quinta-feira, 30 de outubro de 2025

INCONSTANTE

 


Certos corações 

só com picareta...

o meu, 

certamente, 

um destes, 

duro, 

inodoro, 

indiferente.


Precisa lapidação 

constante, 

oração sobre oração...


Bate por fora, 

por tudo 

o que é vil...

se não seguro, 

perco o sentido 

da vida; 

imaturo,

vai-se embora...


Ao lavar-me no Espírito, 

me dou conta 

da infinita distância 

entre Deus e eu, 

erva daninha 

a gemer em grito, 

sua inconstância.


Descubro diariamente   

este coracão 

que ao mal 

se aninha, 

fora de si, 

em agito...


Despeço-o 

ao desnudá-lo;

recoloco-o 

em seu devido lugar, 

batendo novamente, 

constante, 

desejoso de amar

SONHOS PERIGOSOS

 


Os sonhos proscritos...

destes, guardo 

profundo silêncio.


Tornam o olhar límpido, 

transformação completa 

encantos esquecidos, 

escritos


Ocultos, 

trazem amores, 

insepultos,

escondidos, 

distraídos 

da idade, 

do tempo.


Tudo era perfeito, 

e não via...

agora refeito, 

vejo o que perdia.


Recolho sonhos 

na memória 

como relíquias 

sagradas, 

esculpidas 

num passado remoto. 


Proibidos de vir à tona, 

descobrem 

das montanhas 

seus femininos 

contornos, 

expõem segredos, 

adornos

sob as torres construídos.


Devem permanecer 

dormentes, 

trancados, 

em eterno alvorecer...


Os tijolos de tua escola, 

minha Ouro Preto, 

o escalar 

de tuas ladeiras,

guardo, 

neste livro,

a imagem primeira, 

derradeira.


Deverias existir 

mais que sonhos...

realizados inteiros, 

perigosamente 

consumidos...

FERIDAS

 


Vou deixando por fazer, 

nesta longa estrada, 

eu tão falho.


Vão ficando feridas, 

abertas, 

esquecidas,  

neste caminhar 

de atalhos.


Vou como quem 

não pensa, 

não sabe, 

incensa..


Se chego 

em algum lugar, 

surpreendo-me 

com o nada, 

vulgar.


Vou cuidando 

de feridas 

no tempo, 

e haja unguento...

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

VIDA PEQUENA

 


Quem não sorri 

por sorrir, 

sustenta rancor 

por razão 

seja qual for,

apequena a vida 

mantendo-a contida.


Vencer-se das dores , 

dar espaço às  flores, 

destituir o olhar  

das márgens, 

entregar-se 

ao mar profundo, 

é a razão de ser 

neste mundo.


Oprimir-se 

além do oprimido, 

Faz o opressor rir-se 

do gemido 

escondido


Há um passo 

além, 

pessoal, 

transcendental, 

aguardando 

alguém, 

esquecido 

no aquém.


Há sempre novo, 

esperando eclodir, 

qual um ovo, 

nascer de si, 

morto, 

mártir...


O Sol queima, 

a Lua embriaga, 

o vento afaga 

a tez desnuda...

descubra 

o calor, 

o amor, 

alento.


A vida impõe-se 

a todo instante

domingo, 26 de outubro de 2025

INTRUSO

 


Tem dia em que o vazio vem visitar-me.


Traz consigo uma tesoura  

e passa a recortar a palavras. 


Chega mesmo a separar as letras, 

pondo tudo de cabeça pra baixo.


Infunde um medo profundo 

de que o nada exista 

e apague o que foi construído.


Esperou que os amigos 

se distanciassem, 

aproveitou-se da solidão 

e veio,

observando para ver se desabo.


Esqueceu-se dos ensinamentos 

que aprendi com minha mãe, 

as descobertas inconfessáveis 

que experimentei.


Esqueceu-se que me reconstruo...


Por isso estou aqui.


Por isso ainda escrevo

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

PEDRINHAS

 


Sou um produtor 

de pensamentos, 

vem 

não sei de onde, 

vão 

sabe-se lá para onde...


Incógnita em mim, 

interpela, 

aprofunda, 

cansa 

da falta de respostas,

depois se acostuma 

com o desconhecido,  

tratando-o naturalmente.


Lembro-me das pedrinhas 

jogadas nos lagos, 

a diversão de vê-las 

saltarem na água...

como me divertiam 

as pedras e a água. 


Sinto-me, às vezes 

como estas pedrinhas, 

lançado forte

resvalo em algo 

aparentemente sólido 

que não é,

vida curta 

para tantas perguntas 

jogadas ao tempo.


