos". O Papa comparou a "muitos dirigentes que conhecemos: corruptos". Esses que "ao invés de servir ao povo, o explora para servir a si mesmos".
Zaqueu não era morno, mas uma pessoa "em estado de putrefação". Estado do qual ele foi capaz de se livrar graças à "semente da curiosidade" semeada nele pelo Espírito Santo. O Papa fez referência ao fato de que Zaqueu - como descrito no Evangelho de Lucas - subiu numa árvore para ver Jesus, que estava de passagem pela cidade de Jericó.
O Santo Padre destacou que Zaqueu "não teve vergonha", porque ele queria ver este "curador do qual falavam tão bem”. Sinal de que dentro dele "trabalhava o Espírito Santo”. Através desse "a Palavra de Deus entrou naquele coração e, com a palavra, a alegria". Daí a reflexão do Papa: "Os da comodidade e da aparência tinham esquecido o que era a alegria; e este corrupto a recebe imediatamente", assim "o coração muda, se converte". E Zaqueu promete devolver quatro vezes o que roubou.
Papa Francisco observou que "quando a conversão chega até o bolso, é certa". Uma vez que "todos" são "cristãos de coração" ou "cristãos de alma", mas "poucos" são "cristãos de bolso”. Zaqueu se tornou assim graças à "palavra autêntica" de Jesus.
Palavra que – destacou o Pontífice- "é capaz de mudar tudo", mas "nem sempre temos a coragem de crer na Palavra de Deus, de receber a Palavra que nos cura dentro". Por fim, o Papa convidou a pensarmos muito, “muito seriamente", nestas últimas semanas do ano litúrgico, sobre “a nossa conversão, para que possamos avançar no caminho da nossa vida cristã."

A economia nas Escrituras.

 Artigo de Gianfranco Ravasi
A economia é uma ciência humanística, sendo a regra de gestão (nómos) da casa (oíkos) pessoal, familiar e mundial. A koinonia, termo grego que indica a "comunhão fraterna" dos bens, uma espécie de "comunismo" ideal, modelado sobre a repartição dos pertences entre todos os membros da comunidade segundo critérios de igualdade absoluta.
A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 17-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Somos sobreviventes de uma fase em que o termo "finanças" tornou-se sinônimo de "economia" com uma operação reducionista de efeitos deletérios, destinada, em última instância, a confundir meios e fins, instrumento e projeto.
De fato, como se registra até em nível filológico, a economia é uma ciência humanística, sendo a regra de gestão (nómos) da casa (oíkos) pessoal, familiar e mundial. A consequência dessa finalidade que torna o horizonte da economia muito mais amplo do que a mera funcionalidade instrumental das finanças é o contato necessário com a antropologia, a ética e até mesmo com a religião.
Como escrevia Amartya Sen no seu famoso livro Etica ed economia (Ed. Laterza, 1988), "a separação da economia da ética é um empobrecimento da economia, cujo leito original deveria ser a filosofia moral, terreno em que muitos economistas temem avançar".
Com estatutos metodológicos diferentes e, portanto, com uma operacionalidade própria, economia e religião devem se pôr a partir de angulaturas diferentes a serviço da humanidade. Isso é o que é afirmado repetidamente nos documentos pontifícios mais recentes como a Caritas in veritate (2009), de Bento XVI, e a Evangelii gaudium (2013), do Papa Francisco, e é isso que é elaborado em vários ensaios de índole teológica.
O cristianismo, a esse respeito, está particularmente envolvido por causa da sua matriz estrutural que tem no seu centro a "encarnação" pela qual Deus e homem, em Cristo e na Igreja, são profundamente unidos por um projeto de justiça e de amor. Ele é denominado na linguagem simbólica bíblica de "o reino de Deus", uma categoria não teocrática, mas histórico-espiritual.
Por isso, como escrevia Chesterton sugestivamente, "toda a iconografia cristã representa os santos com os olhos abertos sobre o mundo, enquanto a iconografia budista representa cada ser com os olhos fechados" na contemplação interior.
O ponto de partida para a reflexão essencial que agora propomos nos é oferecido por dois livros interessantes, embora de recorte diferente. De um lado, colocamos um verdadeiro rastreio sistemático, histórico-crítico e hermenêutico da ética econômica própria das Sagradas Escrituras judaico-cristãs. Elas são analisadas nesse ensaio tanto em nível diacrônico – e, portanto, segundo um arco evolutivo que, do Israel bíblico, chega ao cristianismo judaico-cristão e paulino –, quanto em um olhar sincrônico final, em que se reúnem os nós permanentes da questão.
