segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Coração endividado


Meu coração teve sua nota rebaixada
pela Standard & Poor’s.
Já não bate forte
como antes
os projetos
o desdobrar-se
contínuo
sobre os limites
reconhecidos.

Nunca teve um
AAA,
coração potência,
mas contenta-se
com um
AA+
emergente,
convivendo
com pobreza
confusão.

Não resistiu
às pedras
do caminho
enfrentadas
por Drummond.

Não conseguiu
manter a eterna chama,
De Vinícius,
muito menos descansa
No Pátio do Colégio
De Mário de Andrade,
analfabeto
da vida.

Coração drogado
Segue ermo
Nos becos
Da cidade.

Tudo lhe encanta
Sem produtividade.

Tudo lhe apraz
Sem objetivos.

Coração rotineiro,
Acorda agradecido
por saber-se finito.

Põe-se de pé,
pesquisador
do novo,
ainda que os batimentos
disfarcem o ânimo,
que o ritmo valseie.

Rebaixado
reconhece
a extrema
insensibilidade
de doar-se,
a dureza
de seus passos.

Coração
desviante
seleto.

Às vezes
esguio,
às vezes
ereto.

Coração de rico.
As agências
indicam
a necessidade
de uma grande
transformação:
é preciso
mais naturalidade
nos contatos,
menos indiferença
com os pobres.

É preciso
possuir 
a atitude
principal
para a qual
foi chamado:

O amor.
Coração
esquecido
de sentido.

Falso coração
pleno de orgulho
enche-se qual
um mal de chagas
que pouco dura
e logo morre.

O mundo 
clama
um coração
pujante
sem freio,
Errante...

Coração de carne
não de pedra,
coração ligado
às veias
do povo,
circulando vida
no organismo
social.
(João Paulo Naves Fernandes)