Hoje, 

submerso

percorro as noites 

numa pesca 

fragmentada de mim...

NOITE ALTA

 


Preciso de amigos, 

antes que amanheça.


Tenho algumas pedras 

nos apetrechos da viagem, 

pesam...


Estão fora do tempo, 

não saem, 

não se limpam, 

compõem a roupagem 

com que me cubro 

diariamente.


Só eles podem me ouvir, 

confidenciamos tanto...


Aceito o silêncio e a solidão 

como algo inevitável 

para quem medita...

não é possível trazê-los 

em meio à noite.


Espero o amanhecer 

até tudo calar-se, afinal.


Aguardo...

terça-feira, 21 de outubro de 2025

AMÁLGAMA

 


Deixei os dedos 

desenharem teu corpo, 

descobriam o sono eterno 

das grandes distâncias 

a serem percorridas.


Aos poucos 

tornou-se um canto oculto, 

vindo por sobre os montes, 

sem origem.


Seu fremir 

semi enlutado 

venceu as horas, 

lânguido despertar 

das serpentes.


Tremeu a Terra, 

inebriou-se o ar 

de um perfume novo.


Deste encontro 

de peles e beijos 

nos desaparecemos 

do mundo.


Encontrou-nos o dia, 

estranhando a força 

com que  deslizamos 

os espaços disponíveis...

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

PAPELÃO SOCIAL

 


Sinto frio, 

recolho-me num papelão 

embaixo de uma marquise, 

protegendo-me...


Chovem distâncias...


Tornei-me

objeto de rejeição 

de todos.


Por que não morre? 


Por que está aqui?


É um inútil!


Acusam-me de manchar 

a ordem das coisas, 

estragar a beleza 

dos ambientes, 

atrapalhar o comércio...


Sou expulso 

dos lugares, 

périplo repetido 

de sobrevivência...

da praça para a rodoviária, 

da rodoviária para a praia, 

da praia para um beco, 

do beco a praça, 

rodízio de estacões,

viagem permanente 

de sobrevivência, 

driblando 

o esquecimento 

dos poderosos.


Retirei de mim 

toda sorte de orgulho 

para manter-me vivo, 

já quase 

não me visto, 

não me banho, 

faço a barba.


Os que passam 

por mim,

apertam o passo, 

se afastam..


Tornei-me mais 

que oprimido...

um repugnante, 

sequer me tocam.


Tenho feridas expostas, 

ninguém faz um curativo...


Estão todos 

muito bem, 

escondidos 

em suas estruturas, 

se bastam,

castelos de areia, 

iguais aos das criancas 

nas praias, 

ao final 

são desfeitos

nada resta

de tudo 

construído. 


Aprendi a rezar 

melhor que o padre, 

mais alto que o pastor, 

sinto-me ouvido, 

nada material 

ou físico, 

nada visível, 

mas real


Sigo deitado 

embaixo 

de uma marquise, 

nos bancos 

das pracas, 

praias

onde me esquecerem...

chuva permanente 

de exclusão, 

contraponto da ordem...


Quem me vê 

não dá nada, 

não valho 

um tostão...

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

ALTAS HORAS

 


Não resisti à noite, 

rendi-lhe a energias 

tardiamente,

por hora do cantar 

do galo.


Enquanto isso, 

cevava as palavras 

que  passeavam livres, 

impossível retê-las.


Desatento, 

retive apenas

 as joias primeiras, 

fiz delas 

a sequência lógica 

dos versos.


São o refúgio 

da realidade, 

abrandadas 

pelos enlaces 

das palavras.


Deixam 

pequenas 

descobertas, 

despertam 

da letargia.


Satisfaço-me 

com o pouco, 

rouco declamar.

FÉRETRO VERBAL

 


Meus poemas 

não adormecem, 

sonambulam,  

insatisfeitos 

e incompletos.


Nada os encerra, 

enredos parciais, 

voláteis, 

de um absoluto infinito.


Sofrem, 

sem fingimento,

todas as dores 

do mundo.


Angustiam-se 

com a solidão, 

a indiferença humana


Suas letras 

choram as partidas 

olhando de frente, 

não suportam falsidades.


Suas lágrimas 

borram os versos, 

mal representam 

as dores.


Escondem-se, 

vulneráveis,  

do tempo inexorável 

que a tudo constrói, 

desconstroi.


Ficam ali, 

nos cantos da vida, 

até que alguém 

ouça o coração, 

raro coração.


Retrato escrito 

do féretro verbal, 

enterro do verso

tumba do livro

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

REINVENTAR



Tempo de se reinventar, 
descobrir-se limitado 
para sua época. 

