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Mostrando postagens de novembro, 2024

AQUI E AGORA

  Sou o momento,  o instante, afago e o beijo,  do sempre presente  desejo, desapego e distância. Sou pé firme no chão  e olhos nos confins, da palavra  que vai fundo ao coração,   e do silêncio da espera  de oportunidade. Sou do grito por justiça,  e das lágrimas que correm, viagem delumbrante  dos trajetos ultrajantes Nada espero e pouco almejo. Tudo deposito no aqui e agora. Sonho enquanto faço,   luto na realidade da vida, presenca viva  no meio de mortos. Sou palavras de ordem  aos desalentados, e gritos de guerra  aos surdos. Marco os passos  por onde ando  e abro frentes novas  diante das dificuldades. Sou peregrino de mim mesmo,  retirando velhos escombros  reconstruindo novo ser.

ATÉ BREVE

  (em memória aos que,  de fato, não foram) Certas ausências  nunca morrem,  ficam nos interpelando  os dias que se vão,   como se continuassem.  Certas ausências  são mais que presenças,   dão opiniões,   sorriem de nossos erros,  compreendem. Nos dias quentes  de verão,  às vezes,  nos despedem  em suas ausências,  e retornam  vagarosamente, até a primavera,  quando parecem  estar ao nosso lado Quando vemos,  o tempo  esgotou-se,  a lembrança  é quase um reencontro.  Nunca digo adeus  a quem foi,  mas um até breve.

MENSAGEIROS

  Tenho um mensageiro do vento na entrada de casa. Traz notícias de longe, altos mares, montanhas escarpadas, no bater de notas metálicas agudas das mudanças. Anuncia leves brisas, fortes tempestades. Traz o que está do lado de fora da proteção que me encontro, faz pensar... Tenho outro mensageiro, escondido no fundo da casa. Prefere discrição, quer dizer algo, aguarda raros silêncios. Não o escuto direito, exige total atenção. Espera eu descer alguns degraus de pensamentos, então, bem baixinho, sussurra pequenas sugestões. Não se apresenta ostensivamente, não gosta de interferir em minhas opiniões e decisões pessoais. Tem mansidão, voz suave quando fala. Outro mensageiro ainda, aproveita a dobra da noite e do dia, vem rápido, diz logo o que quer, cheio de tarefas. Nunca completa uma frase, é enigmático, espera que eu decifre. Muito concreto, traz ordens a serem cumpridas. Mais um, despe-se de sua suntuosidade, fala a todos, alto, em plena tarde, quando os sonhos estão desfeitos. ...

HERANÇA

Nós que ficamos temos dura lição, continuarmos aqueles que admirávamos. Não temos a universalidade de visão, apreendemos tão pouco, tampouco nos sentimos fiéis continuadores. Enquanto o tempo nos engana, nos fazemos distraídos traídos de nós mesmos que seguimos a esmo. Vai chegando o dia em que sobressai a osmose que se sedimentou de tudo que vimos e fizemos Nesta hora aflora o verso, inverso reconhecimento, unguento das feridas vida a fora Todas as reações: 1 Newton Nunes

DORES AUSENTES

Ninguém conhece minha dor. Meus olhos treinaram alegria, consegui esconder meus sofrimentos. Todos me veem alegre, divertem-se comigo, não sabem o que guardo. Cada um com sua dores mudas... Vem um dia, vai outro, assim vão seguindo dias sem fim, enquanto celebro, silenciosamente, alegres ausências. Todas as reações: 12 Eliana Ada Gasparini, Vanderli Tiberio e outras 10 pessoas

VESTÍGIO

  Não passa... o tempo segue seu curso. Para muitos passa, porque o passado apaga tudo. Se sorrio enquanto choro, o quê importa para as pessoas que desconhecem, não veem, não sentem. Quando entardece, sou jogado contra mim, afloram grandes distâncias.

NUVENS BRANCAS

Nuvens brancas  passeiam lentas,  quase descansam  no manto azul,  parecem fotos. Convidam  à paciência,  à paz.  Não se evaporam  rapidamente  diante do Sol,  disfarçam suas fragilidades. São esperança de durabilidade.  Cientes de si,  desdenham  as avenidas congestionadas,  as mentiras  nas redes sociais. Passam isentas,  seguem  não sei para onde,  não é necessário acompanhar.  De alguma forma  desaparecem  sem que se sinta falta. Sou uma pequena  nuvenzinha a observar  tudo embaixo.  Hoje aqui,  amanhã,   sabe-se lá...

COMPOR

 Cl Onde você entra  nessa história? Entra quando  nos encontramos. Assim você  faz parte de mim,  encontro sem fim. Onde entro nessa história? Quando você me muda, e silencio  mudo. Não fazemos parte, somos um todo!

TRADUÇÃO

  Meus sentimentos não tem palavras, não se traduzem, por mais que tente explicá-los. Invadem minha lógica com desdém, fina ironia à superficialidade da grafia. Observo esta constante falta de entendimento, submersa e, fazer o quê, sigo em percurso arqueológico, decifrando o significado das coisas. Estou perdendo a lucidez? Já a perdi há tempos... não sei se vivo mais dentro, na ideia, do que fora, no real. Me confundo todo, puro engodo de mim mesmo.

SOTURNO

  Meus pensamentos despertam  muito antes de mim,  observam a linguagem da noite. Meus sentimentos sequer dormem,  passeiam livres... repensam o passado,  ora adentrando campos proibidos  controlados pelo tempo, ora recordando  arestas petrificadas,  sempre vêm à tona,  em repetidas correções, martelam... Olho-os criticamente  enquanto observam  e passeiam  no repouso. Não durmo mais... noite de mim. O tempo não perdoa os passos... Meus sonhos são raros,  trazem enigmas longínquos. Desperto,  vivo a decifrá-los

ENTREABERTO

Entreaberto,  um livro aguarda  demorada reflexão. Entreaberta,  uma reflexão  não se materializa,  sob o risco  de não conseguir  prosseguir a leitura. Caminhos de mim  deixam portas abertas que aguardam. De repente  o mundo espera  apenas uma compreensão  para seguir em frente. Mas,  quem sou eu  diante do mundo  para fazê-lo esperar? Mas,  qual o caminho,  se ainda  não está claro,  são tantos! Ando refletindo muito,  deixando o livro  aberto  aguardando

ÀS VEZES

  Às vezes  não vem palavras,  mas lágrimas... Olhos perpassam  vulneráveis fisionomias,  penetram... descobrem a verdade  além da postura, vão dentro... Às vezes  fico confuso  sobre a quem respondo,  a quem falo. Melhor deixar  oculto o oculto, submeter-me  às trivialidades.  Melhor remexer escombros escavar vidas soterradas,  não estão ali por acaso,  esperam socorro. Às vezes  palavras  são melhores  que lágrimas, curam ...

FINADOS

  Se olho, tenho mais parentes do lado de lá, que de cá. Não apertam mais a campainha, vêm me visitar. Não telefonam, nem festejam mais meu aniversário. Esconderam-se. Fui obrigado a acostumar-me com estas ausências. Que não dizer dos de minha própria casa, sangue do meu sangue? Vejo-os ainda na cozinha, nos cômodos. Falam comigo desde a partida. Se penso, ainda vejo em mim, cada um... posso contá-los. Estou aprendendo a dura lição das ausências, lição de vida para com os mortos. Estou aprendendo a ser só até partir também para fazer parte da lembrança de alguém...