segunda-feira, 21 de março de 2011

Reflexões sobre a Barra Funda

É muito interessante analisar os Bairros e suas transformações durante o processo de desenvolvimento por que passa o país.

Já morei nas Perdizes, na Vila Mariana, Na região do Portal do Morumbi.

Na verdade já morei em muitos outros lugares, considerando-me um cigano, na acepção da palavra, isto é, um nômade urbano.

Mas os que citei são suficientes para a reflexão de agora.

Nunca vi os bens que possuí como insubstituíveis, não sendo, portanto, atávico a lugares.

Tive por isso a graça de poder vivenciar vários espaços urbanos, com olhos comparativos e críticos.

Vivi entre as elites, e entre os pobres.

Já engordei por tantas alternativas de alimentos em minha frente, como já emagreci por falta de condições para comer, seja por razões de saúde , seja por não ter dinheiro.

Em tudo fui aprendendo o lado real dos acontecimentos, e o que eles me diziam.

Também pude perceber, em boa parte deles, o que Deus achava disso tudo, e que mensagem sempre deixa, para o bom observador. É preciso discernimento, nestes casos, pois é questão subjetiva, não sujeita à observação científica. Deixa para lá.

Bem, Barra Funda é um bairro sui generis.

Encravado num canto do centro da cidade de São Paulo, no entorno da linha de trem e a marginal, de um lado, e a Avenida São João do outro, estende-se até a região do Parque da Água Branca. Alguns dirão que aí já é Perdizes, mas as Perdizes, pela sua valorização imobiliária, acabou abrangendo com seu nome, por razões de especulação, outras áreas, até um pedacinho final da Barra Funda.

A Barra Funda é, portanto um bairro central, com características de bairro central, com uma população de tipologia própria, do morador do centro.

O morador do centro de São Paulo é uma pessoa que gosta da comodidade de ter tudo à sua porta, e não se importa se convive com outros segmentos sociais, ou mesmo marginalizados.

Há um certo costume nesta convivência que só os moradores do centro tem.

Os outros bairros que citei, não possuem estas características.

A classe média destas outras regiões é mais intimista, segregacionista ou elitista, ainda que afirme o contrário.

Tem hábitos e gostos diversificados servindo-se de outras regiões da cidade para satisfazer-se, o que não faz parte das características do cidadão do centro, mais atávico.

A composição social da Barra Funda está em profunda mudança. Há mesmo um choque cultural sem precedentes, porque confronta com as características dos novos moradores.

Há uns 15 anos aproximadamente, vem se multiplicando a construção de grandes edifícios residenciais, onde tem se instalado uma nova classe média na região.

Até então, a Barra Funda foi um bairro fabril, com muitas indústrias gráficas, e mecânicas, e de comércio variado, sem tipificar um ou outro.

Havia também uma população de moradores que vivia em volta destas atividades, mas também voltada para atividades fora. Esta população enquadrava-se nas características de uma classe operária, que foi ascendendo em sua condição econômica e social, sem perder suas características populares, qual seja da facilidade do convívio na diversidade, e do relativamente médio poder aquisitivo.

Esta classe média média média tradicional, encontra-se ainda hoje aí, sem perspectivas de permanência a longo prazo, pois a tendência de modernização da região é inexorável.

Esta miscigenação social está a produzir confrontos aí para a frente.

A juventude do bairro, seja pela baixa formação intelectual dos pais, seja pela visibilidade dos novos invasores, se insurge em ações deliquentes, como resposta a sua falta de perspectiva profissional e de vida.

Esta falta de perspectiva se vê na multiplicidade de igrejas que se instalaram, prevalecendo as tendas de umbanda, os espíritas, depois os evangélicos. Os católicos permanecem dentro da tradicionalidade e não tem se alterado. 

Ontem, domingo, um grupo de jovens veio perto do pequeno edifício onde moro, só para provocar e atirar pedras num grupo de cães que vive num canto perto.

Quando os cães se enraivecem e avançam os moleques saem fugindo e sobem nos carros estacionados amasssando uma boa parte deles, e entre este o meu carrinho 1000.

Fiquei revoltado e juntei-me aos cães para expulsar aquela turma para longe.

Não adianta, eles voltam e continuam.

Eles não tem outras perspectivas de vida, então sobra fazer destas ações sádicas, como aprendizado para coisas maiores amanhã.

Deixei claro?

O governo não tem leitura de nada e age coercitivamente, então esta é uma tragédia anunciada, de perda de perspectiva e de formação de futuras gangues