Como temos
sobrevivido
meu amor...
o cotidiano contado e meditado
Como temos
sobrevivido
meu amor...
Vivo de limites...
Estão por aí,
em quase todos
os lugares.
A eles me submeto,
me adapto,
confronto...
a outros rejeito,
e por fim,
outros ainda estabeleço.
partes fundantes da vida.
Com os limites
mantenho uma relação
de paz e guerra.
De paz...
se andam de acordo
como vejo e ajo;
de guerra...
quando me obrigam
a contragosto,
guardar-me
do que digo e faço.
Grande parte destes limites
não estão explícitos,
fazem parte
do subentendido,
vigiando no silêncio.
As palavras batem-se,
constantemente,
a contragosto,
nos muros da convivência,
diferentes olhares,
até definirem
o que deve ser dito,
e o que deve calar-se.
Talvez o primeiro choro
tenha passado por fora...
talvez o amor desconheça regras
é porque é...
por isto perseguido
Se olho atento,
percebo-me um prisioneiro
social e individual,
um catálogo
com nome e registro.
Ai os horários
que lembram
nossos tempos
todos delimitados.
Agora tenho
que por um fim,
um limite,
e chega!
Desperta-me, minha irmã,
segure o tempo um pouco mais,
enquanto pesquisamos
conchinhas coloridas
deixadas nas areias úmidas da praia.
Percorramos este vasto campo
onde se esvai o caminhar
entre as margaridas,
enamoradas da relva homogênea,
destacam-nas...
Lembra-te? desaparecemos nelas...
Alça-me além
dos escombros inevitáveis
nestes teus beijos líquidos,
pesquisam linguas extintas,
adiam meu féretro.
Querida irmã, alma minha!
Tu és a marca
formada em meu rosto,
fotografia em que me revelo
inteiramente em ti,
passos de meus tropeços,
tão constantes
imagem que me distrai,
despenca no caminho.
Leva-me junto a ti,
incapaz de ti,
carente de ti.
Amada irmã,
enciuma-me o beijo
matinal do Sol,
o banho noturno
de afagos
da Lua...
te acompanham
em minhas ausências,
velho e pequeno
Lembra-te de como
percorremos em silêncio
as grandes distâncias
dos ocasos,
tudo se encaixava
como azulejos azuis,
Tudo era possível!
Onde tocávamos
encontrávamos vida,
mesmo nas pedras,
impecáveis
disformes...
Agora a hora se despede...
mostra-me então a noite,
sigamos este pouco juntos,
sonâmbulos do amanhã,
olhemos o entorno construído,
como reagimos
aos clamores que ouvimos,
ainda ecoam,
como choramos o mundo...
certos de não errarmos o destino.
Venha!
Ainda temos história nas mãos...
Chega de mim!
Entorto-me como gostam...
Chega que me cego,
nublado do que descarrego
Chega do novo asfixiado
nas entonações previstas.
Busco o afago
das montanhas
ansiosas de visitas,
lágrimas que sugam o mar
Que se vá o vil
que sempre me precede,
e perca-me no silêncio
dos seios protegidos .
Fujo de tudo,
quem sabe descubra
o ponto onde esqueci
o nada badalando o tempo.
A margem estreita do rio
retém censuras
a muitas desventuras
O tempo entretém-se
em se olhar,
antes de se atingir,
diante do alto mar.
Desvendam-se fases,
despedidas de andores,
devidas medidas
colocadas a amores.
A distância trás
apurado olhar,
sem a ânsia
do momento,
reflexão ao analisar.
Minha nau
vaga solta,
vento a popa
nas velas
sem escolta,
sequelas...
Abre-se a mistérios,
descobertas,
busca por justiça,
luta a impérios.
No mais,
de tudo
se desfaz,
examina mapas,
revê rotas,
refaz
Como pode a vida
somar história
de todo um tempo
no presente?
Emoções concentradas
umas sobre as outras,
como o coração suporta?
Batem a porta!
Recusam-se desaparecer,
fazem parte.
Se deixo,
sou invadido
por uma integridade
desaparecida.
Pergunta-me ainda
se a sustento,
se sofro,
relego...
Quer saber
quanto de mim
está aqui,
agora?
Se despedi-me,
tornei-me outro,
sobram derrotas,
ou caminho
confiante de mim...
Vou pelo caminho
semi consciente
da continuidade,
embora sendo eu,
muito me estranho
Coloco minhas roupas
para secar no varal,
ao lado da jaboticabeira,
o sabiá alegra-me com o dia.
Aproveito que o Sol
me invada também,
secando a sujeira
que ficou de ontem.
Prendo com grampos
a rigidez na roupa úmida,
certo que os ventos
sacudam a rabugice
para longe
Estico na roupa a ser presa,
essa lingua tagarela,
para que possa calar-se,
deixando os demônios enjaulados
No primeiro varal
ficam as mãos erguidas
com roupas
tiradas dos ombros,
pesam,
clamando um despertar
diante de tantas situações,
eu tão omisso...
No último
ficam as peças
menos usadas ,
secam na sombra,
demoradamente,
estão cansadas
do uso contínuo,
torcem por novidades.
Dependuro a esperança
no calor do dia,
com a certeza
de recolhê-la à tarde,
guardá-la para o amanhã
nem tudo é para hoje,
estarão preparadas.
Meus varais estão
sempre à espera,
aproveitam a luz,
o calor,
os ventos
prendem a ordem
seguram a vida
que balança...
Como temos sobrevivido meu amor... um mundo que não nos entende, nos leva em mar tempestuoso, jogando o barco de um lado ao outro. Queria...