Não consigo escrever poemas por lógica, por decisão. Assalta-me o pensamento vindo dos abismos interiores, e inicio uma tradução não verbal, até adquirir letra. Não convida, impõe, não pede licença, interrompe. Apresenta talento que desconheço em mim mesmo, e surpreendo-me. Não é estranho mas não se submete à minha realidade. Passa-se como se me visse íntegro. Aceito de bom grado este eu escondido, remoendo vísceras, estancando hemorragias, antenando canais interiores. Acostumei-me a estas delícias. Fazem o contraponto de minhas quimeras cheias de incensos e ambrosia. Atinge o batimento cardíaco regando compassadamente o cérebro. Vem quando quer e como quer. Às vezes é raro, nunca tardio; outras, um aluvião (e eu observando atônito). Acontece, simplesmente, sem sinos, relógios, em plena cama, no carro, boteco, vaso sanitário, cheio de movimentos peristálticos. Não pede livros, não se arroja em querer ser conhecido, não me interroga. Apenas vem. Posso recu...