Num apartamento localizado
no Morumbi, São Paulo, aproximadamente às 21h30min da noite de Natal de 2009, estando
reunida a família em volta da mesa, com as crianças impacientes por abrir os
presentes depois da ceia, ouve do avô que aguardem um pouco mais, pois deseja
contar-lhes uma pequena história, que passo a vocês também, meus leitores: a
história do PERÚ DO NATAL.
- Esta é uma história que há
muito tempo guardo no fundo do meu coração. - diz o avô - Dela tirei muitas
lições de vida, por isso peço que se acalmem um pouquinho, e fiquem perto de
mim, para me ouvirem bem. É a história de um peru de estimação. Mas, primeiro
comecemos pelo nascimento do personagem principal, o Pereirinha.
Quando Luiz Pereira nasceu,
o Pereirinha, como lhe chamavam em sua terra, os dias eram longos e tudo durava
muito, diferente de hoje, em que não se tem mais tempo para nada .
Foi num vilarejo chamado
Artêmis, um bairro rural de Piracicaba, em São Paulo, onde a vida era tranqüila
e monótona: jogar no campinho de futebol, nadar e pescar no córrego, trepar nas
árvores para comer goiaba ou jabuticaba, e chupar laranjas pelas tardes afora.
- Vovô, que diferença as
coisas que se fazia antigamente, com o que fazemos hoje. – disse um dos netos
- É verdade Carlinhos, não
existiam vídeo games, mp3, ou coisa do gênero. Cada tempo com sua verdade. Eram
os idos de 1970, e o Brasil passava por um período de trevas, com perseguições
e mortes. Nada disto, porém, afetava a tranqüila vida de Artêmis.
Nascera numa casa, com ajuda de parteira, com um grande jardim de frente, dois quartos, sala, cozinha e banheiro,
quintal comprido terminando num muro, com o mato do outro lado. Este foi local
onde Pereirinha nasceu e passou sua infância. No fundo da casa, seu pai
plantava algumas verduras para o consumo diário, e mantinha uma pequena criação
de galinhas.
Em Artêmis parecia que o
tempo demorava a passar, e as paisagens repousavam como pinturas nos quadros. Havia
o perigo, mas de outro tipo: picadas de cobras, aranhas, medo de fantasmas,
almas penadas, morcegos, nada como nos dias atuais, com o mal barbarizado, que
nem merece ser citado.
O lugarejo era praticamente
uma rua onde todos se conheciam: a vendinha do Seu Luiz, com o caderneta de
conta, o açougue da Antônia, moça de braço forte no uso da machadinha, a
barbearia do Pedro, a Escola Municipal, da Dona Mariazinha, a diretora.
Os demais trabalhavam na sua
roça, ou por empreitada. Dona Sebastiana, a Tiana, sua mãe, mulher prendada,
cuidava da casa, lavando e passando roupas, fazendo a comida para o Seu João,
seu marido, que tinha um pedaço de terra arrendado.
Quando ficou grávida do
Pereirinha, o primeiro filho, foi uma festa.
Ali, como de costume, o festejo
era compartilhado por todos. Um trazia o salgado, outro um bolo de fubá, ou de
milho, assim juntavam tudo, punham sobre a mesa, e sentavam-se para prosear
enquanto comiam.
Ficavam de conversa ao
relento da tarde, terminando cedo, porque dormiam todos com as galinhas, não
havia muito que se fazer à noite. Foi assim quando Tiana engravidou, parou o
lugarejo, festão.
Depois, João correu na cidade,
e comprou um filhote de peru, um peruzinho, “prá se alembrá”, como diz o
caipira, daquela data, ou para assar, quando nascesse o bebê. Sabia que o povo
ia se reunir de novo, homem precavido.
Barriga crescendo, João
arando, assim passou o tempo. Nas vésperas do nascimento, João voltava mais
cedo da lavoura, preocupado, deixando sempre a Bércia, a parteira, de
sobreaviso.
Ah, o peruzinho também ia
crescendo. Estava perdendo as suas penugens, já com algumas pequenas penas.
Ainda não crescera o esperado, sendo criado meio solto, longe das galinhas.
Passeava pelo quintal,
entrava de vez em quando na casa, pela cozinha, filando com a Tiana algo para
comer, que ela jogava. João não tirava o olho dele, vendo-o ganhar peso.
Pensava no dia em que iria matá-lo para a festa.
Mas, coisa estranha, bastava
o peruzinho ver João, e corria em sua direção enroscando-se entre as suas
pernas, de alegria. Tanto, ao longo do tempo, ele foi tomando tal apreço pelo
bichinho, que logo se afeiçoou de vez.
Já não pensava mais em
sacrificar, para comemorar o nascimento. Assim, quando Pereirinha nasceu, em
fevereiro de 1971, existia um peruzinho de estimação que o acompanharia durante
boa parte de sua infância.