Eles dizem respeito ao juízo não unívoco sobre o bem-estar, a gratuidade do dom divino, a reciprocidade na caridade, a relação de cuidado com a criação e os seus bens, e o clássico tema da providência. Quem esboça esse desenho textual e sistemático é o professor de teologia e economia do Providence College (Rhode Island, EUA), Albino Barrera, que já tem às suas costas uma ampla bibliografia sobre o assunto.
De outro lado, remetemos a um texto mais móvel e direto: trata-se de um diálogo entre um renomado biblista envolvido em nível pastoral eclesial e de solidariedade internacional, Giuseppe Florio, e um importante e animado economista da universidade romana de Tor Vergata, Leonardo Becchetti.
Este último se expressou várias vezes, de modo incisivo e original, sobre o nexo entre ética e economia, não temendo avançar também no horizonte da felicidade entendida como porto não marginal da própria práxis socioeconômica.
O frescor do debate entre dois especialistas de disciplinas diferentes, mas não alheias entre si, torna esse texto muito agradável. Por sorte, não são poucos os economistas e os teólogos que, nesses últimos tempos, se assomam para além das suas cercas de fronteira para dialogar: gostaria apenas de assinalar a preciosa e sugestiva contribuição do economista Luigino Bruni, da Libera Università Maria Santissima Assunta (Lumsa), de Roma, sobre cuja pesquisa poderemos intervir no futuro.
Mas voltemos à nossa consideração de índole geral sobre as próprias fontes da fé cristã. Em nível estritamente histórico-crítico, muitos estudiosos se preocuparam em reconhecer as coordenadas socioeconômicas dentro das quais se desdobrou a história do Israel bíblico ou a do cristianismo, adotando esquemas interpretativos também heterogêneos (marxistas ou liberais). Lembramos apenas uma interessante Sociologia do cristianismo primitivo, publicada em 1979 pelo alemão Gerd Theissen (Ed. Queriniana, 1987).
Certamente, a Bíblia revela diversos modelos sociopolíticos ligados aos condicionamentos históricos e às várias reivindicações que se queria testemunhar. É o caso da experiência vivida pela comunidade cristã das origens e exaltado por Lucas nos Atos dos Apóstolos. Ela é definida como koinonia, termo grego que indica a "comunhão fraterna" dos bens, uma espécie de "comunismo" ideal, modelado sobre a repartição dos pertences entre todos os membros da comunidade segundo critérios de igualdade absoluta.
O ponto de referência era o apelo do livro bíblico do Deuteronômio: "Não haverá necessitados entre vocês" (15, 4); mas também o eram certas experiências de partilha dos bens presentes no judaísmo (a comunidade de Qumran, no Mar Morto) e no próprio mundo pagão (pitagóricos e estoicos). Justamente Friedrich Engels salientava que essa práxis hierosolimitana não era equiparável à proposta marxista, sendo diferentes as motivações de fundo.
Na base do projeto cristão – que, aliás, era possível em uma sociedade restrita e economicamente simplificada –, havia, de fato, a fé comum no mesmo Deus, cuja paternidade nos torna todos filhos seus e irmãos entre nós. Havia o reconhecimento da necessidade que todos têm da salvação, para a qual não existem privilegiados, e havia uma relativização dos bens materiais em relação ao valor supremo da justiça e do amor.
Sobre o tema da política e da economia, Cristo tinha reiterado, em nível geral, esses valores, sem propor modelos concretos. No entanto, ele tinha afirmado a distinção das esferas na célebre frase: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (cf. Mc 12, 13-17). Mas tinha lembrado, com o símbolo da "imagem" que, se é verdade que a moeda traz a "imagem" de César e, portanto, tem uma autonomia legítima própria, o homem é sempre "imagem" de Deus e não pode ser curvado ao serviço último da economia ou da política. Por isso, já os profetas haviam levantado bem alto a sua voz de protesto contra as injustiças, e assim também fizeram Cristo e a Igreja (veja-se o Apocalipse).
Em síntese, podemos adotar também para o cristianismo a concepção "simbólica" que tentar manter em diálogo ética e economia, mesmo na especificidade dos seus âmbitos, concepção formulada em nível geral por Gandhi: "O homem se destrói com a política sem princípios, com a riqueza sem trabalho, com a inteligência sem sabedoria, com os negócios sem moral, com a ciência sem humanidade, com a religião sem fé, com o amor sem o sacrifício de si mesmo".
·         Albino Barrera. Biblical Economic Ethics. Plymouth: Lexington Books, 354 páginas.
·         Leonardo Becchetti; Giuseppe Florio. Dio e mammona. Introdução de Mario Toso e Loretta Napoleoni. Roma: Ecra
·         (Edizioni del Credito Cooperativo), 144 páginas.
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