Deixar de ser o mesmo, 
para tornar-se outro 
do que é e faz.

Obrigado a redescobrir-se 
de sua nudez, 
repensar meios, 
otimizar trajetos.

Porque existe 
um mundo de cobranças, 
que ultrapassa 
constantemente 
nossas capacidades, 
difícil acompanhar, 
estar à frente...
é para poucos.

Há um evoluir diário 
que vai descartando 
relações,
processos, 
produtos, 
carreiras, 
até hábitos,  
numa voracidade ímpar.

Quando vemos, 
é como 
se convivêssemos
em mundos paralelos.

Assim o percurso 
torna-se uma corrida, 
a vida uma Olimpíada, 
nosso tudo 
um nada

Em outras dimensões 
também, 
de alguma forma, 
precisamos redescobrir-nos.

Guardamos capacidades 
para todas as possibilidades, 
desafiamo-nos 
diante da vida e do mundo, 
sempre arrancando cascas...
impedem renasceres. 

Somos uma mutação 
humana
desconhecida, 
que evolui 
sem saber como 
sem saber para onde...

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

MEDITANDO

 


A vida é uma permanente surpresa, 

traz alegrias e dores juntas, 

desafia nossa paz 

enquanto caminhamos.


A montanha não termina seu escalar, 

íngreme desafio de todos os dias. 


O Sol cobra a obrigação de vencer. 


Às vezes nos expomos, 

outras vezes nos escondemos. 


Nunca satisfeitos buscamos transcender.


Muitos nada cogitam, 

prendem-se em varais, 

ganham vida à mercê 

dos ventos quentes 

que sopram vindos do mar..


O tempo é incerto, 

não sabemos quando se acaba, 

para de contar

os anos, 

os dias, 

num eterno esperar.


Observo 

em meditação solitária 

este universo humano, 

e guardo o amor 

como uma ponte

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

PORVIR

 


As novas realidades 

absorvem e somam, 

dividem o tempo, 

os trajetos... 

são espaços estendidos 

de nós próprios,  

enquanto agimos.


Tornam-nos repartidos e expatriados 

de vários projetos.


Abraçamos inalcansáveis sonhos 

de um mundo novo, 

a construir.


Permanentemente ilimitados, 

habitamos umbrais legados 

de gerações e civilizações.


Fazemos tudo novo, 

desconhecidos da História, 

descontentes da herança. 


Lançamos bandeiras novas 

diante da milenar dominação 

e encerramos a vida 

sem ver o porvir.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Trazido pelo amigo Ivan Vilela


 



 
Às vezes me vejo 

neste barco inclinado 

na areia à beira mar.

Alega os anos...

não sabe estar 

longe do oceano. 


Deixo a proa 

preparada para as ondas 

Chacoalho antes que venham...





DISTANTE

 


Tão grande a distância,

vácuo profundo...

olhos semi abertos 

semi cerrados, 

encerrados,

escuro profundo, 

alvorecer diurno.


Obra sempre incompleta 

de algo ou alguém, 

não se define 

não se percebe 

não alcança.


A vida se descobre 

nos limites, 

angústia de irrealizacões, 

sonhos permanecem 

se desfazem

Inalcansavel amanhecer

Interminável poente.

LINHA SOLTA

 


Puxo uma linha 

no decorrer do dia.

suspensão do real, 

descobertas fortuitas 

que afloram.


Hiato se faz 

da continuidade ociosa, 

trazendo presentes 

esquecidos no tempo


Sem contratempo 

ponho-me a indagar 

se o transcender em si 

já nao é um ato 

de se salvar.


Porque os olhos procuram 

permanentes saídas 

nas flores 

aromas, 

verdes mares, 

olhares.


Busca que rebusca 

o que não vê  

no que vê, 

cegueira, 

realidade proscrita.


Há uma linha solta em mim, 

em algum poço profundo,  

que me faz pescar...

OPOSTOS

 


O que eu quero não digo, 

busco abrigo


Não sou quem digo, 

sou maldito.


Não falo o que sei

Calo o que pensei.


Tenho o beijo guardado

desejo que almejo. 


O tempo desfaz

a desfaçatez incapaz. 


Vou como quem disfarça.

em meio a farsa.


Meu tino é desatino

chegada de destino.


Caminho de desencontros, 

opostos que se encontram

FINAL DE NOITE

  Como temos sobrevivido meu amor... um  mundo que não nos entende, nos leva em mar tempestuoso, jogando o barco de um lado ao outro. Queria...