sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A cidade que se apaga e a cidade que acende
Duas cidades se dividem em seus afazeres diários.
Quando uma se apaga, surgem os cantos, os papelões, cobertores enrolados, barbas.
Ajeita-se no escuro, amontoa-se, sente fome.
Cidade esquecida de si mesa, sem passado, sem futuro.
Anda êrma, fedida e suja.
Anda numa multidão só.
Não reside, não estuda, não participa.
Mas também não falece.
Cidade nua e friorenta.
Cidade dos bares egoístas e das casas fortificadas.
Cidade doente e viciada.
Cidade paradoxalmente pura e verdadeira.
Cidade sincera, da conversa limpida, da fé não convencional.
Outra cidade traz o dentifrício de um sorrizo padrão, nos ternos escravos, e carros prisões.
O clarão da dívida, dividida, sempre negociada, e uma imagem num espelho quebrado.
Cidade dos horários, das pontualidades subversivas da ordem natural.
Luz que cega.
Luz que ofusca sensibilidades,
Luz de ordem unida irrefletida.
Uma cidade não se encontra com a outra, não tem um encontro com a outra.
Uma deixa a cena para a outra emergir.
Cidades unidas mas separadas, perdidas mas encontradas.
Vivo entre o claro e o escuro, entre o sonho e a realidade.
Vivo e desvivo, subvivo, supervivo.
Morto vivo.
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