segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O GARLINDO



Não! As pessoas não se apercebem que tem ódio... 

Por alguns anos moramos, eu e minha esposa, na Barra Funda, esquina da Lopes Chaves com Sérgio Meira, em um pequeno apartamento, vivenciando, anos mais tarde, o ambiente já carcomido, onde viveu Mario de Andrade. 
Por vezes ia a pé até o Metrô que fica na Praça Marechal Deodoro, transformada em dormitório e ponto de encontro do povo da rua, mais lojistas, moradores... 
Seguindo a Lopes de Oliveira passava, frequentemente,  diante de uma pequena loja de conserto de eletrodomésticos. 
Era quase uma garagem, um pouco maior. 
O  dono, um senhor simples, de meia idade, recebia todo tipo de eletrodoméstico que lá ficavam empilhados esperando o dia do conserto, sabe-se lá quando. 
Fazia permutas também e vendia outros, reformados. 
Havia ganho de presente um pintinho, e não sabendo muito como fazer, foi dando-lhe as migalhas do almoço e dos lanches. 
Assim cresceu um galo esbelto e charmoso. 
O dono, de tanto admirá-lo, decidiu chamá-lo de Garlindo, porque era um muito bonito. 
Era inusitado passar ali, numa região movimentada e observar, entre os cães e gatos, um galo passeando pela calçada. 
Garlindo tornou-se muito querido pelos moradores do lugar. Não dava muita bola para as pessoas, mas também não se intimidava e convivia bem no meio da multidão. 
Dormia na garagem, em meio aos eletrodomésticos, e o dono não se importava quando aparecia, aqui e ali um sujeirinha, logo removida. 
Um dia, como crescesse o serviço, este homem contratou um funcionário para ajudá-lo no serviço. Era um período de progresso. 
Passando pela calçada, uma ocasião, percebi que o Garlindo não se encontrava. 
Chamei o proprietário para perguntar-lhe do galo. 
Este, muito choroso contou-me que o seu funcionário havia dado um pontapé no Garlindo que estava muito mal. 
Havia até despedido o funcionário. 
Pedi que me trouxesse o Garlindo, e prontamente o pegou trazendo-o pelo colo. Estava todo machucado. 
Acariciei-lhe a cabeça e o Garlindo fechou os olhos com o passar de minha mão. 
Roguei a Deus pela vida  daquele inofensivo animal, mas não teve jeito. 
Morreu no dia seguinte...
Como é fácil fazer alguém perder a esperança na Humanidade! Como apenas uma pessoa, bronca, sem lar, pode ser gratuitamente má. 
Guardo esta lembrança não sem uma revolta contra os pobres de si mesmos, os desvalidos de si mesmos, os ignorantes mais profundos, por sentirem-se bem nesta condição sub-humana, e não se disporem a ver a vida e a sua beleza. 
Observo como o Deus não deve sentir-se com tudo isto, e calar-se, em respeito à liberdade que deu aos homens.