terça-feira, 25 de novembro de 2025

FINAL DE NOITE

 

Como temos

sobrevivido

meu amor...

um mundo
que não nos entende,
nos leva em mar
tempestuoso,
jogando o barco
de um lado ao outro.
Queria a mansidão
dos jardins dispersos
fora dos trajetos,
e só encontro
o tempo comprimido.
Sobrou o fim da noite
para nosso silêncio.
Sobrou a sobra,
quase nada para nós.
Sobraram sonhos perdidos
no desencontro diário.
Ainda assim
sobrevivemos
nas confidências
guardadas
no outro lado
dos montes
onde o Sol
descansa
extenuado
do homem
e da mulher.
Peço
não se perca
este pouco
que ainda resta
no pouco
que somos
do pouco
que temos.
Somos assim,
acamados
noturnos,
assim seguiremos...

domingo, 23 de novembro de 2025

LIMITES

 


Vivo de limites...


Estão por aí, 

em quase todos 

os lugares.


A eles me submeto, 

me adapto,  

confronto... 

a outros rejeito, 

e por fim, 

outros ainda estabeleço.

partes fundantes da vida.


Com os limites 

mantenho uma relação 

de paz e guerra.


De paz...

se andam de acordo 

como vejo e ajo; 

de guerra...

quando me obrigam  

a contragosto, 

guardar-me 

do que digo e faço. 


Grande parte destes limites 

não estão explícitos, 

fazem parte 

do subentendido, 

vigiando no silêncio. 


As palavras batem-se, 

constantemente, 

a contragosto, 

nos muros da convivência, 

diferentes olhares, 

até definirem 

o que deve ser dito, 

e o que deve calar-se.


Talvez o primeiro choro 

tenha passado por fora...

talvez o amor desconheça regras

é porque é...

por isto perseguido 


Se olho atento, 

percebo-me um prisioneiro 

social e individual, 

um catálogo 

com nome e registro.


Ai os horários 

que lembram 

nossos tempos 

todos delimitados.


Agora tenho 

que por um fim, 

um limite, 

e chega!

sábado, 22 de novembro de 2025

ALMA MINHA

 


Desperta-me, minha irmã, 

segure o tempo um pouco mais, 

enquanto pesquisamos 

conchinhas coloridas 

deixadas nas areias úmidas da praia. 


Percorramos este vasto campo 

onde se esvai o caminhar 

entre as margaridas, 

enamoradas da relva homogênea, 

destacam-nas...


Lembra-te? desaparecemos nelas...


Alça-me além 

dos escombros inevitáveis 

nestes teus beijos líquidos, 

pesquisam linguas extintas, 

adiam meu féretro. 


Querida irmã,  alma minha!


Tu és a marca 

formada em meu rosto, 

fotografia em que me revelo 

inteiramente em ti, 

passos de meus tropeços, 

tão constantes

imagem que me distrai, 

despenca no caminho. 


Leva-me junto a ti, 

incapaz de ti, 

carente de ti.


Amada irmã, 

enciuma-me o beijo 

matinal do Sol,  

o banho noturno 

de afagos 

da Lua...

te acompanham 

em minhas ausências, 

velho e pequeno


Lembra-te de como 

percorremos em silêncio 

as grandes distâncias 

dos ocasos, 

tudo se encaixava 

como azulejos azuis, 


 Tudo era possível!


Onde tocávamos 

encontrávamos vida, 

mesmo nas pedras, 

impecáveis 

disformes...


Agora a hora se despede...

mostra-me então a noite, 

sigamos este pouco juntos, 

sonâmbulos do amanhã, 

olhemos o entorno construído, 

como reagimos 

aos clamores que ouvimos, 

ainda ecoam, 

como choramos o mundo...

certos de não errarmos o destino.


Venha! 


Ainda temos história nas mãos...

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

ENJOO INTIMO



Chega de mim!


Entorto-me como gostam...


Chega que me cego, 

nublado do que descarrego 


Chega do novo asfixiado 

nas entonações previstas.


Busco o afago 

das montanhas 

ansiosas de visitas, 

lágrimas que sugam o mar


Que se vá o vil 

que sempre me precede, 

e perca-me no silêncio 

dos seios protegidos .


Fujo de tudo, 

quem sabe descubra 

o ponto onde esqueci 

o nada badalando o tempo.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

VAGO...

 

A margem estreita do rio 

retém censuras 

a muitas desventuras


O tempo entretém-se

em se olhar, 

antes de se atingir, 

diante do alto mar.


Desvendam-se fases, 

despedidas de andores, 

devidas medidas 

colocadas a amores.


A distância trás 

apurado olhar, 

sem a ânsia 

do momento, 

reflexão ao analisar. 


Minha nau 

vaga solta, 

vento a popa 

nas velas

sem escolta, 

sequelas...


Abre-se a mistérios, 

descobertas,  

busca por justiça, 

luta a impérios.


No mais, 

de tudo 

se desfaz, 

examina mapas, 

revê rotas, 

refaz

SOMATÓRIA

  


Como pode a vida 

somar história 

de todo um tempo 

no presente?


Emoções concentradas 

umas sobre as outras, 

como o coração suporta?


Batem a porta!

Recusam-se desaparecer, 

fazem parte.


Se deixo, 

sou invadido 

por uma integridade 

desaparecida.


Pergunta-me ainda 

se a sustento, 

se sofro, 

relego...


Quer saber 

quanto de mim 

está aqui, 

agora?


Se despedi-me, 

tornei-me outro, 

sobram derrotas, 

ou caminho 

confiante de mim...


Vou pelo caminho 

semi consciente 

da continuidade, 

embora sendo eu, 

muito me estranho

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

VARAIS

 


Coloco minhas roupas 

para secar no varal,

ao lado da jaboticabeira,

o sabiá alegra-me com o dia.


Aproveito que o Sol 

me invada também, 

secando a sujeira 

que ficou de ontem.


Prendo com grampos 

a rigidez na roupa úmida, 

certo que os ventos 

sacudam a rabugice 

para longe


Estico na roupa a ser presa,

essa lingua tagarela, 

para que possa calar-se, 

deixando os demônios enjaulados


No primeiro varal 

ficam as mãos erguidas 

com roupas 

tiradas dos ombros, 

pesam, 

clamando um despertar 

diante de tantas situações, 

eu tão omisso...


No último 

ficam as peças 

menos usadas , 

secam na sombra, 

demoradamente, 

estão cansadas 

do uso contínuo, 

torcem por novidades.


Dependuro a esperança 

no calor do dia, 

com a certeza 

de recolhê-la à tarde, 

guardá-la para o amanhã 

nem tudo é para hoje,

estarão preparadas.


Meus varais estão 

sempre à espera,

aproveitam a luz, 

o calor, 

os ventos

prendem a ordem 

seguram a vida 

que balança...

FINAL DE NOITE

  Como temos sobrevivido meu amor... um  mundo que não nos entende, nos leva em mar tempestuoso, jogando o barco de um lado ao outro. Queria...