sábado, 5 de março de 2011

Do caiçara ao transatlântico

Ubatuba, cidade localizada no litoral norte do Estado de São Paulo, possui em uma de suas entradas uma imensa estátua, de aproximadamente uns 20 metros.

É um monumento ao caiçara.

Está lá por lembrança, por desaparecimento, figura hoje longínqua, de tempos e situações históricas especiais.

Tem um grande remo em suas mãos, que em pé, fica ainda mais alto que a sua própria imagem.

É como se fosse um totem indígena, ou um monolito andino a reverenciar um deus desaparecido, do passado.

Assim era o caiçara, o homem do mar e da pequena roça caseira. Homem de poucas e seguras palavras. Faltavam-lhe ocasiões para mentir.

Ainda conheci alguns, no topo da serra do mar, ao visitar uma aldeia de índios que vivia na região pelos anos 70.

Homem mais do isolamento, que da solidão, quiçá o segundo ecólogo brasileiro, depois dos grandes grupos indígenas.

Sua canoa arrastada entre troncos, sobre a areia da praia, prenunciava marés, temporais, tempos firmes, protegida sempre em terrra firme.

Sua canoa, singrando marolas deste litoral entrecortado, resguardado do mar aberto, pouco perturbava o ritual entre a lua e o oceano.

Por isso, era como se caminhasse sobre o mar, em pé, em sua canoa, respeitando o limite do sustento de sua casa.

Moer uma garapa, cortar um fumo, e preparar o cigarro de palha, para apreciar o entardecer, vencia todas as filosofia, silenciosamente.

No mar, um encontro com o Divino, no reconhecimento natural da pequenez humana, diante da imensidão da criação, na dependência de um oceano sempre inexplorado e conhecido.

Este caiçara, desaparecido, conserva-se na entrada da cidade, como símbolo de perfeição, aposentadoria, premiação.

Enquanto isto, um imenso farol de automóveis circunda as serras e desce ao litoral.

Roncos bizonhos de metais batendo fazem um enxame mecânico ocupar a terra.

Quando chegam aplainam, acimentam, cobrem, até circunscrever a mata a desejos pictóricos.

Então apontam os céus, não para clamar, mas captar imagens inúteis refletidas em telas incubadas,  infecundas.

Num instante, o mar parte-se em dois. Uma cidade flutuante ancora próxima à cidade transfigurada, desfigurada.

Uma arqueologia turística revolve os escombros de um aldeia destronada.

Um povo nômade, alienígena, redefine preços, produtos, hábitos, enquanto saqueia incautos produtores seculares.

Brasil do Brasil, meu Gilberto Freire.