quarta-feira, 27 de junho de 2012

A tapioca da Iolanda

Na memória de minhas passagens pelo Brasil, passei alguns anos trabalhando em uma capital do Nordeste, que providencialmente evito citar para que os personagens não sejam localizados. Trabalhava em uma metalúrgica e morava a uns 4 quarteirões da praia, uma bela praia.
Como voltava a noitinha para o meu apê, só tinha tempo de ir fazer minha refeição em alguma lanchonete das imediações, e depois voltar para casa.
Acontece que em um destes dias, exatamente ao caminhar de volta, eis que fiquei na passagem de algumas prostitutas que faziam ponto na região. Curiosamente, ao lado delas, havia uma mulher fazendo tapioca na calçada.
Quando estava passando entre elas, eis que um mulherão colocou-se à minha frente impedindo minha passagem. Parei e fiquei observando. Ela disse:
- E aí, bigode! Quer comer minha tapioca.
A questão era que, quem me oferecia a tapioca não era a tapioqueira, mas uma daquelas mulheres que rodavam a bolsa no pedaço.
Passada a surpresa, respondi:
- Como, como sim. Só que tem uma coisa.
Ela respondeu:
O quê?
- Nós precisamos nos amar. Comer sua tapioca sem te amar não dá.
Surpresa, ela sorriu, e dali em diante tornamo-nos amigos, e por muito tempo nos encontrávamos e conversávamos sobre muitos assuntos.
Seu nome era Iolanda. Era uma mulher morena grande e vistosa, muito desejável pelos homens que por lá passavam. Era prostituta e vivia do dinheiro que ganhava. Tinha uma filha, e um cafetão que a explorava. Dizia-me ser de família de evangélicos e completava:
- Eles não sabem de nada.
Tenho minhas dúvidas...
Uma ocasião recebi na cidade uns amigos do Maranhão, terra por onde eu havia trabalhado antes. Na verdade uma família, onde estavam apenas o pai e dois filhos.
À noite convidei-os para jantar em um restaurante das imediações, e eis que estávamos na rua onde Iolanda fazia ponto. Não deu outra. Percebi logo que a Iolanda estava lá, andando de um lado para o outro. Dirigi-me até ela, com os meus convidados e parei. Ela veio até a janela do carro, pensando que fosse um "cliente". Cumprimentei-a e apresentei-os a ela.
Ela respondeu, meio sem jeito, e fomos embora.
No caminho, o meu amigo se disse surpreendido com aquele contato. E achou muito engraçada a minha amizade com ela, sem acreditar tanto nas minhas boas intenções.
Passados alguns dias, encontrando Iolanda novamente, ela disse que tinha ficado imensamente envergonhada com aquela cena.
Dias depois confidenciou-me o desejo de deixar aquela vida de prostituição.
Nunca mais vi Iolanda para conferir se era verdade.
Só sei que era uma grande amiga.
Nunca mais a vi.
À propósito, não comi a tapioca dela. Não era justo. Precisava amar.