segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

EM OBRAS...

 


Vamos ser claros!


Apraz-me a reclusão.

A extensão do tempo 

tensionou-o, 

fundiu ouro puro.


Agora sou eu 

comigo  mesmo, 

lobo solitário, 

desfazedor do nós 

entre nós.


Uivo interior escavando 

descobertas inexploradas.


Ruborizo-me de mim, 

tão presente 

num passado ausente, 

que mal me via.


Busco ver 

o quanto voltar 

para recomeçar, 

sem as delongas 

do corte, 

tão necessário também.


Amém!

O BRASIL ARDE...

 Ardo neste dezembro,  

cozido e ressecado... 

arde o meu amor, 

nos lençóis molhados 

do fim das estações.


Não há mais tempo

sobram momentos 

e o calor...


Vou esgueirando-me 

pelas sombras do meio dia, 

escondida alegria 

desfeita em torpor.


Refaço-me permanentemente, 

desfalece a mente 

o prazer pela vida, 

o sabor...


Seguir para onde?  

Deste fim ninguém se esconde, 

deste jeito, 

assim...


Então vamos, 

no caminho do desmonte, 

fendas dos sonhos 

que refrescam




FRESCOR MATINAL



Vivo das manhãs, 

do frescor, 

sobra da noite, 

em seu embate 

com o Sol.


Os primeiros voos...

saída dos passarinhos 

dos ninhos, 

quando ainda é cedo, 

e a mata dorme.


Vivo das sonolência humana, 

esquecida de sua voracidade diária, 

expulsam os poetas, 

porta a fora das casas.


Vivo de memórias 

permanentemente atualizadas, 

jovem que sobrevive mudo, 

apesar de tudo, 

idade oculta, 

contempla a beleza.


De grandes apagões, 

vivo nas manhãs, 

sem as lágrimas noturnas 

que remexem o corpo, 

nem confesso,  

sono que não vem.


Sou todo matinal, 

esboço sorrisos, 

converso com os periquitos, 

eles nos fios, 

eu nas calçadas, 

elogio suas penagens, 

desejaria abraçá-los,

na liberdade da ausência 

de gente 

descontente.


Pulmões que agradecem 

a fuga dos quartos fechados 

onde o amor se esconde.


Vivo de perceber a vida 

em tudo, 

escudo, 

antes que o Sol 

cresça no céu, 

desabe pessoas nas ruas, 

com suas ambições, 

armaduras, 

uns sobre os outros.


Ah manhã...

me despertas dos apertos.


Tu me salvas diariamente 

dos meus senões...

PROVA

 


Ponho-me à prova 

da censura do mundo. 

Sabendo-me,  

imundo,

um coração 

repartido. 


Nele cabem 

os tortos, 

os convexos, 

os de texto inteiro, 

em seus tinteiros, 

e  os anexos, 

os leves, 

esvoaçantes, 

e os pesados 

atlantes.


Tudo faz parte 

da nossa parte,  

passa ao largo 

ou embebe;

vai dos olhos 

escolher, 

recolher...


Tudo está ali, 

disponível, 

desabrocha 

particular, 

especial,  

espera 

transcendental,

realidade muda. 


Tudo traz 

um presente, 

oculto, 

insepulto, 

no breve 

féretro da vida.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

CONSCIÊNCIA DOS SONHOS

 


Tenho a consciência dos sonhos...

povoam as noites 

As vezes, 

vencem as manhãs, 

mas às tardes, 

ah às tardes, 

são as grandes 

assassinas dos sonhos...


Procuro tornar mais longos 

os horarios dos sonhos;

e a vida, 

com sua dura realidade, 

busca deixar os sonhos 

restritos às noites, 

quando os maus adormecem.


Vivo de sonhos!!


Passo meus dias imaginando 

o fim das estruturas, 

o surgimento da sociedade 

da vizinhança, 

das portas abertas, 

como na velha Olinda, 

das festas em familia, 

numerosa...