Pereirinha nasceu de parto
normal, chorando forte. Bércia fizera um belo parto; lógico, contando com o
esforço de Tiana. Ao nascer, Mariazinha, diretora da escola, amiga que
acompanhara tudo de perto, fez um café forte, e o deu a Tiana para beber. Esta,
repleta de alegria, após uns goles, entornou devagarzinho o café na boca de
Pereirinha, para que bebesse aos golinhos.
Foi assim, que Pereirinha
tomou sua primeira refeição, em vez de mamar do leite materno, café. As visitas
da semana para o menino, fizeram parte do noticiário de Artêmis, onde parecia
que a vida não passava.
É difícil calcular, com os
olhos voltados nos tempos de hoje, o que significava a paz e a harmonia daquele
lugarejo afastado. Silêncio para pensar na vida após o jantar, tempo para
conversar sobre assuntos corriqueiros, naturalidade em oferecer produtos entre
uns e outros.
Aos domingos, a maioria ia à
missa. Vinha um padre da cidade, com hora marcada, para a capelinha de Nossa
Senhora de Aparecida, devoção local.
Depois, os homens jogavam
Bocha, gritando e fazendo troças entre si, enquanto as mulheres proseavam
preparando a refeição. Ao final da tarde, jogavam futebol de campo, com camisa
de time, torcida e tudo, até o sol se por.
Da primeira vez que João e
Tiana saíram à rua com o menino, todos acharam graça. Atrás, seguindo-os, como
se fosse da família, ia o peruzinho acompanhando os três.
Não comentavam na frente,
para não desagradar, mas era motivo de riso geral, ver o animalzinho seguindo
seus passos, com a maior tranqüilidade.
Era um peru de estimação.
O tempo transcorreu,
Pereirinha foi crescendo, tendo como companheiro aquele bichinho. Aos cinco
anos, Pereirinha permanecia boa parte do dia em casa. Como o peru conquistara o
direito de ir até a cozinha e vivia solto no quintal, ambos passavam grande
parte do dia juntos, Pereirinha e o peru.
Quando ficavam distantes, o
menino assoviava para ouvir o glugluglu, e localizar seu amigo. De outro lado,
era só o peru ver o Pereirinha, e pronto, se enchia todo com as penas e ficava
a rodar e rodar, de contente.
Foi tanta amizade, que
começaram os ciúmes. Chegava visita, e ninguém podia aproximar-se do menino,
que o peru ficava bravo, e bicava. Só os pais conseguiam colocar o menino no
colo, mais ninguém. Tornou-se mesmo um incômodo esta ciumeira toda, com o peru
botando banca, todo estufado e bicando os intrusos.
Aproximava-se o Natal de
1976. O Brasil ainda vivia tempos sombrios de repressão política e falta de
liberdades, embora o movimento social pelo retorno da democracia já mostrasse
sinais de vida.
Menos em Artêmis, onde esta
realidade parecia não existir. Lá continuava aquela vida pacata, voltada para
si mesma. Ouvia-se uma conversa que na cidade, em Piracicaba, a vida estava
mais difícil, e que ocorreram conflitos entre estudantes e policiais, uma
confusão mesmo. Estranharam até em Artêmis quando alguns jovens, filhos das
famílias locais, mudaram-se para São Paulo. Disseram buscar oportunidade de
trabalho, que um pedaço de terra para tanta gente era insuficiente. Também,
queriam conhecer novidades, coisas novas, que não encontravam naquele lugar
distante.
Nada que alterasse
substancialmente a vida local, mas preocupava, esse esvaziamento.
João e Tiana não ligavam
para isto, e mantinham suas rotinas, de modo que preocupações à parte, seguiam
em frente. Pereirinha, não largava da saia de sua mãe por onde ela fosse, e o
peru atrás.
Era dezembro, e como de
hábito nestas épocas, Tiana saía para fazer algumas compras na cidade,
preparando os presentes e separando alimentos para a grande ocasião do Natal.
A Missa do Galo em Artêmis,
seguia um ritual da época, realizada mais à noite, com tempo apenas para voltar
e fazer a ceia em casa com os familiares e amigos, diferente de hoje, que se
celebra mais cedo, ou não se vai.
Por duas vezes ela foi a
Piracicaba comprar tecidos para presentear parentes que viriam de fora, e pegar
alguns ingredientes que não tinham na vendinha do Seu Luiz, para não faltar na
hora.
Ademais, faria um leitão assado,
uma carne de panela, com um arroz e farofa de castanha. Tiana não assava
galinha, porque acreditava que ciscavam para trás, e era de mau agouro. Peru,
nem pensar, em respeito ao amigo de Pereirinha.
Todos os preparativos
estavam bem encaminhados, pelo dia 23 de dezembro, com a proximidade do Natal.
João reduzira seu trabalho na lavoura, e Tiana ajeitava o presépio junto da
árvore de Natal, tudo muito simples.
Quando chegou a noite do dia
24 para 25, arrumaram-se para a Missa do Galo, que àquele ano seria celebrada às
21h00min. Ao entrarem no quarto de Pereirinha para aprontá-lo, eis que dormia
profundamente sobre sua cama.
