sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Conjuntura e consciência política no Brasil. Reflexões sobre o golpe

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Gostaria de refletir com vocês as mudanças que estão ocorrendo na consciência política das pessoas depois destes acontecimentos recentes na História de nosso país. A consciência de um povo, e principalmente de suas lideranças passa por várias maturações, de acordo com o desenvolvimento econômico de cada época, e da compreensão que fazem da política.

 Quadro Geral

Passamos por mais de uma década de Governos desenvolvimentistas com distribuição de renda, à partir de Lula, e depois Dilma Roussef. Nestes, grandes parcelas da população puderam experimentar ganhos sociais expressivos, a ponto de alçarem outros patamares sociais, antes inimagináveis.
Não foram conquistas obtidas diretamente das lutas do povo, mas, consequência destas, acessadas por iniciativa de  governos populares, que combinaram, dentro de uma conjuntura internacional favorável, desenvolvimento econômico e distribuição de renda, acontecimento nem sempre fácil de ocorrer nos marcos do capitalismo.
Não se mexeu no setor financeiro, nem no latifúndio, muito menos no setor produtivo, restringindo-se a ampliação das empresas estatais.
Fêz-se uma distribuição de renda aos mais pobres, revestindo-os com diversos outros programas sociais.
A consciência destes segmentos beneficiados, entretanto, longe de identificar os autores destes benefícios, assimilaram, isto sim, a ideologia das antigas elites, e suas benesses, seja atavés da moda, do estilo de vida, do prazer(edonismo burguês) e o dinheiro como fontes de alegria e realização. Tirou-se assim, a roupa do operário, num jargão simples para explicar, e vestiu a grife
As teorias de libertação propagadas na África do século passado, com Frantz Fanon e Albert Memmi, são esclarecedoras deste fenômeno, da identificação inicial do oprimido com a figura do opressor.
Com isto, formaram-se as multidões à sombra de uma mídia interessada em propagar tais valores como principais, enquanto se esquecia do próprio passado.
Assim, observa-se, com o tempo,  uma ruptura, uma perda de identificação entre estratos que obtiveram benefícios e governos "populares". Embora umbilicalmente ligados, mantiveram-se separados, por força da propaganda dos meios de comunicação e do modo de vida burguês que todos defenderam.

Valores burgueses ou valores dos explorados ?

Ter carro, roupas de grife, viajar de avião, eram valores burgueses, que se tornaram valores sociais mais amplos.
Pouco se divulgou sobre a vida solidária, do viver com economia, da ajuda mútua, símbolos comunitários e populares. Ao contrário, esbanjar, sair para comer fora, passear, foi se tornando algo cada vez mais frequente, incorporando-se, por identificação aos valores burgueses de nossa sociedade, como referência do que seja bom.
Não deu outra; o tiro atingiu o pé do governo Dilma.
Não foi difícil ver esta massa toda nas ruas, logo que a crise internacional chegou ao país, em fins de 2013, prensando o governo  na parede. O palco estava montado. Foi uma batalha desigual por dois anos, com uma mídia chamando multidões às ruas, e os setores populares reunindo algumas centenas, até que concluíram o golpe truculento, passando por cima da Constituição e se consolidando no poder rapidamente.

A crise é para todos

E o que parecia ser o nado do cisne sobre um lago de águas mansas, tornou-se rapidamente uma tempestade sobre o golpistas. Sedentos do poder, e ávidos no desmonte de tudo o que foi sendo conquistado e construído nesta década e meia, não se deram conta da permanência da crise.
Porque crise não se resolve só com intenções.
Deve-se também levar em conta as limitações intrínsecas do governo golpista, afrontando, até inconscientemente, de imediato, categorias como a dos artistas, e minorias como as mulheres negros e LGBT, pois não constavam do cardápio burguês de vida; transferido para a formação do ministério, logo mostrou seu caráter discriminatório.
Podemos afirmar, com alguma segurança, que o movimento que levou a queda de Dilma é muito parecido com o que está colocando Temer em frangalhos, embutido no Palácio, e evitando contato com o povo.
A essência é basicamente a mesma: vivemos uma crise prolongada do capitalismo, de grandes proporções, que está levando a um retorno do empobrecimento de camadas que anteriormente haviam ascendido socialmente.
Com o agravante de que as políticas do novo governo, que emergiu do golpe, estão voltadas a arrochar ainda mais as condições de vida da população, que rapidamente vai se dando conta desta sutil mudança.

O Quadro Político

As elites nacionais, indústria, latifúndio, comércio já enveredaram-se em um caminho de radicalização, insuflada pela direita neofascista, provocando uma união sui generis, de neoliberalismo e fascismo,   inconciliáveis, pois sabemos que neoliberalismo pressupõe liberdade econômica e democracia, e neofascismo, autoritarismo.
Assim, nem as elites conseguem defender o Governo Temer, nem os neofascistas, enquanto a esquerda consegue galvanizar a palavra de ordem da defesa da democracia junto ao povo, no #Fora Temer!
Este é o desespero da direita neste momento, ao ver que a esquerda recupera o seu espaço e coloca na parede os golpistas.
Procuram uma saída. Atacar Lula para desviar o foco, como sempre. Mas não será suficiente, porque o movimento pode ultrapassar a figura de sua liderança. Por fim vão concluir pela necessidade de retirar traidor do caminho.

Consciência Política

Hoje, os benefícios alcançados, antes apenas pela classe média, longe de ampliar-se, vai se perdendo, aos poucos, como conquista,  ficando claro quem os trouxe e com qual intenção, reavivando a memória da República Participativa de Lula e Dilma.
Já as vanguardas que tem permanecido nas ruas por estes tempos, tanto na resistência com Dilma, como no atual #Fora Temer, conscientizam-se dos limites da vida política institucional, e da necessidade de uma nova inserção nas massas, convivendo com elas em suas várias formas de expressão.
Conscientizam-se igualmente da vulnerabilidade das concepções legalistas de transformação da sociedade para o socialismo, e repensam este papel, que ficou hibernando por mais uma década.
As ruas, nesta perspectiva, assumem novo caráter, transformador.
Jogada na marginalidade, a esquerda se deu conta de que deve buscar o povo, seu único e verdadeiro aliado de todas as horas, e assim está fazendo a lição de casa.
Por seu lado, as elites, devido ao seu radicalismo neofascistas, acabaram por criar as condições do despertar do povo, uma vez que fecharam todas as torneiras de coalizões.

Frentes democráticas ou Luta pelo socialismo?

Tudo convida a se romper com as frentes democráticas, onde diversos setores, inclusive do empresariado nacional possa participar, uma vez que se estabeleceu um divisor de águas radicalizado pelo neofascismo.
É fundamental romper com este isolamento, à partir das ruas, travando diálogo constante com todos os setores sobre as necessidades de cada um e do país. Tanto a organização quanto efetividade das ações a nível nacional são ainda por damais frágeis
Tudo convida a considerar o debate político sob a ótica do confronto derradeiro para o estabelecimento do socialismo.
 Considero esta leitura precipitada, tendo em vista o grau de desenvolvimento do capitalismo no Brasil, ainda muito disseminado como sonho da população,  desde os pequenos negócios até ocupar lugar nos blocos de multinacionais que dominam a economia como um todo.
Deve-se levar em conta igualmente, que o grande protagonista da História ainda não entrou em cena, isto é o operariado urbano, ainda não deu sinal efetivo de sua presença.
É preciso ser paciente e efetivo, na conslidação de frentes, à partir das ruas, para resgatarmos a democracia popular no país.