MINHA PRIMEIRA TRISTEZA



A minha primeira tristeza aconteceu quando descobri que, afinal, Papai Noel não existia.

Estava em um encontro de final de catequese, num salão cheio de crianças pré adolescentes, num casarão dos dominicanos, na Cardoso de almeida, Perdizes

A catequista, esqueci-me de seu nome (guardei por muitos anos, mas já esqueci), fez uma pergunta a todos e todas que lá se encontravam:

- Quem acredita em Papai Noel?

Eu fui o único a responder em voz alta, erguendo a mão, alegremente:

- Eu!  Eu!

Foi uma risada geral! Todas as crianças já sabiam que Papai Noel não existia.

Naquele dia, naquele exato momento, fui surpreendido,  não pela mentira que fizeram comigo por longo tempo, boa mentira, mas por Papai Noel não mais existir. 

Então não havia quem me mostrasse que o mundo era mágico e bom, e que fosse quem fosse, recebia seu presente sempre nesta época. 

Confesso que o mundo, onde a realidade misturava-se com os sonhos, existia de fato, e que agora tudo ruira.

Eram do meu pai e minha mãe, os presentes que recebia.

Tive que reciclar meus sonhos lá na juventude indo à luta por um outro mundo, sem opressores, mas era já outro tipo de sonho, sonho da dor de um mundo hostil. Sonho por outro mundo, novo.

Se me permitirem deixar uma recomendação aos nobres colegas, digo, sem pestanejar:

Não matem o Papai Noel! Não sejam vocês os que o matam! 

Deixem que o mundo faça este sonho cair.

Quem sabe Deus faça vir alguém que nos recomponha da morte de tão grande sonho, sonho real...

O menino Jesus ainda é muito pequeno e sem nada, para dar presentes...ah se o Papai Noel estivesse lá...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

AVESSO



Desconfie...
desconfie da sala, 
dos móveis...
imóveis, 
conformam,  
confortam

Não se iluda 
com os quadros, 
prisioneiros das molduras, 
escapes do real subnutrido, 
descanso dos sonhos. 

Evite poltronas, 
busque sofás, 
podem ter companhias...

Desconfie dos versos...
são perversos, 
mentem muito

Saia do quarto...
rejeite  dormir
não ter onde ir. 

Quebre o prato,
cuidado com a mesa, 
o perigo das cadeiras, 
matam a muitos. 

Lembre-se,
você é recorte 
sem costura,
impostura...

O banheiro é a sobra 
da liberdade, 
sua verdade, 
nu, 
à vontade

Lá exalte 
teu sexo oculto, 
livre da prisão, 
condenação, 
insulto

Vá aos quintais, 
distraem a quarentena 
eterna. 

Cuidado com a cozinha , 
a vida no estômago, 
enche de vazios

Esqueça tudo!

Até este poema!

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

BEIRA MAR

 


Sou o encontro 

do espumar das ondas 

na areia das praias, 

meio perdido 

do vasto mar, 

meio absorvido 

em terra profunda.


Linguagem lunar e orbital, 

mais espasmos 

de pensamentos tectônicos .


Despeco-me dos fragmentos de Sol, 

reluzem perdidos na superfície, 

descanso do fulgor, 

convite hipnótico dos castos.


Vem dia, ah vem...

em que a lua 

beijará enfim o Sol, 

eclipse das eclipses, 

e vestiremos  

a nudez de volta, 

às vezes dia, 

às vezes noite...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

REVELAÇÃO

  


A experiência pesa 

na revelação, 

difícil lê-la


Possui um suave ouvir, 

um leve aguardar...


Sustenta uma compreensão 

da incapacidade de saber, 

torna-se naturalmente pequena...


Procura formas de aprofundar 

até onde for possível, 

dorme satisfeita, 

refestela-se junto.


Caminha entre pântanos 

até atingir terra firme, 

temporária, 

dorme em paz...


