segunda-feira, 21 de março de 2011

A democracia como meta e como limite.

A visita do Presidente Obama no Brasil massageando o povo brasileiro em sua experiência democrática, e indicando que ela é exemplo para os povos árabes, é uma faca de dois legumes como se diz por aí.

Na verdade é uma tentativa de nos fazer crer que o sistema democrático responde a tudo e a todos, e não é bem verdade assim.

Atacar a Líbia para impor um grupo no poder não é respeitar uma experiência democrática, por mais totalitário que Kadafi possa ser. Se o bombardeio da Líbia pertence ao sistema democrático de vida, então ele deve ser repensado, concordam?

Ou há um poder no voto, ou há um poder nas armas. Não é possível combinar estes dois poderes.

Ou há representatividade e exemplo, ou rompemos com nossa tradição democrática, e partimos para atacar aqueles que discordam de nosso caminho.

A onda de revoltas que invadiu o Oriente Médio foi justificada pela mídia em grande parte pela ausência de democracia, uma vez que não se descobriu, de maneira tangível razões para a amplitude destes movimentos em grande parte espontâneos.

Foram de fato movimentos voltados para questões bem particulares da vida do cidadão, a saber, a oportunidade de emprego, segurança, moradia e comida.

A democracia não esteve entre os sonhos desta população desempregada, e sim a falta de condições econômicas, profissionais e de bem estar.

A democracia veio em consequência, ou por exclusão, pois não conheciam outro.

Afinal grande parte dos regimes existentes na região são totalitários, oriundo do nasserismo, isto é, nacionalismos com visão de "esquerda". Esta falsa visão de "esquerda" pode ser um das explicações do baixo interesse político, por haver uma frustração com um projeto que no passado trouxe muita esperança, mas não vingou.

Página virando, inicia-se uma nova falsidade para os sonhos destes povos.

Não é uma irupção de momento que trará uma participação efetiva e um retorno de felicidade para estes povos, nesta nova caminhada.

Não, a democracia é em muito, uma justificativa inócua, se ela não for contruída em novos moldes, porque nós que vivemos sob o manto democrático sabemos quão distante é o eleitor de seus representantes, e consequentemente de aspirações que ele tem e que muitas vezes não se realiza.

Sim a democrcia tem limites.

Ela fornece um sistema de representação formal, que ainda que oficial, não amplia a teia  da representação, deixando excluídos grandes contingentes sociais, que acabam se sentindo representados pelos seus canais mais próximos de representação, e assim acabam por ficar de fora do sistema democrático, e pior, acostumar-se com isto.

Há uma seletividade no sistema democrático: quanto mais se sobe na escala do poder político institucional menos se ouve e se atende as demandas mais baixas, de forma que ao final, há uma permanência de poderes tradicionais, que se mantém por tempo maior do que as pressões que não tem mais como esperar.

Vejamos a democracia brasileira. Ela é fruto de uma experiência dolorosa e de longa duração com o totalitarismo. Mas a experiência dolorosa continuou mesmo dentro da própria democracia, exigindo que o povo brasileiro desse e continue dando passos a frente, no sentido de ampliar sua participação social.

Isto aponta para um novo sistema de vida social, já antigo para nós, mas historicamente novo.

É o chamado sistema socialista de vida social.

Este sistema ainda não está definitivamente consolidado, mas ele deixa claro que a democracia formal deve avançar no sentido de abrir oportunidades para grandes contingentes da população, que estão ansiosos por realizar seus projetos.

Como veem, as reivindicações dos povos do Oriente Médio por democracia, é ainda um sonho em uma noite de verão.

É preciso experienciar a participação, rompendo os paradigmas da democracia tradicional, que, a rigor, não se diferencia muito dos sistemas totalitários, se nós mesmos continuarmos a ser totalitarizados. Compreendem?

Exigirá esforços? Muito, mas é preciso ver os jovens, as crianças nos colos de milhares de mães, que serão amanhã o contingente dos novos sonhadores por um mundo novo.

É preciso que construamos uma democracia cada vez mais aperfeiçoada,  aproximando o cidadão do governante.

Este é um legado permanente, que a nossa geração tem a obrigação de fazer a sua lição de casa. Não se constroe uma nação com hiatos políticos sociais.

É preciso resgatar a dignidade para os povos com aprofundamento democrático e ampla participação social.