quinta-feira, 24 de maio de 2012

A idolatria de Deus

Cada segmento religioso dentro do cristianismo escolhe os setores responsáveis pela idolatria, utilizando este expediente para desferir golpes uns nos outros, numa guerra doutrinária que ofende o próprio Deus. Mas vamos lá.

Os evangélicos e demais correntes pentecostais escolheram como mote da idolatria as imagens de santos, santas , e até de Jesus Cristo, porque "Deus não pode ser retratado". Remetem-se, entre outros textos, ao  "Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra", Êx 20,3-4

Têm, em contrapartida que Jesus Cristo é o único mediador, e ponto final.

Com isto todos o católicos tornaram-se idólatras, pois adoram deuses falsos, e, consequentemente, não serão salvos, a depender da Misericórdia de Deus, graças a Deus.

Este Deus evangélico é centralizador e não compartilha seu reino.

Ele não se utiliza das pessoas para agir, e exige que tudo passe por Ele, sem outro tipo de mediação até Ele.

É um Deus do Antigo Testamento, anterior à plenitude da revelação em Cristo.

Jesus diz, em sua primeira frase, no primeiro evangelho, respondendo a João Batista que não se achava digno de desatar-lhe sequer as sandálias, que era preciso que se cumprisse "toda a justiça" Mt 3,15.  Jesus mostra mais humildade que João Batista, e quer ser batizado por João, ele que não precisava do batismo pois fora concebido do Espírito Santo.

Deus começa, no Novo Testamento, dando profundo testemunho de humildade, e transferindo aos homens a responsabilidade das transformações.

Mas como um Deus que exalta o outro pode ser exclusivista?

Nas curas e milagres não se tem notícia que chamou a si estes prodígios, mas exaltou aqueles que os conseguiram, admirando-se da grandeza da fé que possuíam.

Se não entendermos a humildade de Deus não conseguiremos conhecê-lo verdadeiramente.

Corremos o risco de nos lançarmos de volta ao Antigo Testamento, fazendo uma interpretação fundamentalista, sem aceitar que a revelação de Deus vem, de fato, com Jesus Cristo, que mostra um Deus compartilhador, que deseja agir pela mão humana. É o Deus conosco, o Deus entre nós, em nós, e por nós. Chega!

E Jesus Cristo é absolutamente o mesmo antes de sua encarnação, durante sua encarnação, e depois de encarnação, em sua ascensão aos céus.

Jesus não compartilhava na Terra e depois tornou-se, até os dias de hoje, um centralizador.

Ser mediador, dentro desta perspectiva comporta a participação do homem em comunidade.

Ser mediador nesta perspectiva caminha junto com a intercessão dos santos, em vez de se opor a esta, aqui e nos céus, porque Jesus Cristo continua sendo o mesmo.

O livro do Apocalipse 9,1-5 refere-se às "orações de todos os santos sobre o altar de ouro que está diante do trono" que o anjo atirou à terra.

Tenho a grata satisfação de saber que não serei um inútil no céu, nem estarei "dormindo", mas manterei minha personalidade e emitirei meus pedidos diante do trono, sabedor da realidade terrena.

Deus não deseja colocar-nos numa redoma de sonolência eterna, mas continua a ajudar-nos em nosso desenvolvimento, que certamente continuará lá.

Partindo da suposição de que somente Deus é completo, forçosamente estaremos nos desenvolvendo ainda por lá, e num grau certamente bem superior ao daqui.

Nesta altura da reflexão cabe rever o tema do texto e refazer a direção da pergunta:

Afinal quem está sendo idólatra nesta história?

Deus se revela diretamente ao homem pela sua palavra, mas a palavra pode ser interpretada de diversas maneiras, uma vez que dela emanam sempre novidades para nós.

Jesus ao ser tentado no deserto, ouviu o inimigo utilizar-se da palavra de Deus para tentar seduzi-lo a utilizar o poder que de fato Ele tinha. Então não é uma novidade saber que a palavra de Deus pode e é utilizada para o mal.

Assim, é possível que eu refira-me a Deus com base em sua palavra, e ao mesmo tempo, com base em uma projeção que faço a respeito dEle. Aí vou distorcendo, um pouco aqui, outro pouco ali, até Deus configurar-se em minhas convicções.

O Deus que acompanha tudo e sabe de tudo neste instante deve estar querendo que eu faça esta reflexão sem entrar em disputa, mas mantendo-me numa reflexão aberta e fraterna, bucando a verdade e ao mesmo tempo a unidade dos cristãos.