Vive de substratos transcendentes, 

elos transparentes 

das grandes pesquisas de ser.


Passa o tempo 

neste amor desconhecido, 

maturação permanente, 

desconhecida de si, 

ainda que a procure.


Segue acompanhando a vida,

até consumir-se enfim...

domingo, 14 de dezembro de 2025

HORIZONTE DISTANTE

 


Talvez a caneta 

esteja sem raízes,

os olhos julgarão...


Tuso é insuficiente, 

e deixa dúvidas, 

por mais que se tente.


Os grandes desafios 

aguardam...

uma angústia 

permeia as mentes.


Não vem a hora, 

descompasso, 

por isso o sonho 

emerge na realidade, 

deixa marcas.


Vasculho os esconderijos 

da espera 

imaginando outro mundo, 

retiro parte por parte, 

nunca completa. 


Continuo o caminho, 

horizonte distante, 

como quem sabe 

nunca alcançar.


Ainda assim sigo...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

ONDE TE ESCONDES? (Escondido em Casimiro de Abreu)

 


Onde escondi 

os versos 

que não recitei, 

o coração 

que não guardei, 

quando passavas 

por mim?


Explodiam 

como loucos, 

desordenados, 

roucos,

sem saber 

se podiam sair.


Onde estava eu 

quando te vi partir, 

sem pernas, 

sem braços, 

sem palavras ?


Desapareceste 

de meu olhar 

como a gazela 

que se embrenha 

na mata, 

distraída dos perigos.


Meus versos esquecidos

deixam a escuridão 

de um cego 

recitando sua ausência 

perdida

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

SÓ PEÇO...

 


Só peço um tempo, 

não sou dono de mim. 


Também não sou 

dono do tempo, 

para pedir algo, 

apenas cumpro-o, 

obrigatoriamente, 

sem saber direito 

seu proveito.


Tempo para pensar, 

descobrir, 

tempo para agir, 

se este ainda 

for o tempo.


Por isso peço

a alguém,

quem?

se estou 

no aquém, 

no além? 


O que me ajusta? 

Desajustado que sou.


Clamo sim, 

ao infinito, 

ao Deus inaudito, 

que se entorna 

em mim, 

eu nele.


Só por isso peço, 

peco, 

dou um sumiço,  

quem sabe 

ligeiro, 

quem sabe, 

inteiro...


Vou conseguir tê-lo?

Ei-lo!

Já está!

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

HERANÇA VIRTUAL

 


Estou dando o meu lugar para você.


Não se preocupe, 

não se trata de tomar, 

mas de ceder 

amistosamente.


Sei do meu tempo, 

a tarde quando vai terminando 

guarda semelhança 

com o amanhecer, 

na diferença que se dorme, 

eu um notívago. 


Já não distinguo um do outro, 

somo-os do meu jeito. 


Então fique à vontade 

porque os espaços 

e os tempos não tem donos, 

possuem sua própria lógica 

e aguardam serem utilizados, 

tão esquecidos que são. 


Olho para trás 

e vejo duas pessoas: 

uma desfrutando alegremente tudo,

esquecendo-se do entorno; 

outra, centrada e consciente, 

buscando trajetos de Libertação. 


Andam de bracos dados 

nas diversas ocasiões. 


Ainda não encontraram 

a fusão que tanto desejam, 

seguem, uma olhando a outra, 

ora pondo reparos, 

ora caminhando juntas.


Enfim deixo esta herança 

existencial na angústia 

de não saber se alguém 

tomará posse dos despojos, 

se será de algum proveito a outrem.


Difícil dar o lugar que não tenho, 

do tempo que já se foi.

FEIJOADA PARA O POVO DE RUA






 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

INCOMUM

 


Horrível aceitar "amigos em comum".


Sou incomum!


Amizades virtuais revêem 

o sentido da convivência... 

de certa forma desvirtua.


