sábado, 24 de setembro de 2011

Atentado e suicídio de garoto de 10 anos nos remete ao Brasil desenvolvimentista





A professora que recebeu o tiro pelas costas, surpreendeu-se ao saber que havia sido "D" o autor do disparo, convalescendo-se sobre uma cama.

Todos os que conhecem os personagens desta tragédia são unânimes em afirmar sua incompreensão com o acontecimento, pois aparentemente "D" nunca demonstrara sinal algum de anormalidade comportamental.

O fato, entretanto, em si, já traz sinais contundentes. Vejamos:

1) Pai policial militar.

Depreende-se educação rígida, militarizada, forte autoridade, com clara distinção entre o que é "certo" e o "errado".

Tive por muitos anos, em minha juventude de solteiro, um vizinho homossexual, o Betinho, excelente rapaz, muito discriminado, há  50 anos atrás.

Filho de Coronel do Exército.

Ainda que eu admita que o homossexualismo tenha muitas razões de ordem genética, existe a questão cultural de ter sido educado com tal rigidez e machismo, o que também pode ter influído sobre sua "escolha" sexual.

Betinho não está mais conosco: faleceu de AIDS quando o surto da doença não tinha os coquetéis vitamínicos de hoje.

"D" podia muito bem estar vivendo a pressão militarista de educação familiar.

Esta educação rígida esconde  as disfunções comportamentais, e torna a criança "aparentemente" ajustada e "sem problemas".

Preocupa-me sobremaneira o identificar a criança como "boa", por parte dos professores, revelando completa falta de percepção e preparo dos mesmos nos cuidados da educação.

Os "desajustados", como fui, são mais presentes e ativos que os "ajustados", que seguem as normas sem reflexão.

Mas os "desajustados", são reprimidos desde cedo, e isto os livra de internalizar as neuroses.

2) Havia uma correlação entre a educação familiar e a educação institucional, representada pela professora, e que precisa ser esclarecida.

O pano de fundo pode ser de ordem moral, comportamental, ou até mesmo sexual, não sabemos, mas deve ser investigado.

A professora é bonita? é idolatrada pelos alunos? É rígida? Maltrata as crianças? Desdenha?

Deve-se tirar a limpo a forma de relação desta professora com este aluno, o D.

A professora não está isenta de responsabilidade, e mesmo que não tivesse nada a ver, o que não creio, restaria ainda a percepção necessária do problema por ela, o que não ocorreu.

A surpresa da professora é um forte indicativo do desconhecimento do problema de seu aluno.

3) A ausência de uma educação pacifista, tendo a disponibilidade de ver e manusear uma arma, é um importantíssimo fator de deflagração da tragédia.

E aqui digo, que todos aqueles que votaram no plebiscito pela venda de armas, devem considerar-se co-autor do crime, pois disponibilizaram a arma de alguma forma.

4) O suicídio pode estar ligado, mais a um temor de receber punição, talvez paterna, do que por vontade de tirar a sua própria vida.

O suicídio pode ter sido planejado juntamente com a pretenção de atirar na mestra, porque foram ações simultâneas e imediatas.

Todos estes fatos nos remetem ao Brasil desenvolvimentista, que exige de todos, patamares cada vez mais elevados, que destrói os valores básicos da família, princialmente o amor familiar, e o amor como valor máximo, universal.

Brasil que faz um jovem matar meninas no Rio de Janeiro, deixando carta eloquente de defesa de valores fundamentalistas, como refúgio para com a perda do sentido da vida no mundo.

É a perda de valores versus um purismo espiritual, comprimindo o indivíduo de hoje.

Imagine isto em uma criança.

O Brasil não tem tempo em sua arrancada para um novo patamar civilizatório.

Todos devem se enquadrar e buscar rapidamente o seu espaço, não havendo mais oportunidades para reexames das mentes e os corações.

Os tiros, a êsmo, continuarão a ser disparados, "sem explicação" como os inùmeros assassinatos que ocorrem constantemente na sociedade norteamericana, acostumada à neurose capitalista.

Sim, desejamos um Brasil mais calmo, com desenvolvimento, mas com proveito, aproveitamento da vida, compartilhamento do tempo para um usufruto de amor social.

É possível a sociedade do amor? da paz?

"D" preserva o nominho que este menino nos deixa, para não ser mais condenado.

"D" não precisava ter feito isto.

Muitas circunstâncias o levaram a este crime.

Não aceito que um garoto de 10 anos pudesse ter decidido, com malignidade, ter feito este crime, sem se sentir impelido a fazê-lo.

Brasil desenvolvimentista...

Pela primeira vez sinto em minha a vontade de ser saudosista.

Ah, que saudade me dá do Brasil dos anos de 1950/60.