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Como devia estar a cabeça de Mário de Andrade ao escrever este poema?





Eu que moro na Lopes Chaves, esquina com Dr.Sérgio Meira, bebendo atrasado do ambiente onde Mário de andrade viveu, e cuja casa é hoje um centro cultural fechado e protegido a sete chaves(que ironia) por "representantes" da cultura, administrada pela prefeitura...

Uma ocasião ali estive, e uma "proprietária da cultura" reclamou que no passado a Diretoria da UBE - União Brasileira de Escritores, da qual fiz parte,  ali se reunia, atrapalhando as atividades daquele centro(sic).

Não importa, existem muitos parasitas agarrados nas secretarias e subsecretarias da vida, e quero distância desta inoperância. Prefiro ser excluído; é mais digno.

Mas vamos ao importante. O que será que se passava na cabeça do grande poeta Mário de Andrade ao escrever "Quando eu morrer quero ficar".

Seria um balanço de vida?

Balanço literário?

Seria a constatação da subdivisão da personalidade na pós modernidade, ele visionário modernista?

Seria perceber São Paulo em todos os seus segmentos socio-culturais onde ele mesmo miscigenou-se, ou imiscuiu-se ?


Quando eu morrer quero ficar,

Não contem aos meus inimigos,

Sepultado em minha cidade,

Saudade.



Meus pés enterrem na rua Aurora,

No Paissandu deixem meu sexo,

Na Lopes Chaves a cabeça

Esqueçam.



No Pátio do Colégio afundem

O meu coração paulistano:

Um coração vivo e um defunto

Bem juntos.



Escondam no Correio o ouvido

Direito, o esquerdo nos Telégrafos,

Quero saber da vida alheia,

Sereia.



O nariz guardem nos rosais,

A língua no alto do Ipiranga

Para cantar a liberdade.

Saudade...



Os olhos lá no Jaraguá

Assistirão ao que há de vir,

O joelho na Universidade,

Saudade...



As mãos atirem por aí,

Que desvivam como viveram,

As tripas atirem pro Diabo,

Que o espírito será de Deus.

Adeus.

Ele tem uma saudade antecipada de São Paulo, certamente uma São Paulo desaparecida e que ele mesmo vira desfigurar-se.
 
Isto é bem de São Paulo, mudando a cada momento, e mantendo a mesma cara.
 
Como devia ser a rua Aurora em seu tempo...certamente não como hoje, totalmente degradada e suja.
 
A Paissandú deveria ser lugar de belas mulheres onde  poeta ia deleitar-se, como dizia Bandeira em Pasárgada "tem prostitutas bonitas pr'a gente namorar".
 
A cabeça na Lopes Chaves remete a sua formação familiar e educacional, o seu ponto de partida para a vida, que o manteve na linha, numa direção, merecedora da guarda da cabeça, .
 
Associar  um coração bem vivo e um defundo juntos, enterrados no Pátio do colégio, é uma forte crítica aos descaminhos de nossa cidade, uma viva morta, desde o início, esperando por uma ressurreição. 

Seu ouvido direito e esquerdo nos correios e telégrafos, seriam naturalmente substituídos hoje pelos olhos na internet. De qualquer forma, um grande curioso, disposto a saber de tudo, seja legal seja o que for. Tudo era fonte de trabalho para a poesia.
 
O nariz nos rosais é algo desaparecido de São Paulo de hoje, mas imagino os casarões de seu tempo, com jardins de entrada, cheios de rosais, onde o poeta apurava sua sensibilidade natural, animal, enquanto caminhava.
 
"A lingua no Alto do Ipiranga para proclamar a liberdade", tem o sentido de independência, de dizer o que quiser, ainda que desagrade a outros, a verdade.
 
A palavra saudade, no final do verso denuncia a perda desta mesma liberdade. Nos remete a pensar que o poeta ressentia-se com a falta da liberdade em seu tempo.
 
Os olhos no Jaraguá, representa foco, e visão futura. Esperança, apesar de tudo.
 
Deixar os joelhos na Universidade, sugere uma subserviência à ciência e não a uma religião.
 
"Atirar as mãos por aí", mostra o descompasso entre a inteligência e sabedoria, de um lado, e a realidade de uma vida dominada pelos instintos e situações, de outro, que levaram o poeta muitas vezes a situações contrárias ao seu desejo, uma verdadeira "desvida", se me permitem usar um termo assim.
 
Entregar as tripas para o diabo e o espírito para Deus, mostra a dicotomia humana, a incapacidade da integridade, a presença constante da ambiguidade, em vez da síntese.
 
Só para meditar um pouco...

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