Logaritmo de encontros pré-definidos 


Talvez faça o desserviço 

de romper com tudo isto 

e mudar-me 

para uma região desértica, 

onde possa encontrar-me livre 

para os naturais confrontos amigos.


Pedir amizade 

é muito incomum 

para algo tão natural.

IMANENTE

 


Não se enquadram 

as flores 

com as estruturas.

Como entender 

seus segredos ?


A rua excita,

A janela excita,

A TV excita, 


Absorvem as horas 

em suas demoras.

Como parar o tempo

um tempo?


Detenho-me nas flores 

seus dissonantes aromas, 

escalam escarpas, 

suspendem perguntas.


Divisória inaudita 

retém 

o que contém 

até desabrochar-se.


Silenciosa jornada das flores

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

ENCONTRANDO E PERDENDO



Perdi-me nas certezas

Encontrei-me nas dúvidas. 


Amei sem me perguntar 

de algo,

como estava (?)...

brotou de uma mansidão.


Fui polindo a justiça 

no decorrer da vida, 

certo de que 

a via incompleta.


Não consigo aceitar 

a verdade plenamente, 

por respeito a ela...

sempre traz novidades.


Me pergunto sobre a perfeição, 

como se sustenta?

porque nada existiria.


Posso sonhar...

devo sonhar, 

como viver sem sonhos? 


Tento ajustar 

meus pensamentos 

às árvores, 

aos rios, 

ao céu, 

o mar.


Pensar conforme vejo, 

e tambem inverter, 

para guardar-me 

um pouco de pensar, 

mas ser um no meio.


Caminho um mesclado social, 

meio perdido de mim, 

meio me encontrando nos outros.


Em suma, sigo aberto 

este final de tempo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

SONHOS VÃOS

 


A solidão me tem 

como companhia, 

espremida

contra o vazio.


Seus sonhos vãos 

seguem defasados 

do tempo, 

talvez perdidos.


Sequer cogitam voos, 

apenas esvoaçam 

passados distantes. 


Seus pássaros pensam 

mundos refeitos, 

a despeito 

de suas altitudes 

intangíveis, 

cessam...


Desfaço-me a pensar 

se ainda volto à realidade, 

ou disfarço uma presenca muda.


Observo....

DOCE ADORMECER

 


Dorme pequena, 

assim também 

dormem suas dores 

tão despertas.


Surpreendem-te 

as marcas do tempo 

em teu corpo...


Fostes gazela solta 

em campos de girassois,  

voltados a ti, 

tua luminosidade.


O vento enamorava-se 

de teus cabelos, 

desejoso de encarnar-se, 

despedida etérea.


Teus passos 

paralisavam ambientes 

ritmos inconscientes.


Fostes meu princípio, 

gerado em ti, 

desconhecido de mim, 

até então. 


Fostes meu tudo, 

quando percorria ermo 

as pegadas do destino, 

circulares.


Hoje somos fusão, 

próximos de nós, 

esperanças realizadas.


A verdade 

encravada na vida 

a faz dormir, pequena, 

junto às dores. 


Desperta!

Enciumam-me teus sonhos, 

banido noturno de ti.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

ANÔNIMO

  


Levo recordações 

entremeadas de amor, 

deixadas ao longo 

da estrada.


Fingem-se de presença, 

deitadas no tempo.


São beijos em suspensão, 

fugas sorrateiras, 

descobertas de verdades 

enterradas nas perseguições.


Tanta vida 

tornou tudo 

morte 

depois


Alimento o presente

com a força construida 

das orquídeas brancas 

não murcham, 

resistem


Resguardo o espaço 

da herança erigida 

na história anônima, 

sem exaltação, 

sem poder...


Conserva uma consumação,

sangue  branco da paz

INDIVISÍVEL

   Ai, que meus olhos se dividem,  entre olhar e desviar. Ai que meus pensamentos  debatem caminhos,  entre o furor da imaginação,  e a apre...