Com pena de acordá-lo,
arrumaram-no jeitosamente, sabendo que estariam apenas 01h30min longe de casa.
Ao voltarem, seria acordado e celebrariam a festa juntos. Fizeram tudo sem
barulho, saindo silenciosamente de casa, até a capela de Nossa Senhora de
Aparecida.
Esqueceram-se, entretanto,
de fechar a porta da cozinha, que dava para o quintal. Enquanto estavam fora,
entrou por uma brecha do quintal, uma cobra jararaca, venenosa, que foi se
arrastando até a cozinha, e em direção ao quarto onde estava Pereirinha
dormindo. Não sabia ela, que do lado de dentro, velando ao lado do menino que
dormia, estava o peru, seu fiel companheiro.
Ao pressentir o perigo, o
peru se encheu de coragem, e pôs-se entre a serpente e a criança. Ocorreu um
luta feroz; de um lado a serpente lançava botes sobre o peru, que por seu lado,
rodeava a serpente, procurando bicar sua cabeça.
Num destes ataques, a
jararaca picou-lhe a coxa, ferindo-o mortalmente. Com o veneno já fazendo
efeito, o peru reuniu a sua última energia, avançou decididamente sobre a
cobra, e golpeando-a por duas vezes na cabeça acabou por matá-la. Em seguida,
desfaleceu.
Quando João e Tiana voltaram
da missa, assistiram horrorizados a triste cena do peru morto, junto à cabeça
estraçalhada da jararaca, aos pés da cama de Pereirinha, que continuava dormindo,
como se nada tivesse acontecido. Concluíram que o peru protegera seu filho da
morte.
Naquela noite não o acordaram.
Jogaram fora a cobra morta, envolveram o peru num pano e o enterraram.
Lembraram-se do livro de
Gênesis, onde Deus diz que a serpente picaria o calcanhar da mulher, mas que
teria a cabeça esmagada por ela, e agradeceram a intercessão da Virgem Maria,
Nossa Senhora de Aparecida, pela proteção da vida do Pereirinha.
Decidiram, ali mesmo, em
oração, organizar uma excursão, no ano seguinte, à cidade de Aparecida, para
agradecer a Deus.
Pela manhã, ao acordar, o
menino assoviou, sem resposta, chamando o peru. Levantou-se e foi até o
quintal. Lá encontrou um triciclo que pedira ao Papai Noel, mas não lhe
interessou. Queria saber por que o peru não respondia. Sua mãe aproximou-se,
com os olhos cheios de lágrimas e disse.
- Filho, ontem quando fomos
à Missa do Galo, te deixamos em casa, porque você dormia. Pensamos que um pouco
de tempo longe não seria problema. Mas uma cobra venenosa entrou em casa, e
podia te picar. O peru veio em sua defesa e matou a cobra. Mas como foi também
picado, acabou morrendo.
- Onde ele está papai? –
murmurou soluçando.
- Papai e mamãe prepararam
um jeitinho dele ficar sempre conosco – disse-lhe seu pai - por isso, o enterramos
no fundo do quintal, onde gostava de ficar.
Choraram muito, naquele dia
25 de dezembro de 1976, por causa do peru, que morrera na véspera. Mas também
ficaram felizes por ter ele salvado seu filho.
Pereirinha nunca mais comeu
carne de aves, em respeito ao peru de estimação, que o acompanhou na infância,
e entregara sua vida pela do seu amiguinho.
Meus netinhos, eu sei que
vocês devem estar um pouco tristes com esta história. O importante é saber que
amizade não tem preço, e se um bichinho faz isto por nós, o que não dizer de
Jesus, que entregou sua própria vida por todos nós, para que possamos encontrar
alegria e salvação para nossas vidas.
Hoje comemoramos seu
nascimento. ele não é maior que qualquer presente?
Contei esta história para
vocês, para que fiquem sabendo que Jesus também foi perseguido por uma
serpente, e que Ele, assim como o peru, é tão importante, que deve ser lembrado
como membro da nossa família.
Jesus, como o peru de
criação de Pereirinha, está sempre conosco, sente quando estamos bem ou quando
passamos por perigo, e procura nos proteger.
Não sou contador de
histórias, faço apenas o relato do que vi e ouvi. Esta é a minha historinha, meus netos, a
história do seu avô Pereira.
Sim, eu, o Luiz Pereira, o
Pereirinha da história.
Nunca mais em minha vida
comi carne de ave, de qualquer espécie, devido à lembrança do peru de estimação
que papai comprou para festejar meu nascimento, e que guardo comigo, em meu
coração até hoje.
Para terminar, sei que é
difícil entenderem agora, mas saibam que Jesus ainda hoje se oferece por mim, e
por vocês todos, meus filhos e netos, através de sua carne e de seu sangue, na
hóstia e no vinho, consagrados.
Bem isto é mais difícil de
ser entendido, e vale uma história muito maior a ser contada por vocês no
futuro.
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