segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A Janela da vida



Olho para a janela. O sol da tarde deixa uma curiosidade, sobre o que as pessoas estão fazendo do lado de fora.

Os parques devem estar cheios de famílias, com seus filhos. Casais de namorados encontram lugares tranqüilos, longe da movimentação.

Devem estar aproveitando as sombras das árvores, neste calor, deitando-se à beira de alguma lagoa, observando peixes e os gansos que deslizam livremente sobre a água tranqüila, retirando algum pedaço de pão de seu próprio lanche, para alimentá-los, só para ver como disputam o alimento.

Outros caminham nas ruas, indo a um Shopping Center assistir a um filme, e tomar um sorvete, comer um lanche.

Ou então, estarão em casa, com toda a família reunida para o almoço, conversando sobre os acontecimentos da semana.

Permaneço longe de tudo isso.

Estas situações, consideradas tão normais, para todos, neste momento possuem para mim um valor inestimável.

Como dava tão pouca importância para isto, e agora, que vontade de estar em algum destes lugares, destas situações.

Vida contraditória: não apreciar o que vivia, e ao perdê-la sentir saudades.

Um dia depois do outro.

As feridas não cicatrizam, demoram.

Devo ter paciência, para manter-me calmo, longe da agitação em que vivia.

A enfermeira entra no quarto.

Examina o soro, mede a pressão, observa a ferida, prepara uma nova bandagem.

Sinto-me dependente em tudo.

Nada mais posso fazer por mim mesmo.

Até nas pequenas coisas, como ir ao banheiro, dependo de alguém.

Alimentar-me? Mas os alimentos parecem sem sabor, com pouco sal.

Um dia sairei. Serei o mesmo? Com os mesmos sonhos? Verei o mundo da mesma forma de antes, com tanta falta de consciência da importância das pequenas coisas que desprezava?

Não! Nunca mais. Um dia sairei; não me cabe dizer o momento. quando isto ocorrer quero resgatar o que não fiz, se ainda houver tempo. 

As feridas que cicatrizem, e a fisioterapia que me recomponha.

Sobre esta cama, sem nada fazer, aprendi a humildade, a paciência, a esperança.

Uma mudança vem em mim, contra a vontade, sem desejar.

Aprendi uma humanidade que estava esquecida. Vou recolocar a vida em uma nova dimensão.

Uma aprendizagem sem esforço, imobilizado que estou.

O amanhã será diferente. Uma grande mudança ocorreu em mim.

Descobri, que sem me dar conta de mim, algo tocou, transformando-me.

Que mistério a vida!

Olho para fora pela janela, e percebo que é dentro, e não fora, a visão que falta.