sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A morte do militante esquecido

Muitos militantes, refiro-me aos antigos militantes, aos que lutaram contra a ditadura militar no Brasil, quando veio a democracia, de alguma forma se desencantaram com o novo formato.

Foi como se houvessem recebido uma ducha de água fria.

Depois de tantas lutas, uma abertura significava uma grande virada de página, uma retomada do caminho particular, de sobreviver, uma vez que o grande obstáculo havia "desaparecido", vamos dizer assim, não é verdade, mas vamos acreditar que sim.

Fazer uma carreira quando ainda jovem é um fato, mas fazer uma carreira já com alguma idade, porque perdeu o seu tempo nas lutas, é outro fato muito mais complicado.

Com muitos dos militantes que sobreviveram aconteceu exatamente assim, saíram tardiamente à busca de algum emprego.

Não me refiro aos crustáceos, aos que se apegam às pedras do poder. Estes sobreviveram e sobrevivem fartamente. Vai fazer oquê? Ossos da democracia.

Hoje quero reverenciar a morte de Roldan. Para ser sincero nem me lembro ou sequer sabia de seu sobrenome.

Isto era algo que evitávamos saber ou dizer. Teve um enfarto fulminante e pimba, foi para o nada, ou não foi se era ateu, ou vai descobrir que suas concepções estavam erradas. Quando morrermos saberemos com quem estava a razão.
Roldan liderava o PCdoB na PUC, nos idos da queda da liderança na Lapa.

Era um jovem magro, de rosto fino, e voz arranhada.

Tinha uma alegria de quem descobrira seu caminho.

Por isso, tinha muita convicção sobre o que queria.

Era muito diretivo. dissera-me para candidatar-me à Deputado Federal. Respondi-lhe que perderia as eleições, e ele retrucou-me que deveriam sair dois candidatos, uma pelo proletariado e outro pelas classes médias.

A realidade mostrou que todo o setor médio existente no partido foi para a candidatura de Aurélio Peres, num chado obreirismo e o bacana aqui ficou praticamente sozinho comendo milho na rua por uns parcos 5.000 e alguns votos.

Era o Roldan. Via na posição partidária uma sobrevisão, o que, a meu ver hoje, não correspondia à verdade.

Mais centralismo e menos democracia. Como era pessoa de partido, aceitei a incumbência mesmo discordando.

Os fatos mostraram o erro.

Entretanto ninguém veio a mim dizer que fora um erro.

Havia uma unanimidade de que fôra bom para o partido.

Sim, alguns eletricitários haviam sido recrutados, estudantes, mas o saldo pessoal foi dramático.

Nas empresas onde eu entrava para fazer teste de admissão apareciam sempre aqueles que me conheciam e me cumprimentavam alegres com minha presença, o que fazia eu ser descartado em seguida do emprego.

Passei por algumas perseguições internas do Roldan, mas não guardo mágoas dele.

Eram tempos difíceis.

Hoje quero apenas reverenciar sua morte e dizer que ele foi uma boa pessoa.

Um líder reconhecido na PUC.

À propósito, participei de uma Assembléia clandestina da PUC e células da Zona Oeste, onde as deliberações eram aprovadas por aclamação, e a aclamação era feita com os estralar de dedos.

Detalhes da época.