quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Muamar Gaddafi, ilusão de "esquerda"

Para começar, dá vontade de recitar um poema de Carlos Drumond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?

E agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…

Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !

José, pra onde ?

Pois é, o José aqui, somos todos nós que no passado, lá pelos anos 60 acreditávamos que havia um movimento revolucionário, ou de "esquerda" nas revoluções da era nasserista em todo o Oriente Médio, que se rebelavam contra os EUA.

Tudo ficou no discurso, sem trazer, de fato, transformações positivas para as seus povos. Hoje assistimos estes velhos líderes totalmente superados, mais que isto, enlouquecidos, idólatras de si mesmos, enquanto a fome graça em seus países.

Que se possa reparar estas visões distorcidas, e se rediscutir caminhos concretos para a democracia e ao socialismo, sem ter de abonar loucos, por aí